quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Enchei-vos do Espírito - Parte 2

FALANDO ENTRE VÓS COM SALMOS


Luciano Motta

Na primeira parte deste artigo, fizemos uma breve introdução a respeito das palavras de Paulo à igreja de Éfeso (e a nós) sobre não nos embriagarmos com vinho, mas sermos pessoas cheias do Espírito Santo.

O verbo no imperativo — "enchei-vos" (pleroo: "completar, preencher até o máximo") — indica uma ordem: devemos ter o cuidado de não sobrecarregarmos as nossas vidas com a forma de pensar deste mundo, nem nos iludirmos (embriagarmos) com seus atrativos, mas andarmos em sabedoria, sensíveis e obedientes à vontade de Deus, conscientes (sóbrios) de que fomos chamados para iluminarmos o mundo e, com nossas vidas, apontarmos o Caminho, a Verdade e a Vida: Cristo!

A primeira instrução para sermos pessoas cheias do Espírito é: "falando entre vós com salmos". A palavra "falar" (laleo) significa "conversar, anunciar, contar, usar palavras a fim de tornar conhecido ou revelar o próprio pensamento". Vivemos dias em que as redes sociais se tornaram tribunas, onde são propagados discursos de ódio, ideologias, mentiras, desabafos, imbecilidades... Quando a conversa ocorre a nível pessoal, tête-à-tête, a maioria das pessoas se esconde atrás de trivialidades. Até no que é relevante, costuma-se dialogar da forma mais superficial possível, afinal, pra que complicar ou me comprometer?

Qual tem sido o tema das nossas conversas? Jesus disse que "a boca fala do que o coração está cheio" (Mateus 12.34). Ao dizer isso, o Mestre se dirigia aos fariseus, confrontando sua hipocrisia e blasfêmia: "Como podeis falar coisas boas, sendo maus?" (v.34) E nós? Temos sido pessoas que falam o que os outros devem fazer, só que nós mesmos não vivemos o nosso discurso? Temos proferido palavras que julgam e ofendem o próximo? Temos difamado a obra do Espírito Santo em igrejas diferentes da nossa?

Brasileiros têm a triste mania de reclamar de tudo e de todos. Reclamam dos políticos, dos parentes, dos vizinhos, do pastor e da igreja. Reclamam da economia, da corrupção, da cultura do "jeitinho" e daqueles que sempre querem "se dar bem". Mas há pouca ou nenhuma ação prática para mudar o que está, de fato, errado. O que se vê são mais brasileiros aderindo ao que passaram a vida toda reclamando, só que agora fazendo as mesmas coisas.

Conversas triviais são, como o próprio nome diz, comuns, ordinárias, medíocres. Para sermos cheios do Espírito, precisamos mudar o tema e o conteúdo do que conversamos. Mas se a boca fala do que está cheio o coração — e se estamos cheios, por exemplo, de pré-julgamentos e murmurações, de cinismo, orgulho e vaidade, de apego a bens e dinheiro, de futilidades —, então seremos incapazes de romper com o que é banal e tratarmos de assuntos mais elevados, mais compatíveis com o estilo de vida de um discípulo de Cristo. O conteúdo do que falamos sempre revela o que cremos, o que investimos tempo e atenção, o que realmente somos por dentro.

A chave nesta exortação é falar "COM SALMOS". Queremos ser cheios do Espírito? Então os salmos devem fazer parte de nossas conversas. Como? Conhecendo, meditando, aplicando a mensagem dos salmos (e, por extensão, de toda a Bíblia) ao coração, até que se torne inseparável da nossa vida, em quaisquer circunstâncias. Para o apóstolo Paulo, deve ser uma norma para a saúde da igreja, como reforça em outra epístola: "A palavra de Cristo habite ricamente em vós, em toda a sabedoria; ensinai e aconselhai uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, louvando a Deus com gratidão no coração" (Colossenses 3.16).

No ápice de sua agonia na cruz, Jesus bradou em alta voz o Salmo 22.1: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Mateus 27.46). Quem faria menção a um salmo num momento tão terrível como esse? Somente se as palavras do salmo estiverem talhadas no coração e fizerem parte da própria existência — nesse caso, é um salmo profético, que faz várias referências à crucificação de Cristo. Em outra ocasião, quando Jesus virou as mesas dos cambistas e os expulsou do templo, os discípulos se lembraram do Salmo 69.9: "O zelo pela tua casa me consumirá" (João 2.17). Em um momento tão tenso, um salmo veio à memória daqueles homens: eles estavam vendo as Escrituras se cumprirem bem na frente deles. Poderia enumerar muitas passagens semelhantes no Novo Testamento (dos Evangelhos ao Apocalipse) em que homens e mulheres de Deus aplicaram às suas vidas os salmos, a Lei e os profetas. É frequente a expressão "como está escrito" nas Escrituras, usada nos mais diversos contextos. Aliás, durante a tentação no deserto, Jesus respondeu a satanás exatamente assim, demonstrando que o fundamento de nossas vidas é a Palavra de Deus.

Os salmos ressaltam como é bom meditar na Lei do Senhor e aplicá-la ao coração; como é ter uma vida totalmente centrada em Deus e, por isso mesmo, cheia de entusiasmo e louvor. Os salmistas reconhecem sua fragilidade e sua dependência do Pai. Eles contemplam a beleza de Deus e, ao mesmo tempo, clamam pela Sua Justiça para corrigir a injustiça; transformam em poesia todas as Suas obras no passado, no presente e no futuro. Sim, os salmos são fontes permanentes de inspiração, fornecem vocabulário e conteúdo para cada ocasião, como afirma Philip Yancey:

O livro dos Salmos, situado exatamente no meio de nossa Bíblia, proporciona um registro abrangente da vida com Deus por meio de relatos individualizados a respeito do funcionamento da vida espiritual. Não me aproximo dos salmos em primeiro lugar como aluno em busca de mais conhecimento, mas como um co-peregrino em busca de relacionamento. O primeiro e maior mandamento é amar a Deus como todo o nosso coração, com toda a nossa alma e com todo o nosso entendimento. Como nenhum outro livro da Bíblia, Salmos mostra como é o relacionamento com Deus de alguém de coração apaixonado, de alma faminta e de mente não dividida (YANCEY, A Bíblia que Jesus lia, Ed. Vida, p.111).

Em momentos de crise, tensão e angústia, falamos entre nós com salmos — podemos auxiliar e fortalecer irmãos e amigos, colegas de trabalho e desconhecidos, com a confiança que os salmos trazem. Em momentos de alegria e paz, falamos entre nós com salmos — anunciamos as maravilhas de Deus como os salmistas faziam. Tudo isso coopera para nos mantermos continuamente cheios do Espírito.

Mas há outras ações. Veremos em breve...

domingo, 7 de janeiro de 2018

Enchei-vos do Espírito - Parte 1

Luciano Motta

Fazemos diversas resoluções no começo de um novo ano. Alguns desses desejos são realmente fundamentais na caminhada do cristão: ler toda a Bíblia, orar todos os dias, crescer como discípulo, envolver-se mais nas atividades da igreja local, etc. Ter uma vida contínua e permanentemente cheia do Espírito Santo é outra bela resolução para 2018. Mais do que isso, é uma ordenança das Escrituras:

"E não vos embriagueis com vinho, que leva à devassidão, mas enchei-vos do Espírito"
(Efésios 5.18).

Um erro comum é usarem essa passagem como justificativa para se proibir o consumo de bebida alcoólica, ou para se defender que o cristão fique "embriagado" do Espírito. Quando observamos o contexto, o verso 18 está totalmente conectado às afirmativas anteriores que compõem a argumentação do apóstolo Paulo: não tenham um procedimento de tolos, mas de sábios (v.15); não sejam insensatos, mas entendam a vontade do Senhor (v.17). Assim, fica claro que a ênfase do texto não está na bebida, tampouco em uma experiência com o Espírito Santo que nos faça "ficar como bêbados" pela manifestação da Sua presença.

Antes de prosseguirmos, uma ressalva: 

É perfeitamente possível (e totalmente desejável!) termos uma experiência extraordinária com o Espírito Santo, a ponto de parecermos bêbados ou em êxtase. O relato de Atos 2.1-13 talvez seja o melhor exemplo disso: os discípulos foram tão cheios do Espírito que muitos zombaram deles, dizendo: "Eles estão embriagados com vinho!" Portanto, não ignoramos uma manifestação do Espírito Santo que "perturbe" a lógica, a razão, as leis da física (ou qualquer coisa do tipo).

Deus é Deus!

Retornando...

A exortação de Paulo à igreja de Éfeso (e a nós) — para não nos embriagarmos com vinho, mas nos enchermos do Espírito — fala mais especificamente da forma como estamos conduzindo nossas vidas: Tenho sido uma pessoa que tem clareza e discernimento em tudo que faço? Meu foco (coração) está totalmente em Deus? Ou tenho sido perturbado (embriagado) por outras coisas (a forma de pensar do mundo, por exemplo) a ponto de afetar meus sentidos e desnortear meu caminhar?

Ser cheio do Espírito é conhecer com propriedade a vontade de Deus e viver em sabedoria; é ser alguém que discerne as trevas que cobrem este século (os dias são maus) e que, por isso, sabe aproveitar bem o tempo, não desperdiçando as oportunidades (v.16). Isso aponta um tipo de "sobriedade santa" em tempos caóticos.

Se recuarmos um pouco mais na leitura do mesmo capítulo 5 da epístola aos efésios, veremos um paralelo entre sermos cheios do Espírito e andarmos "em toda bondade, justiça e verdade", como filhos da luz (v.8-10). Uma vida cheia do Espírito nos capacita a desenvolvermos o caráter divino em nós, e assim iluminamos o mundo — qualquer lugar, quaisquer circunstâncias.

Como sermos pessoas cheias do Espírito? As Escrituras respondem (v.19-21):
• falando entre vós com salmos, hinos e cânticos espirituais
• cantando e louvando ao Senhor no coração
• dando sempre graças por tudo a Deus, o Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo
• sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo

Note que todos os verbos dessa passagem estão no gerúndio, ou seja, indicam uma ação prolongada, um procedimento em curso. Isso significa que cada uma dessas sentenças pertence à mesma oração principal ("enchei-vos do Espírito"), ou seja, as ações "falando", "cantando e louvando", "dando sempre graças" e "sujeitando-vos" são inseparáveis para termos uma vida cheia do Espírito!

É o que veremos na continuação deste artigo... (em breve)

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Obs: já estava com essa palavra em desenvolvimento quando encontrei o estudo de Ernesto Wegermann sobre a passagem de Efésios 5.18-21, que é muito bom e profundo. Recomendo a leitura.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Feliz 2018

Luciano Motta

O que fazer para que 2018 seja um ano realmente novo? Trabalhe. Trabalhe muito! Não transfira a outros o que cabe somente a você. Mas tenha momentos de descanso e solitude: leia, conheça, silencie, escute, contemple. Desligue-se das redes sociais, dos dispositivos eletrônicos, de tudo que roube espaço, tempo e energia. Mas esteja sempre rodeado dos amigos, dos irmãos, da família – abraços, sorrisos, cutucadas e curtidas reais são indispensáveis! Viva de forma sábia, e não insensata. Aproveite bem cada oportunidade, porque os dias são maus (Ef 5.15-16).

Não basta desejar novas realizações, é preciso realizar o novo: percorrer rotinas e caminhos que nos façam sentir o frio na barriga do desafio, do risco, do mistério, da amplitude. Somos moldados e confinados ao que nos acomoda, por isso devemos erguer nossos olhos para adiante de nós mesmos, de nossas próprias dificuldades e limitações.

Novas realizações são a consequência do que estamos vendo e ouvindo, munidos das ferramentas certas, bem organizados quanto ao tempo que dispomos, tendo sempre ao nosso lado pessoas que também estão vendo e ouvindo Deus, Aquele que nos ilumina e que nunca nos decepciona (Sl 34.5), Aquele que diz: "Eu faço novas todas as coisas!" (Ap 21.5).

domingo, 24 de dezembro de 2017

Natal: superando impossibilidades

Luciano Motta

O Natal é um tempo em que superamos impossibilidades.

Famílias inteiras se reúnem neste dia. Não importa se o motivo é a comida ou a bebida, ou se a reunião só é possível por causa do patriarca ou da matriarca já de idade avançada. A impossibilidade do encontro em família é vencida, ainda que por um breve momento.

Amigos trocam presentes. É notório que a data se tornou mero comércio, as lojas estão cheias, há um corre-corre para gastar e consumir. Entretanto, a atitude de comprar um presente para alguém derruba a impossibilidade de pensar no outro antes de pensar em si mesmo.

Anônimos se mobilizam nesta época do ano para ajudarem pessoas menos favorecidas, repartindo um pouco do que receberam. Gestos assim provam que ainda podemos ultrapassar a impossibilidade de sermos solidários em tempos marcados por forte individualismo.

Há muitos anos, um profeta anunciou: “O povo que andava em trevas viu uma grande luz; e resplandeceu a luz sobre os que habitavam na terra da sombra da morte... Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi concedido. O governo está sobre os seus ombros, e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz” (Isaías 9.2,6). Séculos depois, a profecia se cumpriu: “A virgem engravidará e dará à luz um filho, a quem chamarão Emanuel, que significa: Deus conosco” (Mateus 1.23). De forma miraculosa, e até incompreensível, nasceu o Redentor, o Salvador do mundo: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, pleno de graça e de verdade; e vimos a sua glória” (João 1.14). Por meio de Jesus Cristo, a impossibilidade de reconciliação com Deus foi definitivamente desfeita, e hoje, ao Seu lado, podemos desfrutar de uma vida extraordinária!

Que o Natal abra espaço em nossas rotinas e eleve nossos pensamentos a virtudes quase impossíveis – e tão fundamentais – nestes dias conturbados, como a fé, a esperança e o amor. Muito acima de questões familiares ou amizades, de comida ou bebida, de presentes ou doações, que este seja um tempo para entregarmos todo nosso coração Àquele que veio ao mundo e deu Sua própria vida – por você e por mim – e descobrirmos Nele que “tudo é possível ao que crê” (Marcos 9.23).

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Encontros com Deus



Ministrei esta palavra em nossa reunião de domingo, no último dia 24/09.

A Bíblia relata dois encontros memoráveis de Moisés com Deus: o primeiro, no episódio da sarça ardente (Êxodo 3), e o segundo, no monte Sinai (Êxodo 33).

Qual é a grande diferença entre esses dois encontros?

O que aprendemos com a maneira como Deus transformou a vida de Moisés a partir desses dois encontros?