terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Uma resolução para 2013: ser um herói

Luciano Motta

Observe como nas sociedades do século XXI há um clamor por heróis. Em geral, as pessoas ficam abismadas quando veem alguém fazendo um ato nobre, doando de si mesmo, de sua própria vida, pelo outro. Até ações ordinárias, como a devolução de um montante em dinheiro encontrado ao relento ou o simples cuidado com os filhos por uma mãe dedicada, já são motivos de espanto e admiração.

Nas artes, nunca se produziram tantas histórias e filmes de super-heróis. Contudo, esses mesmos heróis têm sido cada vez mais retratados como seres falíveis, frágeis, inconstantes. Parece descabido para os atuais padrões culturais a figura de um herói destemido, indestrutível, íntegro. Por essa via, por exemplo, foi produzida toda uma nova trilogia do Batman. São filmes ótimos, bem produzidos, é verdade, mas devemos ressaltar que a imagem clássica do herói foi modificada. O ideal de lutar pelo bem e servir às pessoas é diluído em um contexto "cinza". Tanto é assim que a dicotomia herói/vilão não é mais facilmente distinguível, e os vilões acabam despertando mais interesse do público. Nesse sentido, o Coringa de Christopher Nolan é considerado pela crítica o mais denso personagem da trilogia, quiçá de todos os filmes de super-herói nas últimas décadas.

Eis o paradoxo: a humanidade deseja um Superman, seus superpoderes e sua capacidade de resolver problemas "impossíveis", mas não aceita que esse mesmo herói eleve o padrão em termos morais e éticos. Soa piada involuntária conceber uma Liga da Justiça na qual personagens zelam pelo que é certo. Afinal, o que é certo hoje em dia, não é mesmo? Uma equipe de super-heróis de sucesso deve ser como a dos Vingadores, com personagens individualistas, cheios de problemas de caráter e de motivações dúbias, aproximados da realidade humana e não associados a uma possibilidade mais altruísta. A exceção nesse filme é o Capitão América, um herói "certinho", o único capaz de morrer por alguém sem hesitar, e por isso mesmo o mais chato e desencaixado do filme, segundo a mentalidade vigente. Não ignoramos que o Homem de Ferro voe para a morte iminente a fim de salvar a cidade no final do filme dos Vingadores, mas esse é um resquício do heroísmo clássico, retratado muito mais como um clichê hollywoodiano do que como um desejo de valorizar o ideal cristão de amar o próximo e morrer por uma causa.

Valores antiquados?

Ainda sobre o filme dos Vingadores, destacamos a resposta do agente Coulson à pergunta do Capitão América, sobre seu uniforme vermelho e azul ser antiquado nos dias de hoje: "No tempo que vivemos agora, talvez seja necessário que sejamos antiquados". É possível aproximar esta fala ao modo como a Bíblia relaciona as vestes ao caráter do discípulo. O apóstolo Paulo ensina que já nos despimos do velho homem com suas práticas e nos revestimos do novo homem, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do Criador (Colossenses 3.9-10). Infelizmente, essas palavras não são facilmente encontráveis na vida dos crentes hoje. Esse "uniforme" ético e moral tornou-se artigo raro, seja na igreja, seja no mundo. Aumenta a cada dia o número de pessoas com graves problemas de caráter. Líderes têm colocado suas ambições particulares acima de tudo.

A mídia, por sua vez, valoriza quem tem mais dinheiro, quem pode oferecer mais entretenimento. Não importa a vida pessoal, se ama ou trai a esposa, se cuida ou não dos filhos, se é generoso ou avarento. Pense comigo: Qual é a principal característica de uma celebridade? É a exaltação de si, de seus interesses; é sua autopromoção. É saber tirar proveito das situações e das outras pessoas para benefício próprio. Esse anseio egoísta tem invadido a igreja, nem sempre pela via da busca pelo estrelato, mas no fortalecimento da vontade e dos desejos humanos acima da vontade do Pai. É só observar o quanto se prega e se canta atualmente sobre as bênçãos de Deus para o homem e tão pouco se promove o que cada um deve abrir mão de si mesmo pelo Senhor e pelo próximo.

O verdadeiro herói é, antes de tudo, um servo

Junito Brandão, especialista em mitologia grega e latina, relaciona etimologicamente a palavra "herói" às ações de "conservar, defender, guardar, velar sobre, ser útil". Daí o herói seria "o guardião, o defensor, o que nasceu para servir" (Mitologia Grega. Volume III. 5ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1993, p.15). Essa é a definição por excelência: o verdadeiro herói é um servo. Nesse quesito, nosso maior referencial é Jesus Cristo. Ele deixou toda a Sua glória para assumir a forma de homem, amou os perdidos e doou tudo de si, obedeceu ao Pai e morreu em uma cruz para redimir a humanidade.

Da mesma forma, devemos ser aqueles que levam "o morrer do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste" (2 Coríntios 4.10). Temos esse chamado ao serviço. No episódio em que os discípulos disputavam arduamente sobre quem seria o maior do Reino dos céus, Jesus encerrou a discussão: “O maior entre vós seja como o menor; e quem governa seja como quem serve” (Lucas 22.24-30). E disse mais: “Qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo” (Mateus 20.27).

Hoje, Deus não está em busca de celebridades evangélicas. Ele quer levantar Seus heróis para esse tempo: aqueles que irão vencer em meio ao avanço das trevas; aquele que serão precursores do Reino que está por vir. Diz a Palavra que “os olhos do Senhor passam por toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é perfeito para com ele” (2 Crônicas 16.9). Deus procura aqueles que valorizam o chamado e a missão que receberam Dele; que obedecem e renunciam tudo pela causa que foram enviados; que estimam como as pessoas podem ser beneficiadas através de atos de amor e de justiça.

O herói zela por sua família

O principal serviço dos heróis dos últimos dias não é algo que o mundo valoriza como "um grande feito". Na verdade, é um gesto simples, porém de suma importância: o cuidado com a sua família. É o marido que ama a sua mulher e se entrega a ela, não sucumbindo ao tsunami de divórcios que varre nossa época e atinge também a igreja. É a esposa que santifica o seu lar e dá suporte ao seu marido. São pais e mães que buscam ser as maiores referências de caráter e vida espiritual para seus filhos, edificando famílias sólidas que sejam legítimos portos seguros em mares tão turbulentos. Stephen Kanitz afirma:
Bertolt Brecht, famoso dramaturgo alemão, dizia que "pobre era o país que precisava de heróis". Eu diria justamente o contrário. Pobre é o país que possui poucos heróis e exemplos a seguir. [...]
O grande exemplo para os seus filhos será você. Você e seu cônjuge. Vocês dois são os únicos exemplos em quem seus filhos poderão se basear.
Portanto, cuide para que sejam bons exemplos. É assustador, mas eles irão aprender muito mais de você do que você pode imaginar.
Seu filho só tem você para aprender que a vida é bastante diferente da vida intelectual da universidade. Com você ele aprenderá a lidar com erros, incertezas e flutuações da vida. Aprenderá a lidar com reveses, com os meses em que você não tem salário garantido para pagar as contas. Nessas ocasiões ele observará se você se desespera ou se segue em frente
(Família acima de tudo. São Paulo: Thomas Nelson Brasil, p.73-74).
No tempo que vivemos agora, SEM DÚVIDA É NECESSÁRIO que sejamos antiquados. Para se elevar o padrão moral e ético da sociedade, é fundamental começar pelas famílias e pôr em ordem a casa. Para que a igreja de Cristo dignifique Aquele que a salvou e a chamou para resplandecer, é vital resgatar esse ideal heroico de serviço e altruísmo, afinal, são bases da fé cristã. Só assim seremos uma resposta viva aos anseios da humanidade por integridade, justiça e retidão. Que as pessoas possam dizer a nosso respeito: "Queremos ser como ele! Queremos ser como ela! Queremos ter uma família como aquela! Queremos ser como aquele grupo de pessoas que se reúne em nome de Jesus, que dá bom testemunho de sua fé!"

Se o mundo começa 2013 clamando por heróis, eu quero corresponder ao chamado de Deus para servir e dar a minha vida por Sua causa. Eu quero ser um herói para a minha família na minha geração, ainda que isso pareça fora de moda. O lugar da candeia (do herói) é no alto, não porque ela queira aparecer (ou ser uma celebridade), mas porque lá é a sua posição (seu serviço) para arder e iluminar. "Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem ao Pai que está nos céus" (Mateus 5.16).

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Leia também o texto "Não compartilhe suas resoluções" no qual falo sobre a importância de mantermos em segredo nossas metas e as sujeitarmos à vontade de Deus. Este conselho funciona perfeitamente para projetos complexos como um casamento e uma guinada na carreira, que só devem ser expostos quando já bem fundamentados e com data marcada, livres do risco de um adiamento repentino. Contudo, ainda que seja verdade o que diz Provérbios 19.21: "Muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor", não podemos fazer desse texto uma "muleta" para quando as coisas não caminharem do que jeito que gostaríamos. O melhor é submetermos nossas agendas a Deus antes de qualquer resolução.

Ainda sobre os planos para 2013: A maioria das pessoas ignora que qualquer resolução de ano novo, por maior ou menor que seja, para se tornar alcançável, demanda ações práticas, contínuas e antecipadas. O atleta de alto nível, para ganhar a próxima competição, mesmo que daqui a oito meses, jamais abrirá mão de sua preparação: condicionamento físico, alimentação balanceada, hábitos regulares. O estudante qualificado, para passar no vestibular daquela área super-concorrida, manterá seus estudos e leituras em dia, mesmo em tempos propícios ao lazer. Mas estar sempre ativo e focado não significa sacrificar tudo e todos. Não é deixar de se divertir e de ter momentos de descanso. O corpo e a mente precisam de pausas, mas que estas sejam programadas, pontuais. Pense nisso ao fazer seus planos para esse novo ano. E o mais importante de tudo: você e eu podemos deixar um grandioso legado à próxima geração quando simplesmente cumprimos nossas resoluções.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Leituras em 2012

Em 2012 comecei meu Mestrado e, como toda atividade acadêmica, fiz a leitura de muitos fragmentos de textos críticos, além de prosas e poesias. Nesse ínterim, além de continuar lendo a Bíblia (é bom que ela seja lida toda e pra sempre!), também pude ler algumas obras que muito me ajudaram nesse ano:

  • Fortalezas da mente / Ernani Maldonado / Ótimo livro sobre como edificar absolutos em nossa mente que cooperem com a vontade de Deus.

  • O Deus esquecido / Francis Chan / Um alerta quanto ao desprezo da igreja em relação ao Espírito Santo.

  • Crescer / Henri Nouwen / Os três movimentos da vida espiritual. Excelente!

  • A La Escucha / Jean-Luc Nancy / Ensaio sobre a importância de ouvir em uma sociedade que privilegia o ver.

  • O Pequeno Príncipe / Antonie de Saint-Exupery / Graças ao trabalho de escola da minha filha, pude revisitar este clássico da literatura infantil mundial.

  • Louco Amor / Francis Chan / Ótimo livro, fortes palavras contra a mornidão de nossos dias.

  • Celebração da Disciplina / Richard Foster / Um dos livros mais profundos a respeito de disciplinas como fundamentos para o crescimento espiritual.

  • Vinho Novo Odres Novos / Howard Snyder / Como as estruturas podem auxiliar ou impedir o avanço da Igreja.

  • Joel e Amós / David Allan Hubbard / Comentário bíblico. Fiz a leitura da introdução e do comentário sobre o livro de Joel, especialmente no que se refere às implicações da colheita perdida e da seca descritas no capítulo 1.

  • Havendo Deus falado... / Stephen Kaung / 2° volume de uma série de livros sobre a revelação de Cristo nos livros do Antigo Testamento.

  • Formando cavaleiros para os dias de hoje / Robert Lewis / O papel do pai na condução do filho à verdadeira hombridade, em uma abordagem que rememora os valores essenciais do cavalheirismo medieval nessa formação.

  • A Oração - quando a Terra governa o Céu / Watchman Nee / Livro fundamental sobre o ministério de oração da Igreja.

  • Minha casa será chamada Casa de Oração / Lance Lambert / 1° volume de uma série de lições sobre a oração corporativa. Muito prático, cheio de exemplos incríveis.

  • Uma coisa / Dwayne Roberts / Somos chamados para buscarmos uma fascinação, e somente uma: Deus. Uma leitura que incendeia a paixão por Ele.

  • Família acima de tudo / Stephen Kanitz / Abordagem sobre a importância da família em nossos dias, sob a perspectiva de um articulista da revista Veja.

Veja também: minhas leituras e sugestões de livros em 2011, 2010 e 2009

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Criando filhos que o mundo odiará

Por Adam Griffin | Traduzido por André Carvalho do site iPródigo.com

Quando eu era garoto, meu pai me perguntava: “O que você quer ser quando crescer?” E eu respondia com franqueza (adoravelmente, sem dúvidas), “um papai”. Quando meu implacável e realista pai me informou que ninguém me pagaria para ser pai, eu lhe disse que ficaria feliz se pagassem a mim.

Em 2011, meu sonho de me tornar pai tornou-se realidade quando meu filho, Oscar, nasceu. Desde este dia, minhas esperanças e sonhos se voltaram para o que o Oscar será quando crescer. É claro que eu gosto de imaginar ele crescendo bonito, talentoso, piedoso e amável, mas não tem como saber isso ainda. É quase certo que ele terá uma grande afinidade pela Texas A&M (Universidade de pesquisa co-educational pública localizada em College Station, Texas) e pelo Green Bay Packers (time de futebol americano com base em Green Bay, Wisconsin). Sem dúvida, ele terá uma cabeleira decepcionante, gostará de comer e suará mesmo quando estiver frio. Para a maioria das coisas, no entanto, vou ter que esperar para ver o que ele vai ser quando crescer.

Muitas vezes, eu sonho com o grande homem que ele pode ser e quão amável ele será para os outros. Eu sonho que técnicos, professores e pastores irão aprová-lo e até mesmo se impressionar com ele. Imagino seus colegas tendo alta consideração por ele, querendo estar perto dele o tempo todo. Eu imagino que a geração que o segue irá admirá-lo. Eu amo a ideia de que, enquanto ele se torna um homem, ele alcançará favor em tudo e com qualquer pessoa que ele entrar em contato. Alguns desses desejos são saudáveis, e alguns são orgulhosos.

Eu tenho um forte, e certamente não-incomun, desejo de que meu filho seja validado pelo amor das outras pessoas. Muitos pais querem que seus filhos ou filhas sejam pessoas amadas, mas este desejo não é o que faz João 15.19 tão transformador e importante quando confronta a maneira como preparamos nossos filhos para o futuro. Cristo diz a seus discípulos: “Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. Todavia, vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia”. E não é apenas em João 15.19. Há muitos textos nas Escrituras que descrevem a relação conflituosa que os seguidores de Deus terão com aqueles que não são crentes.

Lendo isto, percebi que se Deus responder minhas orações para que meu filho se torne um seguidor de Cristo, as pessoas irão odiá-lo. Sem dúvida, as pessoas serão absolutamente repelidas por meu filho.

Se Deus graciosamente salvar meu Oscar, pessoas irão chamá-lo de fanático e homofóbico. Alguns irão ridicularizá-lo como um machista da mesma forma que eles desprezam suas crenças “sexistas”. Ele será desprezado como um “mente fechada” por dizer que Jesus Cristo não é apenas Deus, mas o único Deus. Ele provavelmente vai conhecer uma garota que o insulta por sua masculinidade ou por considerá-lo antiquado por esperar um casamento sem ter tido sexo. Seus colegas irão achar que ele é um puritano. Valentões irão chamá-lo de covarde. Sua integridade atrairá insultos como “caxias” (eu não sei o que isso significa).

Os professores acharão que meu filho ignora os fatos científicos sobre nossas origens, incitando seus colegas de classe a acharem ele um idiota. Pessoas vão dizer que ele foi desviado por seus pais a um caminho ultrapassado de moralidade mascarado por um relacionamento com Deus. Consultores financeiros irão achar que ele é irresponsavelmente generoso. Quando ele tomar uma decisão, haverão aqueles que não tolerarão sua intolerância. Ele será julgado como julgador. Ele terá inimigos e eu pedirei que ele os ame, e mesmo por isso ele parecerá um tolo.

Se você é como eu e espera que seus filhos sejam seguidores devotos e completos de Cristo, então precisamos criar uma geração que está preparada para ser distintivamente diferente de seus colegas. Em muitas formas, isto é o oposto da minha inclinação natural de como criar meu filho. Criar filhos que estão prontos para serem odiados significa criar crianças que não têm vergonha de seu amor por Deus mesmo em meio ao ódio e à alienação. Independente dos insultos serem legítimos ou ingênuos, oro para que nossos filhos estejam prontos para manterem-se firmes em meio a um mundo que os odeia.