segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Fé: obediência e descanso

Luciano Motta

A Bíblia define fé como "a certeza das coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem" (Hebreus 11.1), Em outras palavras: fé significa crer que Deus existe e que Ele é o Criador e o Senhor de todas as coisas. Por isso, nós, fundamentados e plenamente confiantes em Sua Palavra, agimos ou simplesmente paramos tudo baseados na Sua vontade - algo que já está feito e consumado por Ele - mesmo que aos nossos olhos naturais nada - absolutamente nada! - exista ou esteja acontecendo.

A grande questão é que, na maioria das vezes, enfatizamos a fé no sentido do que temos de fazer e menosprezamos quando temos de parar e esperar em Deus, ainda que "parar e esperar" não signifiquem - longe disso! - apatia ou acomodação. Obediência e descanso não são posicionamentos que se anulam. Na verdade, eles se completam. Mas nem sempre nos movimentamos assim.

Em uma sociedade tão ativista como a nossa, viver em função do fazer é natural. Quantos estão correndo o tempo todo, trabalhando para consumir, consumindo para obter alguma satisfação! Como nada neste mundo pode preencher o vazio interior do homem, logo vem a frustração. O fato é que boa parte da humanidade resiste ao fato de que somos carentes por algo que nos complete, ou seja, somos carentes de Deus, pois só Ele pode nos completar! Em fuga dessa verdade, muitas pessoas buscam uma ocupação, correm para o entretenimento, mergulham na vida virtual, nas drogas, na prostituição. No dia seguinte, aqueles que não têm suas vidas interrompidas por esses substitutos efêmeros da plena satisfação em Deus retornam ao trabalho, e daí para o consumo, e o ciclo se repete.

A espera expõe nossas ansiedades, expõe o que somos por dentro sem Deus: independentes, autossuficientes, imediatistas, movidos pela emoção ou por hábitos e rotinas que mantemos "sob controle". É por isso que ficamos ocupados e temos dificuldade de encontrar descanso. O que mais ouvimos - e também dizemos - nesses dias é: "Estou tão cansado!" Paira sobre nós uma fadiga e um esgotamento resultantes de tantos esforços sem propósito, tantas movimentações que não nasceram do coração do Pai.

Inúmeras vezes agimos precipitadamente em nome do bonito discurso da obediência, mas só nos deparamos com insucessos e dolorosos desvios de rota. Um exemplo disso foi a atitude de Saul: No segundo ano do seu reinado, pressionado pelas circunstâncias, ele não pôde esperar por Samuel no prazo previsto pelo profeta e ofereceu holocausto ao Senhor a fim de obter Sua bênção para a batalha contra os filisteus. Tentando se justificar, disse: "Vi que o exército estava me abandonando e se dispersando, e que tu não chegavas no tempo determinado, e que os filisteus já estavam reunidos em Micmás, então eu disse: Agora os filisteus me atacarão em Gilgal, e eu ainda não busquei o favor do Senhor. Assim me senti pressionado e ofereci o holocausto" (1 Samuel 13.12). Por causa desse erro, Saul e seu reinado foram rejeitados por Deus. A precipitação costuma pôr tudo a perder.

Também falhamos quando "fazemos alguma coisa" apenas por causa do costume e da tradição. Tanto a precipitação quanto a ação acomodada resultam em falta de fé, porque perdemos de vista o Senhor, e o que Ele está por fazer nestes dias, e o que Ele está fazendo agora mesmo.

Josué recebeu uma palavra de Deus: "Olha, entreguei na tua mão Jericó, o seu rei e os seus valentes. Vós, pois, todos os homens de guerra, rodeareis a cidade, cercando-a uma vez; assim fareis por seis dias. Sete sacerdotes levarão sete trombetas de chifre de carneiro adiante da arca; no sétimo dia, rodeareis a cidade sete vezes, e os sacerdotes tocarão as trombetas. E será que, tocando-se longamente a trombeta de chifre de carneiro, ouvindo vós o sonido dela, todo o povo gritará com grande grita; o muro da cidade cairá abaixo, e o povo subirá nele, cada qual em frente de si" (Josué 6.2-5). Ele poderia retrucar: "Quer dizer que vamos invadir Jericó no grito, depois de rodear as muralhas por sete dias?" Quando estamos diante de uma grande adversidade em nossas vidas (de ordem financeira, física, emocional, etc.) e ouvimos de Deus uma palavra, será que agimos conforme Ele nos disse, por mais "louco" que possa parecer? Seríamos capazes de deixar um emprego estável, de mudar de carreira ou de cidade por causa de uma palavra enviada pelo Senhor? Josué e o povo tomaram Jericó em descanso porque agiram conforme a palavra que receberam de Deus.

Josafá passou por circunstâncias semelhantes, só que desta vez eram os inimigos que vinham de encontro a Judá. E eram muitos inimigos! O rei e o povo ficaram desesperados e buscaram a Deus. Então, "veio o Espírito do Senhor no meio da congregação (...) e disse: Dai ouvidos, todo o Judá e vós, moradores de Jerusalém, e tu, ó rei Josafá, ao que vos diz o Senhor. Não temais, nem vos assusteis por causa desta grande multidão, pois a peleja não é vossa, mas de Deus. Amanhã, descereis contra eles; eis que sobem pela ladeira de Ziz; encontrá-los-eis no fim do vale, defronte do deserto de Jeruel. Neste encontro, não tereis de pelejar; tomai posição, ficai parados e vede o salvamento que o Senhor vos dará, ó Judá e Jerusalém. Não temais, nem vos assusteis; amanhã, saí-lhes ao encontro, porque o Senhor é convosco" (2 Crônicas 20.14-17). Todos se prostraram e adoraram a Deus. Josafá ordenou cantores (!) para ficarem à frente do exército, e cantaram: "Rendei graças ao Senhor, porque a sua misericórdia dura para sempre". Os inimigos foram destruídos sem Judá desembainhar uma só espada! Eles obedeceram a palavra de Deus e venceram a batalha parados, em descanso, apenas entoando louvores.

Note que em ambas as situações houve ação, mas não do jeito humano de fazer as coisas, não segundo a tradição, não porque era necessário fazer algo. O descanso é uma forma de agir diferente: rendemo-nos ao Senhor e a Sua vontade, deixamos sobre Ele nossa ansiedade, subjugamos nossa independência e autossuficiência, paramos tudo até vermos o Seu agir em nosso favor. Quantos de nós apenas precisam disso para dar ordem às suas vidas! Quantas igrejas agora mesmo não passariam por uma revolução de fé se cancelassem compromissos e eventos que só cansam o povo, reproduzindo práticas sem a vida de Deus. Se cada igreja na cidade parasse tudo e se voltasse para Deus até ouvir Dele o que fazer... como as coisas seriam diferentes!

Como precisamos descansar e contemplar o Senhor! Isso muda tudo!

Davi entoou um cântico ao Senhor, no dia em que fora livre de todos os seus inimigos e da mão de Saul. Isso está registrado em 2 Samuel 22 e no Salmo 18. No começo, Davi destaca: "Eu te amo, ó Senhor, minha força. O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo, em quem me refugio; o meu escudo, a força da minha salvação e a minha torre de proteção. Invoco o Senhor que é digno de louvor, e sou salvo dos meus inimigos" (Salmo 18.1-3). Depois disso, o texto muda. Abre-se um cenário extraordinário:
Então a terra se abalou e tremeu, e os fundamentos dos montes também se moveram e se abalaram, porque ele se indignou.
Das suas narinas subiu fumaça, e da sua boca saiu fogo devorador; brasas ardentes saíram dele.
Ele abaixou os céus e desceu; havia trevas espessas debaixo de seus pés.
Montou num querubim e voou; sim, voou sobre as asas do vento.
Fez das trevas seu retiro secreto; a escuridão das águas e as espessas nuvens do céu eram o pavilhão que o cercava.
Pelo resplendor da sua presença as espessas nuvens se desfizeram em granizo e brasas de fogo.
O SENHOR trovejou nos céus, o Altíssimo fez soar sua voz, e houve granizo e brasas de fogo.
Lançou suas flechas e os dispersou; multiplicou os raios e os aterrorizou.
Então, SENHOR, pela tua repreensão, ao sopro do vento das tuas narinas, foram vistos os leitos das águas, descobertos os fundamentos do mundo.
Do alto ele estendeu o braço e me pegou; tirou-me das águas profundas.
Livrou-me do inimigo forte e dos que me odiavam, pois eram mais poderosos do que eu.
Eles me surpreenderam no dia da minha calamidade, mas o SENHOR foi o meu amparo.
Trouxe-me para um lugar amplo; livrou-me, porque se agradou de mim (v.7-19).
Davi só pôde descrever tudo isso porque conhecia o lugar de descanso em Deus. Mesmo em fuga de Saul, sem ter um lugar para se estabelecer... Mesmo já tendo sido ungido rei, porém ainda na fase de esperar a sua hora... Mesmo com todas as suas falhas e dificuldades pessoais... Davi conhecia a quem servia. Ele entendeu que sua parte era descansar no Senhor: "Esperei com paciência (confiantemente) pelo Senhor, Ele se inclinou (se abaixou) para mim e ouviu (escutou atentamente) meu clamor. Tirou-me de um poço de destruição, de um lamaçal (algo como um "alvoroço pegajoso"); colocou meus pés sobre uma rocha, firmou (tornou estável) meus passos. Pôs na minha boca um cântico novo, um hino ao nosso Deus. Muitos verão isso, temerão e confiarão no Senhor" (Salmo 40.1-3).

Como Josué e Josafá, Davi deixou um testemunho poderoso de que fé é obedecer e descansar, agindo somente em função do que via em Deus e o que ouvia Dele. Jesus fazia exatamente isso (João 5.19,30). Os apóstolos aprenderam com Jesus e também encontraram esse nível de confiança e sensibilidade no Senhor. Nós também devemos aprender e fazer o mesmo.

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