quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Vivendo na visão de Deus

Por Dallas Willard, em resposta à pergunta: "Por que as igrejas e os ministérios muitas vezes perdem a essência da visão que tinham quando foram fundadas, a tal ponto que a instituição resultante, anos mais tarde, é muito diferente do sonho original? O que acontece ao longo do caminho?"

De fato, não são poucas as congregações e as comunidades cristãs (católicas, protestantes e evangélicas) que hoje se afastaram radicalmente de sua visão original. Diversas lideranças têm sucumbido a artifícios contemporâneos para manterem suas igrejas cheias e em movimento, dissociando oração, devoção e dependência de Deus de tudo que estão fazendo agora mesmo "em nome de Deus".

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Podemos resumir o processo pelo qual a missão e seus objetivos tomam o lugar da visão original como ponto absoluto de referência para as pessoas envolvidas:
  1. A visão de Deus e de si mesmo em Deus inspira uma combinação de humildade e grande anseio por Deus.
  2. Essa combinação leva a esforços extraordinários realizados na dependência de Deus.
  3. Grandes resultados são alcançados, pois Deus age em conjunto com os esforços feitos na dependência dele e por amor a ele.
  4. Os resultados desenvolvem vida própria. Pessoas ao redor só conseguem ver os resultados que, de fato, são extremamente notáveis e dignos de apoio. 
  5. Por vezes, o apoio humano também representa o sustento de Deus. Mas os efeitos de tudo isso precisam ser vigiados com grande cuidado a fim de evitar que corrompam o coração, afastando-o de uma visão apropriada de Deus e da coragem humilde que flui dela.
O rei Salomão começou bem. Conhecia Deus, pelo menos por intermédio de seu pai, Davi, e sabia que não podia realizar seu trabalho sozinho. Orou pedindo sabedoria e conhecimento. Deus atendeu. Salomão tornou-se extremamente poderoso (2Cr 9). Mas, para fortalecer sua posição, formou alianças por meio de casamentos com as mulheres da casa real de várias nações e suas setecentas esposas desviaram seu coração de Jeová e o levaram a adorar deuses estrangeiros (1 Rs 11:1-6). Quando morreu, o rei deixou para trás um governo terrivelmente opressivo contra o qual o povo estava pronto para se rebelar e um filho insensato para reinar. Não é absurdo pensar que Salomão foi vencido por seu programa de construção.

Mas será que precisa ser assim? É algo simplesmente inevitável? Em geral, a resposta é "não". Alguns indivíduos conseguem evitar esse processo degenerativo, muitos não. Alguns grupos e organizações conseguem adiá-lo. Os cristãos primitivos bateram o recorde de manter o fogo interior da visão dos "fundadores". Ao que parece, durante dois ou três séculos, a visão de Jesus Cristo como Senhor ardeu intensamente no coração de seus primeiros seguidores. Os sucessos extraordinários do movimento foram bastante lentos em gerar um "vaso" exterior que substituiu o tesouro de Cristo como centro de atenção e devoção em sua vida.

As primeiras gerações de cristãos foram admiravelmente bem-sucedidas na tarefa de transmitir à geração seguinte a visão sagrada que as posicionava e guardava. Mas esse fenômeno não foi de todo inédito. No Antigo Testamento, Josué (Êx 33:1l) e Eliseu (2 Rs 2:9) representam dois casos em que os discípulos buscaram ao Senhor tanto quanto seus mestres (Moisés e Elias) e, em decorrência disso, viveram de acordo com o mesmo espírito.

Mais adiante na história cristã encontramos exemplos claros dessa transmissão do fogo original de uma geração para outra nos jesuítas, nos quacres, nos irmãos morávios e nos metodistas. Sem dúvida, há muitos outros casos menos conhecidos. Portanto, trata-se de algo possível. E há diversos casos de indivíduos em cada geração que tiveram um final feliz. Quais os elementos básicos dessa continuidade?

A resposta é de conceito simples, mas de execução difícil — especialmente para o caso transgeracional. É uma questão de identificar e manter a percepção ou a visão de Deus, de si mesmo e do mundo, que permeou e motivou os fundadores. Não há como reduzir isso a uma fórmula, pois se trata de uma questão extremamente pessoal que suscita amplo espaço para variações individuais. Também depende da graça — ou seja, da atuação de Deus em nossa vida para realizar o que não somos capazes de fazer por conta própria.

Não obstante todas essas considerações, há certas coisas que qualquer pessoa pode e deve fazer para receber e preservar o fogo espiritual que mantém a missão e o ministério em seu devido lugar, evitando que se transformem na visão limitante que nos deixa obcecados e, por fim, nos sufoca.

O primeiro passo é reconhecer sinceramente a inevitabilidade prática da perda de visão. Esse reconhecimento deve ser explícito e regular. Não deve ser feito de forma paranóica, mas apenas honesta. Precisamos encontrar maneiras de manter a visão em nossa mente e na de nossos colaboradores sem nos tornarmos inconvenientes. A criatividade e o bom gosto existem para ser usados.

Em segundo lugar, precisamos identificar, entender e nos dedicar à visão fundadora. Não é uma tarefa simples. Até mesmo os próprios fundadores podem não saber exatamente o que os motivou e os formou. Muitas vezes, humildade e modéstia louváveis os impedem de investigar sua vida mais a fundo e, por certo, também não permitem que "imponham" sobre outros aquilo que encontram dentro de si. Mas apesar de essa atitude ser elogiável, ela torna extremamente difícil manter a visão neles mesmos e em outros. Assim, é preciso ser honesto, preciso e explícito sobre aquilo que a visão era — e aquilo que deve ser hoje. O enfoque deve ser sobre a visão, e não sobre os indivíduos que a possuem, apesar de ser necessário que os indivíduos tenham a visão e realizem a missão.

Em terceiro lugar, é preciso adotar medidas para viver de acordo com o cerne da visão. A sabedoria de Provérbios diz: "Confie no SENHOR de todo o seu coração e não se apoie em seu próprio entendimento; reconheça o SENHOR em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas. Não seja sábio aos seus próprios olhos" (3:5-7). E também: "Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida" (4:23).

No centro do cuidado do coração está o amor de Deus. Esse deve ser o alvo jubiloso de nossa vida. É, por isso que, ressaltando o conceito profundo de vida desenvolvido ao longo da experiência judaica, Jesus afirmou que o primeiro mandamento é "Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças" (Mc 12:30). Isso é uma ordem. É algo que devemos fazer e algo que podemos fazer. Aprenderemos como fazê-lo se tivermos a intenção de fazê-lo. Deus nos ajudará e encontraremos um modo de obedecê-lo.

O amor de Deus, e somente o amor dele, guarda a visão de Deus, mantendo-a em nossa mente a todo tempo. De acordo com Thomas Watson:
... o primeiro fruto do amor é a meditação da mente sobre Deus. A pessoa apaixonada pensa sempre no objeto de sua afeição. Aquele que ama Deus é arrebatado e extasiado com a contemplação de Deus. [...] Deus é o tesouro, e onde está o tesouro, lá está o coração.
O rei Davi nos revela o segredo de sua vida: "Sempre tenho o SENHOR diante de mim. Com ele à minha direita não serei abalado" (Sl 16:8).

A visão de Deus guarda a humildade. Ver Deus como ele é de fato permite que vejamos a nós mesmos como somos realmente. Isso nos propicia ousadia, pois percebemos claramente que um grande bem e um grande mal estão em jogo e vemos que não cabe a nós realizar o bem, mas sim a Deus — aquele que é supremamente capaz. Somos livrados do fingimento, da presunção a nosso próprio respeito e da pressão, como se o resultado dependesse de nós. Persistimos sem frustração e praticamos a recusa calma e feliz em fazer qualquer tipo de mal.

Deus olha para aqueles que são humildes e contritos de espírito e que estremecem quando ele fala (Is 66:2). Ele se opõe aos orgulhosos, mas dá graça aos humildes (1Pe 5:5). Lembre-se de que a graça indica que ele está agindo na vida dessas pessoas.

Assim, os humildes dependem de Deus, e não de si mesmos. Eles se humilham "debaixo da poderosa mão de Deus" (1 Pe 5:6), dependendo de Deus para agir. Colocam os resultados inteiramente nas mãos de Deus. " [Lançam] sobre ele toda a sua ansiedade, pois ele tem cuidado [deles]" (lPe 5:7). O resultado é a certeza de que a missão e o ministério serão realizados no tempo e à maneira de Deus. Esses dois elementos não precisam ser a visão, e os objetivos que definimos para eles dizem respeito a Deus, não a nós. Fazemos nosso melhor, trabalhamos com afinco e até com sacrifício. Mas não carregamos o peso, nosso ego não se envolve de nenhuma forma na missão e no ministério. Em nosso amor por Jesus e seu Pai, entregamos verdadeiramente nossa vida a ele. Nossa vida não é objeto de preocupação profunda.

A fim de manter e desenvolver esse tipo de vida de entrega a Deus é preciso ter um plano geral de vida que incorpore práticas voltadas especificamente para o cuidado do ser interior. Essas práticas são as disciplinas para a vida espiritual. Não será possível tratar dessas disciplinas aqui, mas o próximo passo para as pessoas que decidiram amar a Deus de todo o seu coração, de toda a sua mente, alma e de todas as suas forças é implementar práticas regulares que possibilitem concretizar essa decisão. Isso levará algum tempo e exigirá estudo, experimentação e orientação do Espírito Santo. No entanto, é um plano executável e, quando implementado, torna a vida incalculavel-mente mais fácil, agradável e intensa. A missão e o ministério deixam de ser pesados, apesar de continuarem a ser desafiadores e exigirem esforço. No entanto, o jugo de Cristo é suave, seu fardo è leve e há descanso para a alma (Mt 11:29-30).

Para aqueles que experimentaram esse tipo de vida no passado, o chamado é para uma volta ao primeiro amor e às primeiras obras e, então, para aprender como desenvolver essa atitude inicial na vida de hoje. Para aqueles que nunca tiveram essas experiências, o chamado é para um enfoque sobre o amor de Deus por nós até que nosso coração, nossa alma, nossa mente e nossas forças transbordem de amor recíproco. "Nós amamos porque ele nos amou primeiro" (1 Jo 4:19).

E para aqueles que estão vivendo no amor de Deus e se preocupam com a geração seguinte ao redor deles e seu envolvimento na visão plena do amor de Deus, o chamado é para fazer dessas questões o tema de discussões sérias e extensas e de orações com aqueles que serão os líderes do futuro. Fale com franqueza e honestidade, com freqüência e amor. No devido tempo, será preciso decidir a quem confiar o futuro da organização. Essas decisões devem ser feitas de forma amorosa, porém firme, e "debaixo da poderosa mão de Deus". Não podem ser evitadas. Cabe a nós fazer os preparativos necessários pela prática e pelo ensino sensato e bíblico, por meio da palavra e do exemplo. Também nisso precisamos confiar na operação de Deus em nosso meio (graça) — Deus, a quem amamos, e de cujo amor falamos constantemente para outros.

Na verdade, tudo se resume a amar a Deus de todo nosso coração, de toda mente, alma e de todas as forças, e de colocar em primeiro lugar em nossos planos as atividades que vão ao encontro da graça ativa de Deus, a fim de que esse amor se torne nossa vida.

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Leia na íntegra o artigo (em inglês) "Living in the Vision of God", de Dallas Willard, publicado também no livro (em português) A Grande Omissão (Ed. Mundo Cristão), p.94-98. Obs: Fiz uma pequena adaptação no parágrafo inicial, dividindo-o em 5 etapas.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Mochileiro da Palavra



O que é um mochileiro? "Viajante de poucos recursos, cuja bagagem se reduz geralmente a uma mochila, e que recorre a serviços baratos de alojamento, alimentação e transporte" (vide "mochileiro", in: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013).

Justamente assumindo essa posição humilde e aventureira, de quem ainda tem muito a aprender, resolvi postar aqui no Blog as minhas "impressões de viagem" através da leitura de toda a Bíblia, na versão "A Mensagem". Na verdade, comecei a leitura em fevereiro deste ano de 2013, e na maior parte dos dias tenho percorrido as páginas no ritmo de quem está "a apreciar a paisagem". Em outros momentos, leio de forma mais rápida. Sempre anotando algum pequeno comentário.

É claro que muito do que já é postado aqui no Blog faz parte da minha busca pessoal por ouvir mais de Deus. Registro o que sinto, o que aprendo, o que Ele me comunica pela Palavra e por orações individuais e coletivas, através de artigos, reflexões, recados, vídeos, música, poesia. Só que nessa seção (tag ou marcador), quero postar de forma mais específica pequenos insights que iluminam imediatamente a leitura das Escrituras, antes de se tornarem textos mais elaborados, artigos ou algo do tipo. Também pretendo rever alguns textos já postados anteriormente.

Não será um guia de leitura, tipo "leia a Bíblia em 1 ano", mas talvez seja algo próximo de um Devocionário. Se você quiser, poderá me acompanhar nessa jornada nos próximos meses. Vou tentar postar duas vezes por semana as impressões das leituras, começando lá de Gênesis 1. No final, espero compilar tudo em um livro.

Se você ainda não leu a Bíblia toda, recomendo que comece HOJE, e não pare NUNCA MAIS.

Vamos nessa!

Luciano