terça-feira, 6 de setembro de 2016

O Deus Criador e a criatividade humana - parte 2

Luciano Motta

No artigo anterior, vimos como a Criação é tão assombrosamente boa, porque Deus é bom. Fomos criados à imagem e semelhança do Pai, do Filho e do Espírito Santo e carregamos conosco a mesma força criativa de Elohim. Finalizamos com uma questão: muitas vezes esperamos que Deus faça o que, na verdade, Ele está esperando de nós! O Criador é Ele! O Senhor da nossa vida é Ele! O que temos feito com nosso potencial criativo?

Uma parceria criativa com Deus

O mundo foi criado para que o homem não apenas desfrutasse de tudo, mas também sujeitasse tudo, dominasse tudo. Esta foi a ordem divina para a humanidade: "E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra. E disse Deus ainda: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento. E a todos os animais da terra, e a todas as aves dos céus, e a todos os répteis da terra, em que há fôlego de vida, toda erva verde lhes será para mantimento. E assim se fez" (Gênesis 1.28-30).

Fica claro que o mundo seria administrado pelo homem. Diz o salmista: "Os céus são os céus do Senhor, mas a terra, deu-a ele aos filhos dos homens" (Salmo 115.16). Sim, a terra sempre foi nossa responsabilidade. Devemos zelar por ela. Os cristãos não devem se afastar das discussões em torno do cuidado do meio ambiente... (deixemos essa questão para outro momento)

Nos dias subsequentes à Criação, Deus planta "um jardim no Éden, na direção do Oriente" e põe nele "o homem que havia formado. (...) Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar" (Gênesis 2.8,15). Do vasto mundo criado, uma pequena parte é separada para o homem começar a sujeitar, a dominar e a desfrutar da terra. Nesse lugar, na "viração do dia", o próprio Deus vinha pessoalmente se encontrar com Adão e Eva e ter um relacionamento com eles (Gênesis 3.8). O cuidado da terra seria uma responsabilidade do homem, mas ele não estaria só, nem faria tudo sozinho – o próprio Deus o acompanharia.

Um jardim é um ambiente planejado, organizado, cultivado. A vontade de Deus era, portanto, o estabelecimento de uma CULTURA que se expandiria por todo o planeta, a cultura do Éden, baseada na harmoniosa interação Deus–Homem–Criação. O homem continuaria a se desenvolver, produzindo e (re)criando a partir da obra já iniciada no gênesis, colhendo muitos frutos de suas intervenções na terra (intervenções "sustentáveis", para usar um termo atual), tendo sempre a companhia do Criador.

Isso evidencia uma parceria criativa com Deus. Note que Ele confia ao homem os nomes dos animais: "Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles. Deu nome o homem a todos os animais domésticos, às aves dos céus e a todos os animais selváticos..." (Gênesis 2.19-20). O Deus Onisciente, Onipotente, chama para perto a mais especial de todas as criaturas, o homem – porém, ainda assim, simples criatura –, e estabelece com ele um relacionamento de amor e cumplicidade, uma AMIZADE, a ponto de incluir Sua criatura na organização do mundo recém-criado. Isso é extraordinário!

A queda

O pecado entrou no mundo. O jardim era para ser cuidado e guardado, mas essa última ação foi desprezada por Adão de alguma forma, de modo que a serpente (satanás), "mais sagaz que todos os animais selváticos que o Senhor Deus tinha feito" (Gênesis 3.1), conseguiu enganar a mulher, induzindo Adão e Eva a comerem o fruto proibido. As consequências do pecado foram terríveis, desencadeando uma série de dores e inimizades: entre a serpente e os outros animais; entre a serpente e a mulher; entre a mulher e o momento de dar à luz filhos; entre o marido e a mulher; entre o homem e a terra (por extensão, todo o mundo criado se voltou contra o homem). A maior inimizade se deu entre o homem e o Criador: Adão e Eva foram expulsos do jardim do Éden e separados do relacionamento pessoal e íntimo com Deus (confira todo o relato da queda em Gênesis 3).

O drama humano na terra tem continuidade: na primeira família ocorre o primeiro homicídio. O filho assassino é banido – é a primeira separação entre pais e filhos. A história prossegue. A corrupção só aumenta e parece não haver limites para o pecado. Vamos avançar: chegamos ao século XXI. A iniquidade segue se multiplicando. A Criação sofre com a exploração da terra feita por pessoas gananciosas e presunçosas, cada vez mais afastadas de Deus. São tempos difíceis. O fim está às portas (confira Mateus 24 e 2 Timóteo 3).

Criatividade maculada

Em todo esse processo de dores e inimizades, de degradação e queda pelo pecado, o homem nunca perdeu sua capacidade criativa. Ela foi maculada, é verdade, mas não revogada! A humanidade continuou (e continua) criando e expandindo conhecimento, descobrindo novas e revolucionárias possibilidades de interação com o mundo à sua volta. É inegável o avanço das tecnologias e da ciência.

Entretanto, no que tange à subjetividade, que é uma expressão da identidade, do SER humano, as pessoas estão cada vez mais vazias, egoístas; os relacionamentos são frágeis e efêmeros. Há um claro esgotamento nas várias atividades artísticas e na cultura. Nas artes plásticas, por exemplo, abstração e fragmentação tornaram-se a regra, com imagens distorcidas e obscuras, esvaziadas de embelezamento. Aliás, o próprio conceito de beleza hoje é distorcido, relativizado. A decadência contemporânea afasta a humanidade Daquele que é Belo e Santo, Aquele cuja beleza é fora do comum.

O homem caído não quer parceria com Deus, quer independência. Usa seu potencial criativo como instrumento para demarcar sua rebelião e sua inimizade. As Escrituras mostram isso em pelo menos dois episódios:

→ Gênesis 11 relata um empreendimento incomparável: uma grande cidade, com uma torre tão alta que podia tocar os céus. Aquelas pessoas sem Deus preferiram tijolos a pedras, ou seja, desenvolveram uma nova tecnologia em edificações. Estavam tão afastados de Deus que queriam permanecer na planície de Sinar em vez de obedecerem à ordem divina de se multiplicarem e encherem a terra – eles queriam, em essência, estabelecer uma cultura totalmente independente da cultura do Éden.

→ Êxodo 32 evidencia como o povo de Israel estava apartado de Deus, apesar de ter sido liberto do cativeiro no Egito de forma extraordinária e, naquele momento, estar sendo guiado pelo próprio Deus no deserto (uma coluna de nuvem de dia e uma coluna de fogo à noite). Diz o texto que Moisés demorava para descer do monte Sinai (detalhe: aquele monte fumegava ao som aterrador de relâmpagos e trovões, semelhante a um vulcão em erupção... Sim, Deus havia repousado sobre aquele monte e Sua presença era visível e assustadora!). Então, cercaram Arão e pediram a ele: "Levanta-te, faze-nos deuses que vão adiante de nós". Com o ouro das argolas das mulheres, o sacerdote criou uma obra de arte: um bezerro fundido de ouro, trabalhado com um buril (instrumento de ponta de aço para trabalhos de gravura). Uma estátua, artisticamente talhada por aquele que deveria dar o exemplo de submissão a Deus, torna-se um (falso) substituto do próprio Deus. O povo chega ao absurdo de declarar: "São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito".

A criatividade, separada de uma parceria com Deus, pode aparentemente conduzir o homem a superar limites, pode resultar em novos e grandes empreendimentos, mas no fim haverá desordem, caos, morte. Há caminho (estrada, direção, hábito) que ao homem parece direito (correto, bom), mas sua conclusão dá em um caminho de morte (Provérbios 14.12). O salário (o pagamento, a consequência) do pecado é a morte (Romanos 6.23). A cidade em Gênesis 11 ficou conhecida como "Babel", uma palavra que em hebraico soa parecido com “atrapalhar” ou “confusão”. A linguagem foi confundida e aquelas pessoas, por não se entenderem mais, foram espalhadas pela terra. O bezerro de ouro em Êxodo 32 provocou a ira de Deus e muitos israelitas morreram.

Um sopro de esperança

Não devemos "demonizar" tudo o que o homem criou desde a queda no Éden. Esse texto que você lê agora foi escrito e publicado com ferramentas tecnológicas criadas e aprimoradas ao longo do tempo, valendo-se de uma linguagem (o português) que deriva de outra (o latim), que tem origem em outra. A própria gramática da língua portuguesa já evoluiu de usos e modos arcaicos para uma comunicação mais adequada ao falar e ao escrever contemporâneos. Poderíamos mencionar aqui os avançadíssimos meios de comunicação, os procedimentos cirúrgicos, as mais variadas obras arquitetônicas, as múltiplas expressões artísticas...

Tudo isso prova que o homem não foi completamente esvaziado das virtudes de Deus. Apesar da queda e do muro de inimizade erguido pelo pecado, ainda "somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas" (Efésios 2.10). Originalmente fomos criados para boas obras. Se é fato que o homem sem Deus não quer parceria, vemos ao longo da história que o próprio Deus sempre trabalhou contra isso. De forma impressionantemente criativa, Ele interviu na história, transformando o mal em bem. Ele entrou na história.

Continua...

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