segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Famílias virtuosas

Luciano Motta

“Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de finas joias” (Provérbios 31.10) ― esse verso é o primeiro de uma famosa passagem da Bíblia conhecida como “A mulher virtuosa”. Embora a maior parte dos cristãos se refira a esse texto para exaltar as qualidades da mulher, existem outros aspectos importantes a serem analisados.

"Virtuosa" é o mesmo que forte, eficiente, habilidosa. Trata-se de uma mulher que...
  • é sempre boa com o marido, todos os dias (v.12)
  • trabalha incansavelmente (v.13-15)
  • adquire bens, investe em uma vinha com o fruto do trabalho (v.16)
  • cuida do corpo, está sempre com disposição para o trabalho, mesmo à noite (v.17-19)
  • ajuda os necessitados (v.20)
  • cuida para que ninguém da casa passe frio no inverno, confecciona as próprias roupas (v.21-22 e 24)
  • não se preocupa com o amanhã (v.25)
  • tem sabedoria e instrui a bondade (v.26)
  • não é preguiçosa, a casa está em ordem (v.27)

Quem acha uma mulher com todas essas qualidades encontra algo muito mais precioso do que um rubi ou um diamante! Mas não estaria fora de contexto afirmar que só existe uma mulher virtuosa se ela tiver um marido virtuoso: “O coração do seu marido confia nela, e não haverá falta de ganho” (v.11). Ao lado de uma mulher virtuosa vive um marido que confia totalmente nela. Isso é mútuo. Ele se sente seguro, tranquilo. Ela também. Existe sabedoria no uso dos recursos familiares, não há perdas. Os mais velhos estimam o marido por causa das virtudes dela (v.23). Outra passagem diz [com acréscimos meus]: “A mulher virtuosa é a coroa do seu marido, mas a que procede vergonhosamente é como podridão nos seus ossos [na sua essência/substância, ou seja, no próprio ser]” (Provérbios 12:4).

Sendo um casal virtuoso, o ambiente familiar também será virtuoso: “Levantam-se seus filhos [fazem questão disso!] e lhe chamam ditosa [bem-aventurada, feliz]; seu marido a louva, dizendo: Muitas mulheres procedem virtuosamente, mas tu a todas sobrepujas" (Provérbios 31.28-29). Essa última frase do marido ficou assim na versão da Bíblia A Mensagem: “Muitas mulheres têm feito coisas maravilhosas, mas você superou todas!”

Mais do que descrever uma "super-mulher-esposa-mãe", com marido e filhos encantados pelas qualidades dela, esse texto de Provérbios fala de um lar abençoado, rico de palavras de afirmação e amor, onde a mulher é valorizada, o marido é estimado e os filhos são criados e cuidados com zelo.

Além disso, e não menos importante, existe nesse ambiente familiar virtuoso temor ao Senhor: “Enganosa é a graça [elegância, charme], e vã [passageira], a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada” (Provérbios 31.30). Outro texto muito conhecido diz assim: "A mulher sábia edifica a sua casa, mas a insensata [louca], com as próprias mãos, a derriba.  O que anda na retidão teme ao Senhor, mas o que anda em caminhos tortuosos, esse o despreza [trata com desdém]" (Provérbios 14.1-2). Não é por acaso que sabedoria, retidão e temor ao Senhor estejam numa mesma passagem. Aliás, só é possível edificar um lar sólido e harmonioso tendo o Senhor como base, sendo Ele mesmo o Arquiteto e nosso Ajudador enquanto trabalhamos dia a dia pela nossa casa.

Podemos, então, dizer que estes são os pilares de uma família virtuosa:

CONFIANÇA
AFIRMAÇÃO
AMOR
TEMOR AO SENHOR

Uma mulher com características “virtuosas”, sem esses pilares, tende a ser feminista ou uma “mulher-macho”; torna-se independente e, muitas vezes, rixosa. O mesmo vale para um homem com características “virtuosas” ― sem essas bases, tende a ficar solitário e a ocupar-se com coisas em vez de pessoas; torna-se um faz-tudo em casa, apesar de ser omisso com o que realmente conta, como a educação dos filhos. Por conseguinte, uma família desprovida de confiança, afirmação, amor e temor ao Senhor terá muito provavelmente filhos desajustados e/ou com dificuldades para “se encontrarem”; filhos que não sabem o que vão ser quando crescerem, com baixa autoestima, carentes do conhecimento de Deus. Um alerta: "O filho insensato é a desgraça do pai, e um gotejar contínuo, as contenções [as rixas, o resmungar] da esposa” (Provérbios 19.13).

As Escrituras relatam histórias de diversas famílias, algumas com trajetórias incríveis; outras, nem tanto. A partir do que vimos sobre famílias virtuosas, e tomando alguns exemplos bíblicos, vamos refletir um pouco mais sobre nossos contextos familiares:

A família de Sansão (Juízes 13)
Manoá (que significa descanso) e sua esposa eram pessoas tementes a Deus. Fizeram tudo conforme Ele ordenara a respeito de seu filho Sansão, um menino com voto de nazireu desde o nascimento. Veja este pedido de Manoá: “Então, Manoá orou ao Senhor e disse: Ah! Senhor meu, rogo-te que o homem de Deus que enviaste venha outra vez e nos ensine o que devemos fazer ao menino que há de nascer” (13.8) ― Algumas questões: Como Sansão pôde se tornar um homem de caráter tão instável e reprovável? O anjo do Senhor apareceu duas vezes à mulher de Manoá, e nas duas vezes ela estava sozinha. Seria ele um pai ausente, envolvido com suas próprias coisas, apesar de temer a Deus? O texto bíblico não afirma, são apenas conjecturas. Mas pare e pense comigo: muitas vezes julgamos estar fazendo a coisa certa, contribuindo e trabalhando na obra de Deus, levando nossos filhos às reuniões da igreja, vivendo "no descanso" de estarmos fazendo tudo certo, só que podemos estar criando "um Sansão" em nosso lar, alguém cheio de habilidades e dons sobrenaturais, porém desobediente, rebelde, sem integridade.

A família de Davi (1 Samuel 16)
O profeta Samuel recebeu uma ordem de Deus: ir a casa de Jessé e ungir um de seus oito filhos como rei no lugar de Saul. Agora pense: o que você faria se o homem de Deus mais importante do seu tempo fosse visitar a sua casa para ver um de seus filhos? Deixaria o mais novo no campo, cuidando de ovelhas? ― Pergunto mais: O que Jessé não viu em seu filho Davi?

Tempos depois, quando Golias afrontava os israelitas, sendo Jessé já “velho e adiantado em anos entre os homens” (17.12), mesmo depois do “Espírito do Senhor se apossar de Davi” (16.13), o pai ainda não reconhecia o que seu filho carregava. Enviou Davi com alimentos para seus irmãos que estavam na guerra sob a seguinte ordem: “visitarás teus irmãos, a ver se vão bem; e trarás uma prova de como passam” (17.18). Sabemos que é Davi quem derrota o gigante, mesmo tendo recebido "uma missão" diferente (sem contar o menosprezo de seus irmãos!). É uma história semelhante à de José, exceto pelo fato de seu pai Jacó guardar os sonhos do filho em seu coração (Gênesis 37.11).

Como tem sido o nosso olhar em relação aos nossos filhos, não apenas quanto ao que eles um dia serão, mas também ao que Deus JÁ ESTÁ FAZENDO na vida deles?

A família de João Batista (Lucas 1)
Isabel era estéril (v.7). Zacarias estava ministrando seu sacerdócio quando o anjo Gabriel apareceu e lhe anunciou que haveriam de ter um filho: "Não tenha medo, Zacarias; sua oração foi ouvida. Isabel, sua mulher, lhe dará um filho, e você lhe dará o nome de João. Ele será motivo de prazer e de alegria para você, e muitos se alegrarão por causa do nascimento dele, pois será grande aos olhos do Senhor. Ele nunca tomará vinho nem bebida fermentada, e será cheio do Espírito Santo desde antes do seu nascimento. Fará retornar muitos dentre o povo de Israel ao Senhor, o seu Deus. E irá adiante do Senhor, no espírito e no poder de Elias, para fazer voltar o coração dos pais a seus filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos, para deixar um povo preparado para o Senhor" (v.13-17).

Zacarias, porém, não acreditou: "Como posso ter certeza disso? Sou velho, e minha mulher é de idade avançada" (v.18). Por causa de sua incredulidade, ficou mudo (v.20). Só tornou a falar depois que João Batista nasceu, e então louvou ao Senhor (v.64).

A história daquela família percorreu toda a região montanhosa da Judeia – “Todos os que as ouviram guardavam-nas no coração, dizendo: Que virá a ser, pois, este menino? E a mão do Senhor estava com ele” (v.66). ― Essa é a pergunta de muitos país hoje: "O que virá a ser o meu filho?" Sem dúvida, é também a grande questão de muitos jovens: "O que serei?" ou "Quem sou eu?"

Zacarias tinha a resposta: “Tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor, preparando-lhe os caminhos, para dar ao seu povo conhecimento da salvação, no redimi-lo dos seus pecados, graças à entranhável misericórdia de nosso Deus, pela qual nos visitará o sol nascente das alturas, para alumiar os que jazem nas trevas e na sombra da morte, e dirigir os nossos pés pelo caminho da paz” (v.76-79).

Por que Zacarias tinha a resposta? Ele foi “cheio do Espírito Santo” (v.67). O texto diz no fim do capítulo 1 que “o menino crescia e se fortalecia em espírito. E viveu nos desertos até ao dia em que havia de manifestar-se a Israel” (v.80). Isso só foi possível porque SEUS PAIS FORAM COM ELE. João Batista foi ensinado “no caminho” (Provérbios 22.6), ou seja, seus pais o acompanharam no caminho. Eles entenderam o propósito de sua família: ser precursora do Messias! João Batista só pôde encarnar sua missão por causa dos seus pais. ELES SE RETIRARAM PARA O DESERTO movidos pelo Espírito Santo e lá viveram até João começar seu ministério (leia com calma Lucas 3.3-6 e Isaías 40.3-5 e veja como João Batista encarnou o que lhe fora proposto por Deus).

Há muitos paralelos dessa história com os dias atuais. A geração que está se levantando no mesmo espírito de João Batista tem pais estéreis e incrédulos. Talvez nunca antes houve uma geração cristã tão vazia de fé e confiança em Deus como a do presente século. Há escassez de uma fé sólida e genuína em Cristo. O amor tem se esfriado. Famílias estão sendo destruídas. Multidões vão após sinais de homens que a Palavra denuncia como falsos profetas, enganadores (Mateus 24.24).

Conclusão: Vimos que pais tementes a Deus podem criar um filho reprovável (Sansão). Também nos deparamos com a história de um filho segundo o coração de Deus (Davi) que não recebeu o devido tratamento de seu pai (ou que pareceu não entender quem seu filho era). Por último, reconhecemos como foi fundamental para João Batista crescer em um ambiente cheio de confiança, afirmação, amor e temor ao Senhor ― ainda que tenha vivido nos desertos, teve a companhia de pais virtuosos, antes incrédulos e estéreis, porém transformados e cheios do Espírito Santo. Isso foi determinante no ministério daquele que preparou o caminho do Senhor. Isso mudou a história do mundo!

Nossas famílias podem mudar a história do mundo, preparando o caminho para a segunda vinda de Jesus. Você crê nisso? Então, faça do seu lar um ambiente virtuoso. Enfrente as oposições de nossos dias. Se necessário, vá para os desertos, saia do seu lugar, arrisque-se! Abraão teve de sair da sua terra e da sua parentela para entrar no chamado de Deus. Além disso, cuide para não confiar demais em seus próprios julgamentos, pois assim, sem perceber, você pode estar colocando tudo a perder. Confira com outros irmãos e casais experientes a maneira como você tem cuidado do seu lar. Cerque-se de amigos que estão nesta mesma busca: edificar famílias virtuosas.

Uma última palavra ― para solteiros: creio que vocês podem ser homens virtuosos ou mulheres virtuosas agora mesmo, ou seja, pessoas fortes, eficientes e habilidosas, embora ainda não tenham constituído suas próprias famílias. Para isso, é fundamental honrarem seus pais e irmãos, aqueles com os quais vocês convivem, mesmo se não forem cristãos. Também devem estar vinculados ao Corpo de Cristo, afinal, a igreja é uma grande família. Na comunidade dos santos deve existir confiança, afirmação, amor e temor ao Senhor. Portanto, solteiros e solteiras, enquanto não se casam, o Senhor é seu marido. Confiem o coração de vocês a Ele, somente a Ele. Deixem que Ele aperfeiçoe a vida de vocês, submetam-se à vontade Dele durante seus dias de solteirice, Cada igreja deve ser um ambiente virtuoso para todos.