segunda-feira, 21 de abril de 2014

O resgate da honra - parte 3

Luciano Motta

Vimos até aqui que devemos honrar a Deus acima de tudo e que devemos honrar nossos pais naturais e espirituais (leia os artigos anteriores, começando pela primeira parte). Se vivenciarmos diariamente a devoção ao Senhor e obedecermos a Sua vontade, se buscarmos a unidade que há entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo e a cultivarmos em nossas famílias e igrejas, sem dúvida experimentaremos algo diferente em nossos relacionamentos. A honra será uma de nossas marcas principais.

Muito nos ensina a vida dos primeiros cristãos. Durante a leitura do livro de Atos, notamos claramente que, no cotidiano da igreja primitiva, havia amor e submissão uns para com os outros: "eles perseveravam no ensino dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada um havia temor, e muitos sinais e feitos extraordinários eram realizados pelos apóstolos. Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, e os repartiam com todos, segundo a necessidade de cada um. E perseverando de comum acordo todos os dias..." (Atos 2.42-46). Havia comum acordo, harmonia, unidade de fé e propósito.

Entretanto, sabemos que as coisas não permaneceram assim. À medida que o Evangelho se espalhava rapidamente, ultrapassando as fronteiras de Jerusalém, Judeia e Samaria, logo surgiram problemas nos relacionamento, divergências, disputas. Os apóstolos começaram a exortar a igreja, como Paulo: "Amai-vos de coração uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros" (Romanos 12.10). Ele faz essa afirmação entre outras exortações muito pontuais: "O amor seja sem fingimento. Odiai o mal e apegai-vos ao bem" (12.9) e "Não sejais descuidados no zelo; sede fervorosos no espírito. Servi ao Senhor" (12.11). Pouco antes, no começo do capítulo, estão as célebres palavras: "E não vos amoldeis ao esquema deste mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (12.2).

Semelhantemente àquela época, o atual modo de pensar é moldado por forte individualismo e indiferença. Hoje, inclusive na igreja, é cada vez maior a sensação de que "todos buscam o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus" (Filipenses 2.21). Mas só é possível honrarmos uns aos outros com uma mente não conformada aos nossos dias, uma honra inseparável do amor (palavras e ações movidas por um amor legítimo, fraterno, com fervor no espírito) e do serviço (uma vida que se submete ao Senhor, apegada a fazem o bem aos outros). Os dois grandes mandamentos estão aqui, de novo, evidentes: amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a nós mesmos.

É fundamental honrarmos aqueles que exercem liderança, como devemos agir com nossos pais: "Irmãos, pedimos que deis o devido respeito aos que trabalham entre vós, que vos presidem no Senhor e vos aconselham; e os tenhais em grande estima e amor, por causa do trabalho que realizam. Tende paz entre vós" (1 Tessalonicenses 5.12-13). E ainda: "Os presbíteros que governam bem devem ser dignos de honra em dobro, principalmente os que trabalham na pregação e no ensino. Porque a Escritura diz: Não amarres a boca do boi quando ele estiver debulhando; e: O trabalhador é digno do seu salário. Não aceites acusação contra um presbítero, se não houver mais duas ou três testemunhas" (1 Timóteo 5.17-19). Aqueles que lideram com zelo e amor, que realmente dedicam suas vidas a nos ensinar e a cuidar de nós, são merecedores de honra. Isso tem a ver, segundo a orientação bíblica, com uma boa remuneração, com amor e aceitação, com combate a fofocas e insinuações que firam a estima dos líderes.

Por outro lado, líderes devem ser exemplo de integridade, abnegação e serviço, honrando ao Senhor com o chamado que receberam. Jesus disse: "O maior entre vós seja como o mais novo; e quem governa, como quem serve" (Lucas 22.26). As mesmas cartas paulinas que orientam a igreja a respeitar e a cooperar com seus líderes também destacam as atribuições daqueles que foram levantados presbíteros no Corpo de Cristo: "alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não sejam acusados de libertinagem, nem desobedientes. Pois, como responsável pela obra de Deus, é necessário que o bispo (ou líder, supervisor) seja irrepreensível, não arrogante, nem inclinado a brigas, nem ao vinho, nem violento, nem dominado pela ganância; mas hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, equilibrado; que se mantenha firme na palavra fiel, conforme a doutrina, para que seja capaz tanto de exortar na sã doutrina quanto de convencer os seus opositores" (Tito 1.6-9; leia também 1 Timóteo 3.1-7).

Em seu livro Vencendo com as pessoas (Ed. Thomas Nelson Brasil, 2007, p.247), John C. Maxwell destaca algumas atitudes de honra que o líder deve ter com relação às pessoas que lidera:
Sirva-as. Permita que liderem e façam as coisas à sua maneira, e dê uma assistência, quando necessário.
Oriente-as. Responda às suas perguntas, dê o exemplo e só corrija ou determine alguma coisa quando sentir que fará uma diferença.
Valorize-as. Ouça as suas ideias, respeite suas opiniões e nunca as desautorize.
Recompense-as. Cuide bem daqueles que cuidam bem de você.
A honra também está associada a autoridades e governos, pois estes foram constituídos por Deus e servem para o nosso bem, apesar de toda injustiça e corrupção. Depende de uma sujeição voluntária de nossa parte aos governantes: "Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra" (Romanos 13.7). Em seguida, Paulo admoesta: "Não fiqueis devendo coisa alguma a ninguém, a não ser o amor de uns para com os outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei" (13.8). Veja que novamente o amor aparece como força motriz de tudo - até na hora de pagar impostos! Se tivermos que dever algo, que seja somente o amor. Já o apóstolo Pedro destaca em sua segunda epístola: "Sujeitai-vos a toda autoridade humana por causa do Senhor, seja ao rei, como soberano, seja aos governadores, como por ele enviados para punir os praticantes do mal e honrar os que fazem o bem. [...] Honrai a todos. Amai os irmãos. Temei a Deus. Honrai o rei" (2 Pedro 2.13,14,17).

É óbvio que não podemos aceitar passivamente quando governos se opõem ao Reino de Deus e Sua Justiça. A ação mais imediata é orarmos e intercedermos por todos os homens, pelas autoridades e pelos governos, para que tenhamos paz e tranquilidade (1 Timóteo 2.1-2). Devemos assumir uma vida totalmente fundamentada nos valores do Reino, de tal modo que o amor, o serviço, a devoção a Deus, o partir do pão, o cuidado uns aos outros, a pregação do Evangelho e a manifestação do poder do Espírito Santo sejam marcas inquestionáveis aos perdidos de que Cristo vive e habita em nós. Nesse caso, mesmo ante possíveis (e prováveis) perseguições, a igreja poderá novamente "transtornar o mundo" pela forma como honramos o Pai e a salvação que recebemos do Filho e como honramos uns aos outros pela comunhão do Espírito Santo que nos une.

Na última parte, apontamos algumas ações práticas que podemos tomar com relação à honra entre nós.

terça-feira, 15 de abril de 2014

O resgate da honra - parte 2

Luciano Motta

Refletimos inicialmente a respeito da honra devida ao Senhor (antes de continuar a leitura, leia aqui a primeira parte do artigo). Veremos agora como esse tema está presente nos relacionamentos interpessoais. Antes, é preciso ressaltar que amar a Deus está intrinsicamente ligado a amar pessoas. Jesus ordenou: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo". Isso é semelhante ao grande e primeiro mandamento (Mateus 22.39). À medida que honramos a Deus com nosso amor e obediência, centralizando-O em nossas vidas, somos preenchidos e capacitados a amar de forma equilibrada a nós mesmos e também as pessoas que nos cercam.

Devemos honrar os nossos pais. O quinto mandamento da Lei é bastante claro: "Honra teu pai e tua mãe, para que tenhas vida longa na terra que o Senhor teu Deus te dá" (Êxodo 20.12). Essas palavras são reafirmadas na Nova Aliança por Paulo: "Filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, pois isso é justo. Honra teu pai e tua mãe; este é o primeiro mandamento com promessa, para que vivas bem e tenhas vida longa sobre a terra" (Efésios 6.1-3).

Em contraste a esse mandamento, não raro encontramos em nossa sociedade - e em nossas igrejas - idosos abandonados em asilos ou em suas próprias casas, vivendo em condições precárias. Filhos que deixam seus pais à revelia, como se fossem um estorvo. Pense comigo: Por que o governo brasileiro teve que criar leis específicas para proteger a Terceira Idade? Não seria uma atitude natural os mais novos cuidarem dos mais velhos, um gesto de honra, respeito e consideração por tudo o que a geração anterior fez no passado? Outro agravante é o aumento assustador dos casos de filhos que matam seus pais. Em grande parte, os delitos são cometidos por questões banais e medíocres, normalmente envolvendo dinheiro e poder.

Nesse contexto lamentável, a honra deve ser urgentemente resgatada entre nós. Ela é um instrumento poderoso para que o amor e a graça de Deus possam mudar o curso de vidas, famílias e relacionamentos. Mesmo que nossos pais tenham falhado conosco e que, por causa deles, muitos de nós estejam hoje com a alma em frangalhos, colhendo maus frutos e tentando encontrar o rumo, eles devem ser honrados. A Bíblia não diz que são merecedores de estima e apreço apenas os bons pais. Na verdade, é justo honrá-los, seja qual for a circunstância.

Mas como fazer isso se "meu pai me violentou quando criança", ou se "meus pais nunca me incentivaram", ou se "minha mãe traiu o meu pai e saiu de casa"? Como alguém conseguiria ter em alta estima pais assim? Sem a graça de Deus, é realmente impossível. Por isso, precisamos ser expostos diariamente à Sua Glória, Bondade e Misericórdia. Lembremos que Ele nos tirou de um poço de destruição, de um lamaçal, e colocou nossos pés firmados sobre uma Rocha (Salmo 40.2). Lembremos que Ele nos amou e continua nos amando com amor incondicional, tendo perdoado nossos mais terríveis pecados. Somente se reconhecermos de onde fomos salvos, se buscarmos o Senhor de todo coração e O encontrarmos em nossas orações e devoção diárias, conseguiremos quebrar o ciclo de não-graça nos lares e, consequentemente, nas cidades e nas nações.

É claro que não devemos repetir ou encobrir os erros de nossos pais. A honra não dá base para que se perpetuem ou se ignorem pecados cometidos. Cada rei de Judá e de Israel que desobedeceu a Deus, sendo permissivo com a idolatria e com a imoralidade, errando no que seus pais erraram, recebeu a seguinte sentença: "Não foi íntegro para com o Senhor, seu Deus, como foi seu pai Davi" (leia 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crônicas). De fato, o rei Davi não foi o pai natural deles, mas foi um homem que elevou o padrão de se viver com Deus. Quando pais naturais não podem ser uma referência de integridade, devoção, quebrantamento e sensibilidade para com o Senhor, Ele mesmo providencia para nós, no Corpo de Cristo, pais espirituais cujas vidas e famílias nos ajudam a reorientar nossa identidade e nos reposicionam no Caminho.

Paulo foi um grande pai espiritual da igreja, especialmente para Timóteo, "verdadeiro filho na fé" (1 Timóteo 1.2). Na carta aos filipenses, Paulo ressalta essa condição: "sabeis que ele [Timóteo] deu provas de si e, como um filho ao lado do pai, serviu comigo em favor do evangelho" (Filipenses 2.22). Com os crentes de Corinto, o apóstolo expõe suas preocupações dessa forma: "Não escrevo essas coisas para vos envergonhar, mas para vos advertir, como a meus filhos amados. Porque ainda que tenhais dez mil instrutores em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais. Pois pelo evangelho eu mesmo vos gerei em Cristo Jesus. Portanto, rogo-vos que sejais meus imitadores. Por isso mesmo vos enviei Timóteo, meu filho amado e fiel no Senhor. Ele vos fará lembrar do meu modo de vida em Cristo, como por toda parte eu ensino em cada igreja" (1 Coríntios 4.14-17).

Uma distinção muito significativa é feita por Paulo nessa passagem: Existem muitos instrutores (paidagogos) e poucos pais (pater). Muitos líderes hoje ensinam, guiam, provém os recursos, mostram aonde seus discípulos devem ir. Isso é nobre e positivo, porém, insuficiente. Poucos líderes verdadeiramente geram filhos em Cristo. Poucos podem dizer: "Sejam meus imitadores". Em outras palavras: "Vejam como eu vivo e façam o mesmo". Somente pais assim podem gerar filhos maduros. E se nos faltam pessoas desse nível em nossas igrejas, o que será desta e da próxima geração? Em muitas igrejas e denominações, pais vêm sendo substituídos por gestores e empreendedores da fé, resultando em uma crise de paternidade sem precedentes. Mas isso precisa mudar. O padrão de integridade, amor e serviço deve ser elevado entre nós novamente.

Há uma promessa de vida boa e longa àqueles que honram seus pais. Está mais do que na hora, portanto, de valorizarmos aqueles que nos geraram, apesar de suas limitações e falhas. E como nossos pais naturais merecem honra, é tempo de valorizarmos também os homens e as mulheres de Deus que nos guiaram (e ainda nos guiam) até Cristo, pessoas que demonstraram (e ainda demonstram) com suas próprias vidas o que é andar com Deus.

Reconheço que entre muitos pais e filhos existem abismos aparentemente intransponíveis de mágoas, feridas, rejeições, carências de perdão e afeto. Entretanto, tenho visto grandes milagres nessa área. Antes da volta de Jesus, em meio à decadência da humanidade, Deus prometeu enviar uma capacitação sobre nós, Sua Igreja, a fim de que os corações dos filhos se convertam aos pais, e os corações dos pais se convertam aos filhos (Malaquias 4.4-6). Isso é bíblico. Isso é possível. Isso está acontecendo hoje. Filhos estão se rendendo aos pais; e pais, aos filhos. E a honra tem sido um meio fundamental para que famílias inteiras, lideranças em crise, igrejas antigamente rivais reencontrem a vontade do Pai cheio de amor.

Confira a terceira parte deste artigo aqui.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Existe um momento kayros para a igreja hoje?

{ Na virada do ano, falei a respeito do tempo favorável que está se abrindo para aqueles que fazem parte do Corpo de Cristo, a Igreja, e que estão se preparando para as bodas do Cordeiro, conforme Apocalipse 19.7. Recomendo a leitura do artigo antes de ler o texto abaixo sobre alguns aspectos ligados ao tempo de oportunidade de Deus e dos perigos que nos afastam de viver plenamente o que Ele está abrindo para nós. }

Por Bob Mumford *

O momento kayros é um momento de oportunidade, ou um tempo na economia de Deus em que algo novo está para acontecer. É um momento ou época que precisa ser entendido e interpretado corretamente. Vou dar alguns exemplos de momento kayros na história do povo de Deus: O êxodo do Egito; a volta do cativeiro de Babilônia; o aparecimento de João Batista; o aparecimento do Messias; o dia de pentecoste em Atos 2; Martinho Lutero e a Reforma; a visitação de Deus nos dias de João Wesley; o derramamento do Espírito em Azusa, nos EUA, em 1906; a renovação carismática. [...]

Existe um momento kayros para a igreja hoje? Estamos diante de um momento emergente, cheio de oportunidades para o mover de Deus, para conduzir a igreja em direção à consumação do seu propósito e missão na terra? Como poderíamos discernir este momento, e o que poderia nos impedir de reconhecê-lo ou de participar dele?

Em primeiro lugar eu gostaria de relacionar alguns aspectos que vejo acontecendo na igreja, alguns de forma bem embrionária, outros de forma já mais concreta.
  • A restauração do sobrenatural, não só na igreja, mas na nossa vida diária. Temos visto Deus operar toda espécie de milagre e dom do Espírito em todas as partes do mundo. Ele quer que isto aconteça agora na nossa vida diária.
  • Maturidade de relacionamentos, dentro da igreja local e na igreja universal. Estamos começando a entender que para nos relacionarmos com pessoas em outros setores do Corpo de Cristo, não podemos tentar impor sobre elas as nossas ênfases ou doutrinas especiais.
  • Comunidade, comunhão, koinonia. Preciso aprender a quebrar um pedaço de mim mesmo para dar aos outros.
  • Solidariedade - guerra espiritual conjunta. Se uma igreja ou pessoa individual for atacada, todas devemos fechar as fileiras e nos unirmos a ela. Ninguém vai querer ir contra toda a igreja.
  • Catolicidade (não romana). Significa amar a toda a igreja, todo o corpo, aonde estiver, e em qualquer condição em que estiver. Não é uma questão de criar uma nova organização ou estrutura. É unir através de relacionamentos. Temos que ter coragem para ir àqueles a quem Deus nos enviou para servir.

Quais são os perigos de não reconhecermos o momento kayros diante de nós?
  • Se nos preocuparmos com o velho cântico, não estaremos prontos para ouvir o novo. Há pessoas que até hoje não reconhecem que Deus agiu na igreja nas últimas grandes visitações deste século, como a Pentecostal e a Carismática. Se não ouviram nem o último cântico, como ouvirão aquele que vai sair agora?
  • Compromisso demais com a minha reputação me impedirá de estar pronto para entrar no que Deus quer. Sabemos pela história que Deus faz coisas que geralmente não são muito bem aceitas no princípio. Se tivermos muito medo de estragar nossa reputação, dificilmente estaremos abertos para o momento emergente do novo mover de Deus.
  • Temos que perder o nosso medo de sermos absorvidos (desaparecer no meio da multidão e perder a nossa identidade, por estarmos entrando em algo novo ou diferente daquilo que conhecemos) ou de sermos rejeitados (por estarmos entrando em algo novo).
  • Achar que a nossa igreja ou movimento é o principal mover de Deus. Somos sempre uma expressão bem incompleta do Corpo de Cristo, e precisamos buscar o relacionamento e a contribuição de outras partes. Nunca teremos a expressão total de Deus sozinhos.
  • Acomodar-nos com rotinas e visitações passadas. Ficarmos domesticados. Deixar que os líderes nos manipulem e façam de nós meros robôs espirituais. "Siga ordens; seja submisso; cante, levante, sente-se, cante uma música de Sião". [...]

Temos que achar a obra criativa de Deus, o novo cântico e a palavra procedente! Precisamos ser um povo profético novamente, o sal da terra, a luz do mundo. Não podemos mais ser guerreiros sem guerra, povo sem rumo e sem mensagem para o mundo!

* Extraído do livreto "Um novo cântico - parte 1: uma palavra procedente". Americana, SP: Restauração, 1995, nº 11.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O resgate da honra - parte 1

Luciano Motta

Não pretendo fazer um tratado teológico, nem um estudo denso sobre como as Escrituras abordam o tema da honra. Mas em tempos de forte individualismo, competição e indiferença, é muito importante refletirmos sobre isso. Percebo, em geral, uma grande dificuldade nas igrejas quanto a apreciar e a valorizar seus pastores, presbíteros e líderes, e também seus membros, algo que certamente vem do declínio da honra entre filhos e pais e entre irmãos. Se a família não celebra seus próprios integrantes, o que se pode esperar de congregações e denominações? Existe também o problema inverso: líderes que abusam da autoridade, pais que desprezam seus filhos, gerando um ciclo de não-graça e baixa autoestima que contamina toda a sociedade.

É evidente que os maiores atos de desonra vêm sendo cometidos contra Deus. Ele é Digno de ser adorado, engrandecido, honrado! Ele deve ser amado com todo nosso coração, alma, entendimento e força! É um mandamento do próprio Deus na Lei de Moisés (Êxodo 20.1-7), reafirmado para o povo de Israel quando prestes a entrar em Canaã (Deuteronômio 6.5), e novamente destacado por Jesus em resposta aos religiosos. Aliás, Cristo se referiu a essa ordem como "o grande e primeiro mandamento" (Mateus 22.37). A Bíblia enfatiza em cada história, ensino, salmo e profecia o que João viu e ouviu diante do trono: "Ao que está assentado no trono e ao Cordeiro sejam o louvor, a honra, a glória e o domínio pelos séculos dos séculos!" (Apocalipse 5.13).

No entanto, em muitas igrejas, o que se canta nos cultos não é a realidade do Deus que é Digno de receber honra, mas o engano de um homem que Deus deve honrar e abençoar. Em muitas congregações, as reuniões deixaram de ser guiadas pelo Espírito Santo, mas são sufocadas por tradições religiosas ou dominadas por deliberações, agendas e compromissos que estão longe do que Deus quer. Muitos crentes não são motivados pelo amor a Deus, que corresponde a fazer Sua vontade acima de tudo, mas empreendem, vivem, casam, compram... Enfim, vivem a vida como se Ele não existisse. Essa ausência de devoção ao Pai, essa falta de crescimento e aperfeiçoamento à imagem do Filho, essa insubmissão ao Espírito Santo provocam uma reação em cadeia, que já manifestamos aqui: famílias desestruturadas, igrejas sem rumo, sociedade em ruínas.

Se pensarmos bem, Deus não precisa da nossa adoração. Nós é que precisamos adorá-Lo, honrá-Lo, amá-Lo, contemplá-Lo! Quando nos colocamos diante Dele todos os dias, "com o rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, que vem do Espírito do Senhor" (2 Coríntios 3.18). Quando honramos o Pai, com nossas vidas e famílias alinhadas à Sua vontade, vemos se cumprir em nós a oração de Jesus: "para que o amor com que me amaste esteja neles, e eu também neles esteja" (João 17.26).

O amor do Pai em nós, e o Filho em nós, e o Espírito Santo em nós... Isso já é mais do que suficiente para honrarmos e dignificarmos esse Deus tão maravilhoso! Afinal, como diz o salmista, "que é o homem, para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? Tu o fizeste um pouco menor que os anjos e o coroaste de glória e honra" (Salmo 8.4-5). Deus nos honra com Sua presença, com Seu amor incondicional, com Seu cuidado e fidelidade. Nós nascemos em pecado, somos legitimamente culpados, merecedores do castigo eterno... e mesmo assim Ele nos redime, nos coroa, nos adota como filhos, nos faz participar da Sua santidade! Por que não honrar esse Deus?

As Escrituras demonstram a perfeita unidade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A Trindade é uma comunidade de amor e honra, a expressão máxima de comunhão e interdependência. Jesus recebeu "honra e glória de Deus Pai quando, pela glória majestosa, a seguinte voz lhe foi dirigida: Este é o meu Filho amado de quem me agrado" (2 Pedro 1.17). Quando os fariseus acusaram Jesus de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, o Filho defendeu a honra do Espírito Santo: "Todo tipo de pecado e blasfêmia será perdoado aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do homem, isso lhe será perdoado; mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro" (Mateus 12.31-32). Enquanto esteve na terra, Deus foi honrado por Jesus: "Em verdade, em verdade vos digo que o Filho nada pode fazer por si mesmo, senão o que vir o Pai fazer; porque tudo quanto ele faz, o Filho faz também. [...] Não posso fazer coisa alguma por mim mesmo; conforme ouço, assim julgo; e o meu julgamento é justo, porque não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" (João 5.19,30).

O que aprendemos com a Trindade em relação à honra deve ser a marca de nossas igrejas, de nossas vidas enquanto comunidade de fé, para que o mundo creia e seja transformado pela mensagem de salvação e vida abundante que carregamos. Se é um mandamento amarmos e nos submetermos a Deus, dando a Ele o valor e a atenção devidos, assim devemos nos amar e nos sujeitar uns aos outros. Veremos na segunda parte como a honra deve estar presente no dia a dia dos relacionamentos interpessoais.