sexta-feira, 23 de março de 2018

Enchei-vos do Espírito - Parte 4

SUJEITANDO-VOS UNS AOS OUTROS


Luciano Motta

A última ação para nos mantermos continuamente cheios do Espírito Santo é nos sujeitarmos (hupotasso) uns aos outros. No grego, significa “estar subordinado, colocar-se em sujeição, obedecer”. O Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong (2002) afirma sobre essa palavra: “termo militar grego que significa ‘organizar [divisões de tropa] numa forma militar sob o comando de um líder’. Em uso não militar, era ‘uma atitude voluntária de ceder, cooperar, assumir responsabilidade, e levar uma carga’”. Devemos nos sujeitar uns aos outros no temor de Cristo (Efésios 5.21), ou seja, em reverência, submissão e obediência à atitude que o próprio Cristo teve em sua vida – isso será desenvolvido pelo apóstolo Paulo nos versos seguintes.

Antes, uma observação importante: algumas versões da Bíblia iniciam nova seção na epístola de Efésios justamente nesse verso 21 (até removem o gerúndio do verbo), separando-o do contexto anterior. Porém, lembramos que as sentenças "falando entre vós com salmos", "entoando e louvando de coração ao Senhor”, “dando sempre graças por tudo” e "sujeitando-vos uns aos outros" são ações continuadas da oração principal "enchei-vos do Espírito". Separar qualquer uma dessas ações induz a uma leitura incorreta do texto e, consequentemente, acaba excluindo a sentença “sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo” da exortação para sermos cheios do Espírito.

A atitude voluntária de cooperar e de se submeter ao outro se estende a três tipos de relacionamento: entre a mulher e o marido (5.22-33), entre filhos e pais (6.1-4) e entre escravos e senhores (6.5-9).

O mistério: Cristo e a igreja

“Mulheres, cada uma de vós seja submissa (hupotasso) ao marido, assim como ao Senhor; pois o marido é o cabeça da mulher, assim como Cristo é o cabeça da igreja, sendo ele mesmo o Salvador do corpo. Mas, assim como a igreja está sujeita (hupotasso) a Cristo, também as mulheres sejam em tudo submissas (hupotasso) ao marido” (Efésios 5.22-24).

Em tempos de feminismo e empoderamento da mulher, essa passagem é praticamente uma afronta, um "crime". Contudo, não muda a ordem que Deus estabeleceu desde a criação: o marido é o cabeça da mulher como Cristo é o cabeça da igreja. Não implica inferioridade da esposa, mas ressalta a conduta que o marido deve ter em seu lar:

“Maridos, cada um de vós ame (agapao) a sua mulher, assim como Cristo amou (agapao) a igreja e a si mesmo se entregou por ela, a fim de santificá-la, tendo-a purificado com o lavar da água, pela palavra, para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. Assim, o marido deve amar (agapao) sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama (agapao) sua mulher, ama (agapao) a si mesmo. Pois ninguém jamais odiou o próprio corpo; antes, alimenta-o e dele cuida; e assim também Cristo em relação à igreja; porque somos membros do seu corpo. Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá a sua mulher, e os dois serão uma só carne” (Efésios 5.25-31).

Observe a ênfase no amor do marido para com sua esposa (o verbo agapao corresponde ao substantivo ágape). Não se trata, portanto, de domínio ou posse, mas de sacrifício próprio e entrega. O texto não salienta os direitos do homem sobre a mulher, mas as responsabilidades dele para com ela.

O amor ágape – que é o amor sacrifical e doador de Deus – tem um caráter muito diferente de outras palavras relacionadas a “amor” no grego, como no sentido de luxúria e desejo (epithumia), de atração física e passional (eros) e de afeição e amizade (phileo). O apóstolo Paulo definiu a essência de ágape desta forma: “O amor é paciente; o amor é benigno. Não é invejoso; não se vangloria, não se orgulha, não se porta com indecência, não busca os próprios interesses, não se enfurece, não guarda ressentimento do mal; não se alegra com a injustiça, mas congratula-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Coríntios 13.4-7).

Como Cristo ama a igreja, o marido deve amar a esposa: sacrificar a própria vida por ela; ensiná-la com a Palavra e exercer seu sacerdócio com humildade e abnegação, crescendo de forma consistente e contínua na graça e no conhecimento de Deus; respeitá-la como a si mesmo, cultivando a ternura e a força, sendo um ouvido que escuta; aceitar a responsabilidade de prover e de proteger a família, tendo iniciativa e alegria ao servir.

Como a igreja se submete a Cristo, a mulher deve se sujeitar ao marido: apoiar a liderança dele de forma criativa, inteligente e sincera, como Cristo se submeteu ao Pai e obedeceu em tudo; ser sábia, edificando o lar em santidade e em tranquilidade; evitar rixas e murmurações, vencendo batalhas com orações corajosas e com palavras de estímulo e afirmação.

O casamento é, portanto, uma prévia, uma antecipação “aqui e agora” da vontade de Deus desde a eternidade: da mesma forma que o marido se une à sua mulher e ambos se tornam “uma só carne”, chegará um dia em que CRISTO, o REI-JUIZ-NOIVO, irá se casar com a NOIVA, a Sua IGREJA, e seremos UM SÓ eternamente:

“Esse mistério é grande, mas eu me refiro a Cristo e à igreja. Entretanto, também cada um de vós ame (agapao) sua mulher como a si mesmo, e a mulher respeite o marido” (se submeta de forma reverente ao marido, de forma semelhante ao sentido de hupotasso) (Efésios 5.32-33).

A honra: filhos e pais

“Filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, pois isso é justo. Honra teu pai e tua mãe; este é o primeiro mandamento com promessa, para que vivas bem e tenhas vida longa sobre a terra. E vós, pais, não provoqueis a ira dos vossos filhos, mas criai-os na disciplina e instrução do Senhor” (Efésios 6.1-4).

A reafirmação do quinto mandamento (Êxodo 20.12) destaca como é precioso aos olhos de Deus que haja perfeita união não somente entre marido e mulher, mas também entre pais e filhos. Escutar e atender a tudo que for ordenado pelos pais é um dever dos filhos. Pais são autoridade e, por isso, devem ser estimados e valorizados. Os filhos, por sua vez, são “herança do Senhor”, “como flechas na mão do valente” (Salmo 127.3-4). Por um tempo, permanecem na “aljava dos pais”, sendo instruídos e corrigidos nos caminhos do Senhor. À medida que crescem, vão reconhecendo seu destino em Deus até, finalmente, serem atirados pelos pais – assim, certamente, atingirão o alvo!

O problema é que esse ambiente de honra entre pais e filhos se tornou hoje uma contracultura: aumenta cada vez mais o abismo entre as gerações, o que tem produzido mais desentendimentos, contendas, guerras e violência. É comum ver idosos abandonados em asilos, e até dentro da própria casa, desprezados por filhos ingratos que sucumbiram à busca desenfreada por dinheiro e status.

O inverso também é uma triste realidade: muitos pais, por exemplo, não estão criando seus filhos porque “precisam trabalhar” e “sustentar a casa”. Em diversos casos, são meras desculpas para não assumirem a responsabilidade de cuidar e instruir seus filhos. Relegam a formação da personalidade e do caráter dos pequenos a tutores e parentes, muitos deles alheios aos princípios bíblicos. Há uma geração na terra que não conhece a disciplina nem a instrução do Senhor, devido a pais que não estão exercendo corretamente a sua autoridade. Acabam incitando a ira em seus filhos, que se tornam pessoas desobedientes, não ensináveis, vingativas – crianças, adolescentes e jovens sem limites, sem valores, sem discernimento entre o certo e o errado.

[ Falo um pouco mais sobre honra entre pais e filhos em outro artigo ]

O serviço: escravos e senhores

“Vós, escravos, obedecei a vossos senhores deste mundo, com temor e tremor, com sinceridade de coração, assim como a Cristo, não servindo só quando observados, como para agradar os homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus, servindo de boa vontade como se servissem ao Senhor e não aos homens. Sabendo que cada um, seja escravo, seja livre, receberá do Senhor todo bem que fizer. E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles, deixando de ameaçá-los e sabendo que o Senhor, que é Senhor tanto deles como vosso, está no céu e não faz diferença entre as pessoas” (Efésios 6.5-9).

O texto é claro: devemos obedecer e servir bem àqueles que são nossos senhores “deste mundo” (ou literalmente “segundo a carne”), ou seja, àqueles aos quais estamos subordinados. No contexto da epístola aos efésios, a escravidão ainda era parte da cultura. Sendo, portanto, um cristão, e ainda na condição de escravo, todo serviço devia ser permeado pelo mesmo amor ágape, sacrificial e doador, de Deus. De fato, na mente e no coração, eram pessoas livres, que serviam ao Senhor com trabalho honesto, sincero e generoso, sem pretensões egoístas. A recompensa não se encontrava no mundo (na carne), mas no porvir, com Cristo em Sua glória.

Nossa conduta hoje tem de ser a mesma em tudo que estiver sob nossa responsabilidade: em casa, no exercício da profissão, no âmbito eclesiástico, na universidade... Antes de estarmos sujeitos a homens, como empregados, alunos ou servidores públicos, somos servos de Cristo, a serviço Dele.

Se nossa posição é a de patrões ou de empreendedores, não podemos perder de vista aqueles que estão sob nossas ordens, considerando também suas demandas e exercendo nossa autoridade com justiça e paciência (recomendo a leitura da epístola a Filemom: medite na maneira extraordinária como Paulo lida com as questões que envolveram o escravo Onésimo e seu senhor). Aliás, é muito importante que nosso negócio reflita a grandeza do Deus a quem servimos, de modo que os perdidos vejam a excelência do nosso trabalho e glorifiquem ao Pai.

Sobre a expressão “temor e tremor”, vale destacar que, no Velho Testamento, eram palavras empregadas em resposta à presença de Deus (alguns exemplos: Deuteronômio 2.25; 11.25; Salmo 2.11; Isaías 19.16; Ezequiel 3.14-15). O profeta Daniel foi tomado por sentimentos semelhantes quando soube do sonho de Nabucodonosor. O cumprimento desse sonho transformou radicalmente a vida daquele rei (leia Daniel 4). No Novo Testamento, apenas o apóstolo Paulo usa “temor e tremor” em suas cartas (2 Coríntios 7.5; Filipenses 2.12; Efésios 6.5), e o sentido é sempre o mesmo: devemos ser conscientes de que estamos continuamente perante a face de Deus – façamos tudo com reverência ao Senhor, mantendo sempre um senso de humildade e dependência da Sua graça.

Ser cheio do Espírito envolve, portanto, uma atitude de sujeição, obediência e humildade em nossa relação com Deus e com as pessoas. Amamos, honramos e cooperamos com aqueles que estão mais próximos de nós – marido, esposa, filhos. Estendemos esse senso de submissão e parceria com nossos patrões e empregados, com sócios e prestadores de serviço. Sem dúvida, isso irá produzir impactos imediatos e profundos em nossos relacionamentos cotidianos, por causa de uma vida plena do Espírito Santo.

Pense de forma prática: cada cristão zelando por falar um com o outro com o vocabulário e o espírito dos salmos, cada cristão entoando uma canção constante e diária de louvor e gratidão ao Senhor por tudo, cada cristão obedecendo à ordem estabelecida por Deus no casamento, na criação dos filhos, nos relacionamentos, servindo com humildade e sinceridade de coração... Creio que nada faltará a essa igreja senão se encontrar com seu Amado Noivo!

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Notas:

Artigo muito bom sobre "temor e tremor".

Recomendo o livro Qual a diferença? Masculinidade e feminilidade definidos de acordo com a Bíblia, de John Piper (Editora Tempo de Colheita, 2010).

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