terça-feira, 24 de junho de 2014

O engano da unidade pela tolerância

Luciano Motta

{ Esta reflexão é uma continuação do artigo Babel, linguagem e unidade – é fundamental, portanto, a sua leitura antes de prosseguir. }

Apesar de bastante conhecida, vale relembrar a história da torre de Babel, em Gênesis 11. Naquele tempo, a terra tinha uma só maneira de falar. Os homens decidiram ir para o oriente e então acharam um vale na terra de Sinar (que significa "país de dois rios", ou seja, uma terra de duas fontes, um claro indício de divisão). Eles não queriam construir apenas uma torre, mas uma cidade e um nome que seriam conhecidos no mundo inteiro, para que não fossem espalhados pela face da terra (o que afronta a ordem de Deus de multiplicar e encher a terra, algo que implica movimento, não compatível com permanecer em um só lugar). O Senhor veio sobre eles, confundiu-lhes a linguagem e os espalhou, e pararam de edificar a cidade.

Enquanto edificavam a cidade em Sinar, diz a Bíblia que o povo de Babel preferiu tijolos a pedras, o que representa o desejo humano de unidade pela tolerância. Tijolos são moldáveis e podem assumir a forma que seus construtores quiserem. Trata-se do mesmo espírito de conformidade e tolerância que se enraíza cada vez mais em nossa sociedade, uma mentalidade que promove aceitação de diferenças, consentimento quanto à conduta dos outros, mesmo que fira os padrões bíblicos de santidade e temor a Deus. E que cada um faça o que é reto a seus próprios olhos, como nos tempos dos Juízes, em que não havia rei sobre Israel (leia Juízes 17:6).

Um exemplo de como esse espírito ganha espaço até mesmo na igreja é a forma como tratamos a falta de unidade entre nós. Na verdade, nós toleramos a desunião e a falta de comunhão por causa de nossas "construções particulares", como estava fazendo o povo de Babel. Edificamos com tijolos quando usamos uma expressão bonita (e deslocada de seu real significado) para justificarmos as divisões e as separações entre nós: “multiforme graça de Deus”. Embora seja verdade a existência de diferentes expressões no Corpo de Cristo, o problema reside no fato de diversas igrejas e denominações estarem sendo seduzidas pelo espírito da cidade ao edificarem algo para si mesmas – cada um buscando o que é seu, não o que é de Cristo (Filipenses 2.21). Temos considerado isso algo “normal”. Mas seria possível sermos divididos na terra e unidos no céu?

Paulo exorta os crentes coríntios: “Porque tenho ciúme de vós, e esse ciúme vem de Deus, pois vos prometi em casamento a um único marido, que é Cristo, para vos apresentar a ele como virgem pura. Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com sua astúcia, também a vossa mente seja de alguma forma seduzida e se afaste da simplicidade e da pureza que há em Cristo. Porque, se chega alguém e vos prega outro Jesus que não pregamos, ou se recebeis outro Espírito, que não aquele que recebestes, ou outro evangelho que não acolhestes, vós de boa vontade o suportais” (2 Coríntios 11.2-4). Esse trecho final, em outra versão, afirma: "vós de boa mente o tolerais". De fato, o que mais se vê em nossos dias é a tolerância para com "evangelhos estranhos" e um "espírito estranho" ao que reconhecemos nas Escrituras. Prevalece, como em Sinar, a existência de "dois rios" ou "duas fontes" em nosso meio.

Cristo adverte a igreja de Tiatira: “Conheço tuas obras, teu amor, tua fé, teu serviço e tua perseverança. Sei que tuas últimas obras são mais numerosas que as primeiras. Mas tenho contra ti que toleras Jezabel, mulher que se diz profetisa; ela ensina e seduz meus servos a se prostituírem e a comerem das coisas sacrificadas a ídolos” (Apocalipse 2.19-20). Não é possível que a igreja seja uma virgem pura para Cristo enquanto for ensinada e seduzida por Jezabel e pela forma de pensar da Babilônia, contaminando suas obras, seu amor, sua fé, seu serviço e sua perseverança. Pessoas cheias do Espírito Santo não vivem conforme o espírito da cidade!

No Reino de Deus, a unidade se fundamenta na Rocha: Cristo. Ele é a Pedra Angular, a Pedra Viva rejeitada pelos homens, mas eleita e preciosa para Deus. Edificados Nele, somos pedras vivas, uma casa espiritual, um sacerdócio santo que oferece sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus, por meio de Jesus Cristo (1 Pedro 2.4-9).

Enquanto tijolos são moldáveis, pedras são difíceis de serem encaixadas como um bloco consistente e conjunto. Nós somos essas pedras: temos vontades próprias, personalidades, temperamentos. Pedras são lapidadas, polidas: somos colocados uns sobre os outros (Corpo de Cristo). Às vezes dói se encaixar com determinado irmão, ou “estar debaixo”. O espírito da cidade não se submete, pois quer estar sempre “por cima”. Mas nós não somos assim. Nossa postura não deve ser de tolerância, mas de submissão em amor, de suportar uns aos outros em amor, de considerarmos os outros superiores a nós mesmos. Não podemos mais abrir mão da sã doutrina, dos pilares da nossa fé, em nome de uma suposta "unidade cristã" ou "evangélica" só porque temos valores cristãos, e por causa disso deixarmos de combater os desvios, as misturas, os sofismas que estão invadindo as igrejas e gerando confusão e mais divisões, pela falta de conhecimento de Deus.

Um instrumento poderoso para que haja unidade entre nós é a oração. O altar é feito de pedras – é urgente, portanto, reparar o altar coletivo da oração e o sacerdócio de todos os santos. Para termos uma só linguagem e um só modo de falar, precisamos nos unir em oração uns pelos outros, pelas cidades e nações. A partir da devoção pessoal e individual, haverá unidade de espírito entre nós. Sem a oração, sem entrarmos no Conselho do Senhor (Jeremias 23.16-22), como saberemos o que Ele quer para nós individualmente e coletivamente?

Não podemos mais tolerar as divisões no Corpo de Cristo – O mundo conhece e crê em Jesus pela unidade da igreja. Se Jesus orou para que fôssemos "perfeitos em unidade" (João 17.22-26), também precisamos orar intensamente por isso até ser uma realidade entre nós. Caia a sedução de Babel de nos unirmos sem o Senhor! Que venha o Reino de Deus, o Reino edificado em Cristo, formado de pedras que vivem para Ele e pela causa Dele!

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