sexta-feira, 8 de maio de 2015

O que é o Evangelho do Reino? - Parte 1

Luciano Motta

"Mas quem perseverar até o fim será salvo. E este evangelho do reino será pregado pelo mundo inteiro, para testemunho a todas as nações, e então virá o fim" (Mateus 24.13-14).

Falamos sobre o tempo de agravamento das crises que estamos vivendo: guerras, fomes, terremotos, perseguições, esfriamento da fé e do amor, uma época identificada por Jesus como “o princípio das dores”. Falamos também da necessidade de nos posicionarmos em Cristo, de perseverarmos naquilo que Ele tem nos falado, de fundamentarmos nossas vidas Nele e na comunhão do Corpo. Se assim o fizermos, há uma promessa para nós: seremos salvos. Atravessaremos a grande tribulação dos últimos dias fundamentados na esperança do Reino que será estabelecido em plenitude após a segunda vinda de Jesus.

Sobre os anos que antecedem esse evento tão glorioso, Cristo declarou: “este evangelho do reino será pregado pelo mundo inteiro”. As nações ouvirão as boas novas de um Reino que não tem paralelo com os tipos de governo que existem ou já existiram neste mundo; um Reino cuja base é retidão e justiça (Salmo 89.14); um Reino que jamais será destruído, antes “esmiuçará e consumirá” todos os outros reinos, e “subsistirá para sempre” (Daniel 2.44). Chegará um tempo em que as espadas serão transformadas em relhas de arados e as lanças, em podadeiras; uma nação não se levantará contra outra nação, nem se aprenderá mais a guerra (leia Isaías 2.1-5).

Por essa perspectiva do Reino, que é a do Velho Testamento, muitos cristãos creem que somente viverão o Reino de Deus no futuro, “quando Jesus voltar e nos levar para o céu”. É evidente que ainda não estamos vendo a realidade descrita nos textos acima – a maldade é grande, as guerras estão aí, os conflitos vão aumentar em toda a terra, Israel está cercado de inimigos e a Igreja anda trôpega, hesitante.

Entretanto, Jesus inaugurou o começo de uma era futura que já se manifesta no tempo presente. Ele veio à terra e viveu entre nós como homem, sem pecado e cheio do Espírito Santo, totalmente obediente ao Pai. Ele morreu na cruz, mas venceu a morte em Sua ressurreição, e assim “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (Colossenses 1.13-14). Isso já aconteceu. Nascemos de novo por meio de Cristo e hoje podemos andar em novidade de vida conforme o Reino do Filho, não mais presos às trevas do príncipe deste mundo.

Em Mateus 11.3 encontramos uma pergunta intrigante de João Batista sobre o ministério de Cristo: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?”. Uma rápida leitura pode nos levar a crer que o profeta estivesse duvidando do seu chamado, talvez por estar em uma prisão, sem vislumbrar naquele momento qualquer resquício do triunfal Reino descrito na Lei, nos salmos e nos profetas. Sim, João Batista era o mesmo que preparara o caminho para o Messias e que batizara o Filho de Deus, vendo o Espírito Santo descer sobre Ele e ouvindo a voz do próprio Deus: “Este é o meu Filho amado, em quem tenho prazer” (Mateus 3.13-17). Só que ali, naquele cárcere, o que João estava passando não correspondia ao que conhecera nas Escrituras.

Mas vamos à resposta de Jesus: “Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço” (Mateus 11.4-6). Os atos miraculosos e a mensagem libertadora de Jesus, embora fossem extraordinários, poderiam ser “motivo de tropeço” ou “escândalo” simplesmente porque eram uma nova perspectiva do que todo o Velho Testamento havia anunciado sobre o Reino:
Jesus quis dizer isto: “Sim, o Reino de Deus está aqui. Mas há um mistério – uma nova revelação sobre o Reino. O Reino de Deus está aqui; mas em vez de destruir a autoridade humana, ele ataca a autoridade de satanás. O Reino de Deus está aqui; mas em vez de fazer mudanças externas na ordem política das coisas, ele está mudando a ordem espiritual e a vida de homens e mulheres”. (LADD, George. O Evangelho do Reino. São Paulo: Shedd Publicações, 2008, p.56)
Essa nova perspectiva do Reino, iniciada em Cristo, aparentemente mais frágil, “sem visível aparência”, porém interiormente profunda, “dentro de vós” (Lucas 17.20), se unirá no futuro com a perspectiva da Antiga Aliança, quando uma poderosa manifestação do poder de Deus “eliminará os reinos perversos de autoridades humanas e encherá a terra de justiça” (LADD, p.55). Mas até lá, enquanto o grande Dia do Senhor não chega, podemos desfrutar agora mesmo da vida, das bênçãos e também das responsabilidades da era vindoura. Isso corresponde ao “JÁ e AINDA NÃO” do Reino de Deus, uma tensão observada em outras instâncias, como afirma John Stott:
Já “passamos da morte para a vida”, mas a vida eterna é também uma dádiva futura (João 5.24; 11.25-26; Romanos 8.10-11). Já somos novas criaturas, embora Deus ainda não tenha feito novas todas as coisas (2 Coríntios 5.17; Apocalipse 21.5). Nós já estamos “cheios”, mas ainda não chegamos à plenitude de Deus (Colossenses 2.10; Efésios 5.18; 3.19). Cristo já está reinando, embora seus inimigos ainda não se tenham tornado estrado de seus pés (Salmo 110.1; Efésios 1.22; Hebreus 2.8). (STOTT, John. Disponível em http://www.comoviveremos.com/reino-de-deus-o-ja-e-o-ainda-nao-stott)
No começo do ministério, Jesus disse: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 4.17). Na oração-modelo, ensinou: “Venha o Teu Reino” (Mateus 6.10). Para os fariseus, declarou: “Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós” (Mateus 12.28). Depois do episódio do jovem rico, afirmou: “Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus” (Mateus 19.23). Não há contradição nos termos destacados, apesar de se referirem ora a um tempo futuro, ora a um tempo presente.

Desde a primeira vinda de Cristo e Sua ressurreição, está em curso uma sobreposição de eras, um período de transição e preparação para as bodas do Cordeiro e a Segunda vinda, quando definitivamente se cumprirão todas as palavras concernentes ao Reino. Porém, a autoridade do príncipe deste mundo já foi tomada pela autoridade do Rei dos reis. Cristo nos delegou essa mesma autoridade para já estabelecermos Seu Reino proclamando Sua mensagem, realizando sinais e maravilhas, expulsando demônios e curando enfermos, até que Ele venha. As bem-aventuranças também indicam isso – na leitura de Mateus 5.1-10, os verbos estão no presente (“porque deles é o Reino dos céus”) e no futuro (“serão consolados” ou “herdarão a terra”).

Tudo começou em Jesus e terminará Nele, conforme lemos em Apocalipse:

Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça. Os seus olhos são chama de fogo; na sua cabeça, há muitos diademas; tem um nome escrito que ninguém conhece, senão ele mesmo. Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome se chama o Verbo de Deus; e seguiam-no os exércitos que há no céu, montando cavalos brancos, com vestiduras de linho finíssimo, branco e puro. Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações; e ele mesmo as regerá com cetro de ferro e, pessoalmente, pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso. Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: Rei dos reis e Senhor dos Senhores (Apocalipse 19.11-16).

À medida que as dores aumentam na terra, como filhos de Deus, devemos apresentar agora mesmo aos homens uma vida mais elevada, a realidade dos céus, como “cidade edificada sobre um monte” (Mateus 5.14), até a tensão “JÁ e AINDA NÃO” cessar e o Reino ser estabelecido finalmente. Isso é o Evangelho do Reino. Mas de que forma estamos vivendo e anunciando essa mensagem?

(Continua)