quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Cristãos progressistas tornam-se ateus

Artigo de Sam Hailes, publicado no site Tu porém  | Traduzido por Igor Miguel e revisado por Jonathan Silveira | Texto original: "Bart Campolo says progressive Christians turn into atheists. Maybe he’s right". Revista Premier Christianity

Às vezes, cristãos fundamentalistas alertam que qualquer desvio de crenças evangélicas históricas (mesmo que pequenas) acabam se tornando um trampolim em direção ao completo ateísmo. Em outras palavras, cristãos devem aceitar que o inferno é eterno, que a Bíblia é inerrante e que Deus criou tudo em seis dias literais de 24 horas. Se você remover qualquer uma dessas doutrinas, não demorará muito para que você acabe também negando sua fé.

Jovens evangélicos como eu tendem a rejeitar essa forma de pensamento. Reconhecemos que há espaço para diferenças no modo como se interpretam doutrinas como criação e soberania. Apenas as declarações credais centrais sobre a existência de Deus, ressurreição e divindade de Cristo são inegociáveis. Por causa da pressão de nossa cultura ou uma honesta releitura das Escrituras, nos tornamos suscetíveis a mudar nossas mentes sobre doutrinas que cristãos de gerações anteriores sustentaram cuidadosamente.

Mas, o que é surpreendente é que nossos velhos amigos fundamentalistas não são os únicos a pensarem que o cristianismo progressista pode ser um trampolim para o ateísmo. Um ateu, pelo menos, concorda com esta teoria!

A História de Bart Campolo

Bart filho de Tony Campolo é bem conhecido por sua rejeição da fé cristã. Apesar de não gostar do termo “ateu”, ele não acredita mais em Deus e atualmente trabalha como um capelão humanista.

Discursando sobre o recente episódio do podcast “Holy Heretics” [Santos Hereges], Bart explicou que sua jornada para longe do cristianismo começou quando ele foi exposto à pobreza urbana.

“Isso bagunçou com minha teologia”, ele explica. “Eu tinha uma teologia que dizia que Deus poderia intervir e fazer coisas.” Mas depois de um período de oração não respondida, Bart admite: “Eu tinha que mudar meu entendimento sobre Deus. A soberania tinha esfriado bastante.”

Campolo admitiu que mudanças em sua visão da soberania de Deus foram o “começo do fim” de sua fé. Por quê?

“Porque uma vez que você começa a ajustar sua teologia para adaptá-la à realidade que está diante de você, isto se torna uma progressão infinita… minha capacidade para crer em uma narrativa sobrenatural ou em um Deus que intervém e que faz qualquer coisa morreu depois de milhares de orações não respondidas.”

Campolo continuou: “Passei por todos os estágios da heresia. Isso começou quando a soberania acabou, logo a autoridade bíblica acabara também, então tornei-me um universalista e, enfim, casava gays. E, em pouco tempo, realmente eu já não cria que Jesus tinha ressuscitado dos mortos de forma corpórea.”

Como cristãos se tornam ateus

Campolo não acha que ele seja um caso isolado. Ao contrário, ele acredita que o mundo atual do “cristianismo progressista” (que ele chama de “marginais” do cristianismo) está caminhando rapidamente para a descrença total. Em um discurso durante o Festival Wild Goose (a versão americana de Greenbelt), Bart foi claro: “O que eu sei é que se há 1000 pessoas no Wild Goose hoje, daqui a 10 anos trezentas ou quatrocentas delas não estarão mais no jogo.”

Campolo está prevendo que mais de 40% dos cristãos progressistas se tornarão ateus na próxima década. Na sua visão, o processo de abandono das doutrinas cristãs é quase viciante. Uma vez que você comece, já não sabe onde vai parar. Tudo começa com um “esfriamento” de sua visão da soberania de Deus, que facilmente pode terminar em descrença.

“Você percebe este cristianismo marginal quando as pessoas falam de ‘Deus’ e isto assume o sentido de ‘o universo’ e quando dizem ‘Jesus’ pensa-se em algo como ‘a redenção’ – eles são tão progressistas que eles não esperam que nada sobrenatural ocorra, eles estão esfriando do mesmo jeito que eu esfriei.”

Bart diz que “pulou” a “reinvenção progressista” do cristianismo e foi direto à conclusão lógica de que Deus não existe. Ele considera que cristãos progressistas deveriam parar de fingir que Deus existe em forma de “universo” ou qualquer outro jogo de palavras que se valha.

Campolo diz que há um mundo de podcasts, livros, eventos e outros recursos destinados a jovens evangélicos que estão repensando doutrinas evangélicas históricas como inferno, soberania, infalibilidade bíblica, sexualidade etc. Ele acredita que cristãos progressistas possuem a seu dispor vários líderes que são “clean, legais, difusos” para seguir, e ele cita Rob Bell e Donald Miller como exemplos. Mas, como um capelão humanista, Campolo deseja oferecer orientação e ajudar jovens que rejeitaram inteiramente o conceito de Deus.

“Lá fora no mundo há um crescente e expressivo número de jovens que não creem em Deus… Eles não possuem comunidades ou grupos. Eles precisam de capelães, criadores de comunidades, compositores musicais. Precisam de alguém que os ajude a definir esse modo de vida e assim eles tenham condições de compartilhá-lo com outras pessoas.”

O que a igreja pode aprender

Há uma lição para cristãos nas palavras de Campolo. Sua declaração “uma vez que você comece a ajustar sua teologia para adaptá-la à realidade que está diante de você, isto se torna uma progressão infinita” deveria nos fazer pensar.

A conclusão que Campolo chegou foi que se “a realidade” que está diante de você conflita com sua fé, então é sua fé que está errada e ela tem que ser mudada de alguma forma. Mas, há outras explicações. E se a sua percepção da “realidade” estiver errada? E se a “realidade” como você a percebe não é toda a verdade sobre ela? Talvez haja alguma verdade para além do que você e eu experimentamos.

Eu argumentaria que Bart simplesmente trocou uma forma de fé por outra ao abraçar a ideologia do humanismo secular. Confiantemente ele afirma que viemos de lugar nenhum e que somos produtos acidentais de um universo sem sentido. Para se crer nisso é necessário ter fé. Ele defende que, se temos apenas uma única vida, então a melhor forma de o ser humano gastá-la é maximizando o bem-estar dos outros. Isto é, mais uma vez, um artigo de fé, uma vez que esta crença de Bart (e que de modo algum é compartilhada universalmente) não é ditada nem pela ciência e tampouco pela lógica.

Creio que qualquer afinidade que encontremos em nós mesmos para o amor, bondade, beleza e verdade não é subproduto acidental de um processo evolucionário sem direção, mas um sinal em nós da imagem do Deus que Bart não acredita mais. Eu argumentaria que Deus é real quando eu o experimento tanto quando eu não o experimento. Minha experiência subjetiva não diminui a realidade objetiva.

Quando Campolo mudou sua teologia para se encaixar em sua experiência, este foi o princípio do fim. Isso deveria servir como um aviso para cristãos, sejam progressistas ou não. Ajustar sua teologia para que ela se encaixe em sua experiência pode soar como uma ideia atraente, mas isso nem sempre é tão inteligente como aparenta ser.

Muitos evangélicos progressistas recusarão o que Campolo está sugerindo. Eles argumentarão que estão há milhões de quilômetros do ateísmo. Talvez haja dois perigos iguais e opostos. Talvez evangélicos conservadores correm o risco de serem desnecessariamente dogmáticos sobre alguns assuntos e, assim, alienarem a próxima geração. Progressistas, por sua vez, correm o risco de, ao desistirem demasiadamente da doutrina histórica, sua fé começar a parecer mais com o humanismo de Campolo do que com o cristianismo histórico.

Uma fé despida de seus fundamentos está se tornando crescentemente anêmica. Mas talvez esse sempre foi o caso. Bart Campolo crê que sua adesão recente à “religião sem Deus” do humanismo o fez amar melhor as pessoas do que sua fé cristã de outrora. Isso pode ser verdade para Bart, mas, na prática, a maioria das coisas boas que são feitas no mundo é promovida por pessoas que creem que há um Deus que fez um mundo que vale a pena salvar.

Como disse C.S. Lewis: “Se você estudar a história você descobrirá que os cristãos que mais fizeram coisas para o mundo presente eram exatamente aqueles que mais pensaram no mundo vindouro.” Crenças incomuns sobre céu, inferno e eternidade não pararam cristãos de endireitar erros neste mundo. Exatamente o contrário!  Assim, se progressistas querem continuar servindo o pobre e amando o próximo, a história sugere que eles deveriam continuar bem firmes às doutrinas cristãs históricas – incluindo aquelas que não são tão palatáveis a alguns na cultura ocidental de hoje.