domingo, 31 de março de 2013

Intimidade

Por Asher Intrater, postado na Revista Impacto

{ Nesse domingo de Páscoa, mais do que mesa farta ou chocolates, vamos refletir em algo mais importante: Jesus se tornou vulnerável a fim de abrir o caminho para termos intimidade com o Pai. }

A coisa mais preciosa na vida é intimidade.  Intimidade deve ser prioritariamente entre nós e Deus e, apenas em segundo lugar, entre nós e outras pessoas. É a pérola de grande valor; para adquiri-la, vendemos tudo o que temos. Intimidade vem de um relacionamento pessoal com Deus, por meio da fé em Yeshua (Jesus) o Messias.

Abraão tornou-se amigo de Deus (Isaías 41.8; Tiago 2.23). Moisés falava com Deus face a face (Deuteronômio 34.10). Asafe disse que kirvah (palavra hebraica que significa proximidade) a Deus valia mais para ele do que qualquer outra coisa no mundo (Salmo 73.25,28). Davi disse que “agradável comunhão” ou “compartilhar o coração” era o que desejava de um amigo (Salmo 55.14).

O discípulo que alcançou maior intimidade com Yeshua foi João, que reclinou sobre o peito de Jesus durante o último Seder (a ceia da Páscoa) e que foi conhecido como “o discípulo a quem Yeshua amava” (João 13.23). Ele escreveu estas palavras: “Porque o próprio Pai vos ama…” (João 16.27).

Se o próprio Pai me ama, então não há barreira, distância, rejeição. Não há separação alguma. Intimidade total, no nível máximo, é o que está sendo oferecido a nós. A tradução literal de Deuteronômio 4.4 é davek, aqueles que “se apegaram, que se grudaram a Deus como cola” (algumas versões traduzem “que permanecestes fiéis”). Não dá para ficar mais próximo a alguém do que cola.

O pecado quebra essa intimidade. Jeremias descreveu o processo como se fosse um cinto que ficou imundo (Jeremias 13.1-11). Estávamos tão próximos a Deus quanto uma roupa íntima, mas depois ficamos imundos, contaminados. Pecado é como um marido ou esposa que trai a intimidade sexual do casamento por meio do adultério (Oseias 1.2; 3.1). Pecado é a traição da intimidade.

A intimidade permite que os pensamentos secretos da nossa alma sejam divididos com outra pessoa. Deus permite que seus pensamentos mais profundos sejam divididos conosco pelo Espírito Santo (1 Coríntios 2.10-12). O Espírito Santo sabe o que se passa no íntimo de Deus e o compartilha conosco. Intimidade é isto: o interior de uma pessoa tocando o interior de outra. Se abrirmos nosso coração completamente a Deus, ele permitirá que conheçamos o seu coração também (1 Coríntios 8.3).

Intimidade requer vulnerabilidade. Se abrirmos as áreas mais sensíveis do nosso coração a outra pessoa, provavelmente sairemos machucados. Portanto, vulnerabilidade envolve dor; essa dor é o preço da intimidade. Podemos ser “feridos na casa dos nossos amigos” (Zacarias 13.6).

É por isso que intimidade depende de confiança. Não podemos aproximar-nos de Deus se não tivermos confiança nele (Hebreus 11.6). Precisamos de fé para confiar em alguém. Se quisermos que outros confiem em nós, devemos provar que somos dignos de confiança. A fidelidade de Deus a nós capacita-nos a ter fé nele. Fidelidade gera fé nos outros.

Yeshua realizou isso por nós na cruz. Ele se tornou vulnerável a fim de abrir o caminho para intimidade com o Pai. Nós o ferimos. Yeshua pagou o preço para comprar intimidade conosco. Ele foi despido, açoitado e humilhado por nossa causa. Esse foi o sacrifício de amor. O amor suporta a dor da vulnerabilidade a fim de pagar o preço pela intimidade.

Devemos tomar nossa cruz diariamente (Lucas 9.23) para andar junto com ele. Meditamos nas Escrituras para compreender seus pensamentos (Isaías 55.8-11). Oramos no Espírito Santo para receber revelação e conhecê-lo pessoalmente (Efésios 1.17). Humilhamos a nós mesmos a fim de ficar mais próximos a ele (Mateus 11.25-29). Obedecemos a ele, mesmo se nos custar a morte, a fim de conhecê-lo e ficar semelhantes a ele (Filipenses 3.10).

A última e mais importante oração de Yeshua era para que nos tornássemos “um” (João 17.11,21-23). Foi mais do que uma oração em favor de união e cooperação. Foi em favor de unidade divina. Yeshua orou para que estivéssemos dentro dele e o Pai dentro de nós, assim como ele e o Pai estão, cada um, dentro do outro. Ele nos convidou a experimentar essa mesma intimidade perfeita.

Unidade íntima com Deus é a experiência mais sublime e transformadora do universo. Glorifica e purifica-nos (João 17.5,10,17,24). Ela proporciona prazer máximo (Salmo 16.11). É o propósito para o qual fomos criados.

quinta-feira, 28 de março de 2013

O que é precioso para você?

Luciano Motta

"Agora, eis que eu, constrangido no meu espírito, vou a Jerusalém, não sabendo o que ali acontecerá, senão o que o Espírito Santo me testifica, de cidade em cidade, dizendo que me esperam prisões e tribulações, mas em nada tenho a minha vida como preciosa para mim, contando que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus" (Atos 20.22-24).

"Se algum outro julga poder confiar na carne, ainda mais eu: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei fui fariseu; quanto ao zelo, persegui a igreja; quanto à justiça que há na lei, fui irrepreensível. Mas o que para mim era lucro passei a considerá-lo como perda por amor de Cristo" (Filipenses 3.4-7).

As palavras acima são do apóstolo Paulo. Veja que em essência dizem uma só coisa: tudo na vida, e a própria vida, são secundárias quando comparadas a Cristo. Ele viu o Senhor no caminho para Damasco (Atos 9), e essa visão conquistou seu coração para sempre! Seus valores foram redimensionados. Suas prioridades mudaram. Paulo tinha uma linhagem, uma posição religiosa, cumpria fielmente a lei mosaica. Como ele mesmo afirmou, era irrepreensível, alguém de grande relevância cultural e social no seu tempo. Mas ele rebaixou tudo isso como perda (em outras versões: esterco). Sua vida certinha e bem sucedida aos olhos humanos havia se tornado absolutamente sem graça, desprezível, quando comparada à visão de Cristo e à infinitude que é conhecê-Lo.

Nesse sentido, será que você poderia dizer o mesmo? Como é a sua vida hoje? Vamos pensar de forma bastante positiva agora: Talvez você tenha uma família, um bom emprego, uma casa e um carro... Digamos que seu nome esteja limpo na praça, e seu cartão de crédito tenha amplo limite... Imaginemos que você seja membro de uma igreja e contribua com seus dízimos sem falhar, tenha um cargo ou título que o torna respeitado na sua congregação... E mais: vamos considerar que seu ministério esteja agora em progressiva ascensão, tendo gravado um álbum ou DVD, sendo requisitado para ir cada vez mais longe...

Todas essas coisas são boas, várias delas são bíblicas. Figuram nas listas de desejos de muitas e muitas pessoas, crentes ou não. Vá a uma livraria e você encontrará diversos livros de auto-ajuda que destacam essas coisas. Vá a uma igreja evangélica e você possivelmente ouvirá pregações e canções nessa mesma linha. Aliás, no discurso evangélico vigente, ainda que não de forma tão evidenciada, esta é a mais propagada mensagem de nossos dias: "Com Cristo você terá uma vida bem sucedida". Contudo, será que podemos considerar essas coisas como fundamentos de uma vida cristã bem sucedida?

Vamos olhar com mais atenção às declarações de Paulo: O próprio Espírito Santo testificava no coração do apóstolo que lhe estavam reservadas prisões e tribulações no ministério. Em outro trecho da epístola aos filipenses, ele afirmou: "Sei passar falta, e sei também ter abundância; em toda maneira e em todas as coisas estou experimentado, tanto em ter fartura, como em passar fome; tanto em ter abundância, como em padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece" (Filipenses 4.12-13). Não é uma mensagem de sucesso, não no sentido que temos ouvido hoje em dia. Na verdade, ser bem sucedido para Paulo era o mesmo que permanecer "Naquele que o fortalecia", apesar das oposições e das dificuldades. Importava mais conhecer Aquele cujo Amor e Graça derrubaram suas convicções por terra: "uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo pelo prêmio da vocação celestial de Deus em Cristo Jesus" (Filipenses 3.13-14). Essa vocação, esse chamado que recebemos, é viver em comunhão plena com o Pai, por meio do Filho, guiados pelo Espírito Santo.

Nada é mais precioso do que isso! Mas o mundo pressiona em sentido contrário: adquira bens, seja rico, zele por sua reputação, tenha 1 milhão de amigos nas redes sociais... Essa pressão tem atingido e transtornado a mensagem de muitas igrejas e denominações. O único que pode mudar essa mentalidade é Cristo. Os perdidos precisam ter um encontro genuíno com Ele. As igrejas e os crentes precisam de novo contemplá-Lo, conhecê-Lo além das posições, dos cargos, das limitações impostas pelas tradições religiosas. O véu foi rasgado. Deus está acessível a todo aquele que Nele crer.

Que a visão da Sua face nos ilumine e atraia nosso coração para Ele, como podemos perceber nas palavras da famosa bênção araônica: "O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; o Senhor levante sobre ti o seu rosto, e te dê a paz" (Números 6.24-26). Podemos até alcançar muitas coisas boas, e várias delas são verdadeiramente importantes e necessárias, mas nenhuma delas deve ocupar o lugar de Cristo. Para não considerarmos nossas próprias vidas mais preciosas do que Ele, devemos contemplá-Lo e prosseguir em conhecê-Lo. A paz, o sucesso, a realização vêm somente Dele.

terça-feira, 19 de março de 2013

Brasil: um país que pouco mudou

Luciano Motta

Segue um pequeno trecho contendo observações da expedição de Francis de Castelnau, geógrafo francês em passagem por Brasil, Paraguai, Bolívia e Peru, de 1843 a 1847. Em seus relatos, ele descreve roteiros e cenários da viagem e ocupa-se principalmente da meteorologia, da geologia, da botânica e da zoologia. Aqui há menção ao "estado moral dos habitantes" do Rio de Janeiro. Algumas sentenças foram destacadas por mim e revelam como a sociedade brasileira pouco mudou nos últimos 170 anos:

É sempre difícil se pronunciar sobre o caráter social de um povo, sobretudo em se tratando de uma nação da qual, durante muitos anos, recebeu-se a acolhida das mais hospitaleiras. Entretanto, é dever do viajante comunicar ao público suas impressões, de maneira imparcial. Como todos os povos jovens, os brasileiros são de uma extrema suscetibilidade, mas o ponto principal de seu caráter é uma bondade temerosa ao extremo e que degenera em um verdadeiro vício. Havendo um atentado, todas as simpatias se voltam para o criminoso, que todos se empenham em poupar do castigo merecido, e a impunidade engendra o crime. Mas, devo dizê-lo com toda a franqueza, não há, talvez, nenhum outro país, em que os atentados seriam muito mais frequentes, em condições semelhantes. O assassinato seguido de roubo é quase desconhecido no país, mas o assassinato por vingança é bastante comum em muitos pontos. O roubo é igualmente raro, mas a trapaça é muito difundida e se reproduz sob todas as formas. O homem a quem você pode confiar sem risco um tesouro tentará, muitas vezes, afanar-lhe alguns trocados. A embriaguez é quase desconhecida no Brasil, mas a mentira é generalizada em certas classes, de uma forma bem singular; é de se duvidar, às vezes, se a verdade existe. A hospitalidade é geral no interior, e o viajante é recebido com benevolência em quase toda parte. O brasileiro está longe de ter um caráter duro que lhe é, muitas vezes, atribuído na Europa, pois é, certamente, o mais indulgente dos senhores com seus escravos: ao longo de toda a minha viagem, só vi maus tratos aos escravos por parte de estrangeiros. Sei que, algumas vezes, entretanto, eles são submetidos a castigos horríveis, quando o senhor é tomado pela cólera e pelo ciúme; mas também estou certo de que, se fosse possível estabelecer uma lei, segundo a qual o escravo só poderia ser castigado vinte e quatro horas após a falta cometida, ele escaparia quase sempre à punição, ficando assim abolidos os castigos físicos. Criado entre escravos de sua idade, o pequeno brasileiro cresce e convive sempre com eles. Os numerosos negros encarregados do serviço doméstico são, muitas vezes, mais bem tratados do que os criados das melhores casas da Europa. Nas plantações, a sua condição é mais dura; no entanto, são obrigados, apenas, a um trabalho bastante moderado, bem menos penoso, em todo caso, que o que se exigia nas colônias francesas e apenas se igualando à metade do trabalho imposto aos seus irmãos nos Estados Unidos. De resto, no Brasil, só o respeito e a obediência aos costumes protegem eficazmente os escravos, pois as leis que devem defendê-los nunca são aplicadas.

O calor escaldante, a ociosidade, a falta de possibilidade de estudo e a ferida da escravidão exerceram a mais nefasta influência sobre os costumes deste país, e o clero, longe de seguir o bom exemplo de seus pares da Europa, é normalmente o primeiro a dar exemplo de depravação e desordem. Antes de minha partida do Rio, um dos líderes da igreja me disse, com um pouco de exagero, com certeza: “o senhor encontrará aqui um clero, mas não padres”. De resto, esse clero, no meio do qual encontram-se honrosas exceções, tem, pelo menos, uma virtude, a da tolerância, como não se vê em nenhum outro lugar.

A extrema indolência da nação é um pouco dissimulada no Rio, pela agitação de uma grande cidade, onde o governo concentra todos os trabalhos; mas ela se mostra a nu, nas localidades do interior e até em muitas cidades menores da costa. Em tais lugares, o comerciante só venderá a você por obrigação; seu próprio dinheiro, não raro, se mostrará quase inútil, visto que, aos olhos dos habitantes locais, não vale a pena ganhá-lo se, para isso, precisar fazer um pequeno esforço: somente seu caráter prestimoso poderá fazer você conseguir o objeto que procura. No Brasil, tudo é pleno de dificuldades, e mesmo a coisa mais simples muitas vezes se torna impossível. Quanto ao tempo, ele não tem nenhum valor, e a paciência do europeu é obrigada a suportar violentas provas, até que, cansado de lutar, acaba se tornando tão impassível quanto os filhos da terra. [...] (Tomo I, p.130-137, "Estado moral dos habitantes").
Para reflexão: Será mesmo que o Brasil irá "evoluir" nos próximos anos apenas por meio de ações governamentais, campanhas de conscientização, ações assistencialistas e mobilização popular? Mazelas como impunidade, malandragem, depravação, desordem, religiosidade vazia e impassividade, observadas por Castelnau lá no século XIX e que perduram até hoje, enfim, essas estruturas malignas só poderão ser demolidas de nossa constituição, enquanto povo e nação, pela intervenção radical de Deus. Que a igreja de Cristo se levante nos últimos dias com atos de justiça e uma vida de oração, entrega e paixão, que sejam a expressão do Reino que está chegando.

quinta-feira, 14 de março de 2013

15 anos de casados

Hoje completamos 15 anos de casados (Bodas de Cristal). Se considerarmos o tempo de namoro, são 21 anos juntos. Hoje também é aniversário da minha amada esposa Ana Cristina Pina. Temos uma família linda, e incontáveis motivos para agradecermos a Deus. Vale a pena construir uma vida a dois, e tudo é muito melhor quando Deus está presente, quando Ele é o principal fundamento do casamento. Vale a pena ter filhos, vê-los crescendo, sonhando, sendo ensinados a amar a Deus e a dividir suas alegrias e dificuldades. Não é fácil, mas como esperar grandes resultados sem esforço e perseverança? Por isso, ainda que a estrada seja longa e por vezes árdua, ou como diz a Palavra, "ainda que a figueira não floresça, nem a vide dê o seu fruto", nós decidimos: nossas vidas pertencem ao Senhor, confiamos Nele e em Sua provisão, vamos unir nossos esforços para obedecermos à Sua Palavra juntos, guiados pelo Espírito Santo. Depois de 15 anos de casados, podemos afirmar, sem dúvida alguma, que essa foi nossa melhor escolha.

Encorajo você a fazer o mesmo: entregar sua vida, seu casamento, sua família a Deus. Vale a pena!