domingo, 1 de junho de 2014

O resgate da honra - parte final

Luciano Motta

Encerro esta série de artigos, indicando algumas ações pontuais que podem redimir a honra de ser apenas uma palavra bonita e cristã, porém fora da nossa realidade prática (se você ainda não leu os textos anteriores, comece agora mesmo pela primeira parte). É óbvio que este assunto não se esgota aqui, mas podemos progredir e avançar muito em nossos relacionamentos com Deus e uns com os outros se...

1- Alinharmos a devoção pessoal e coletiva: Como anda nosso coração com relação ao Primeiro Mandamento, de amar ao Senhor sobre todas as coisas? Estamos dedicando tempo para Ele ou temos sido consumidos pelas rotinas de trabalho, estudos, deveres domésticos, familiares e até ministeriais? Deus é Digno de ser honrado com um tempo diário só para Ele. É no mínimo estranho pensar em devoção sem um lugar e um horário bem definidos. Podemos, por exemplo, passar um dia inteiro pensando na pessoa que amamos  mas nada substitui o encontro. Deus anseia que nos encontremos com Ele. Vamos retribuir, portanto, ao Seu amor por nós com um tempo de qualidade, estabelecendo lugar e horário fixos para estarmos diante Dele todos os dias.

Além disso, Cristo precisa ser de novo centralizado em nossos cultos e reuniões. Ele merece ser adorado de fato e de verdade. Isso vai na contramão do tipo de "culto" que se vê comumente nas igrejas de hoje, onde o foco predominante está nas necessidades humanas e na expectativa de receber e não de dar. "O Cordeiro que foi morto é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e o louvor" (Apocalipse 5.12). O Pai deseja "que todos honrem o Filho, assim como honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou" (João 5.23).

2- Cultivarmos uma vida de ações de graças: A atitude de gratidão para com Deus e para com as pessoas à nossa volta é inseparável da honra. Em dias de ansiedade, preocupações e grande estresse, muita gente vive reclamando, desprezando até mesmo um simples "obrigado" depois de receberem algo ou de serem servidos por alguém. No episódio da cura dos dez leprosos, Jesus valorizou o único que retornou para agradecer a cura recebida (Lucas 17.12-19). Antes de operar o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, Jesus deu graças ao Pai (João 6.1-13). Encontramos nas epístolas de Paulo várias instruções para que cresçamos em ações de graças em tudo, até mesmo nas dificuldades (Colossenses 2.7, Filipenses 4.6, 1 Timóteo 2.1).

3- Zelarmos pelo casamento e pela família: A Bíblia compara o relacionamento entre o homem e a mulher ao relacionamento entre o Noivo (Cristo) e a Noiva (a Igreja). A esposa deve se submeter ao seu marido como a Igreja está sujeita a Cristo. Já o marido deve amar sua mulher como "Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela, a fim de santificá-la, tendo-a purificado com o lavar da água, pela palavra, para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e irrepreensível" (Efésios 5.22-33). A fidelidade no casamento, nutrido por um amor sem mácula, honra a vontade de Deus para a família: "Digno de honra entre todos seja o matrimônio e a pureza do leito conjugal; pois Deus julgará os imorais e adúlteros" (Hebreus 13.4).

4- Celebrarmos pais e filhos: A honra é um dos instrumentos que promovem a conversão de pais aos filhos e de filhos aos pais. Pequenos gestos como dar presentes (fora os aniversários e as "datas especiais"), sentar para conversar (ouvir mais do que falar), sair para um simples passeio (não precisa ser algo dispendioso) ou enaltecer as conquistas dos seus pais (ou dos seus filhos) fazem uma grande diferença nos relacionamentos familiares. Vimos na segunda parte desta série de artigos que honrar e obedecer aos nossos pais independem da forma como eles nos trataram  ou ainda nos tratam. E os filhos também devem ser estimados e encorajados pelos pais. Tudo isso é "agradável ao Senhor" (Colossenses 3.20-21).

5- Valorizarmos aqueles que nos lideram e quem lideramos: As mesmas ações acima, aplicáveis aos pais naturais, devem ser reproduzidas na maneira como tratamos nossos líderes e pais espirituais. Eles zelam por nossas vidas e merecem honra, respeito e estima. Como vimos nas Escrituras, "os presbíteros que governam bem devem ser dignos de honra em dobro, principalmente os que trabalham na pregação e no ensino" (1 Timóteo 5.17). Repare na ênfase: "que governam bem". Infelizmente, essa não é a realidade em muitas igrejas. Muitos líderes administram mal suas congregações, cuidam mal de suas famílias, tratam mal aqueles que lideram, enfim, estão desqualificados para liderar  e ainda exigem, manipulam, exploram as pessoas. Por outro lado, há "ovelhas" que atrapalham e até perseguem seus pastores, indo na contramão do que exorta a Palavra: "Obedecei a vossos líderes, sendo-lhes submissos, pois eles estão cuidando de vós, como quem há de prestar contas; para que o façam com alegria e não gemendo, pois isso não vos seria útil" (Hebreus 13.17). A honra é fundamental para frear o aumento do número de pessoas feridas com a igreja por causa de maus líderes e de maus discípulos.

6- Servirmos mais e melhor: Uma das maiores expressões de quanto valorizamos alguém se observa no quanto servimos a esse alguém. Jesus demonstrou isso com a própria vida, em inúmeras ocasiões. Além da morte na cruz, um dos maiores exemplos que Ele nos deixou foi quando lavou os pés dos discípulos. O costume de lavar os pés existia no Oriente desde tempos remotos e era um sinal de hospitalidade, devido as estradas poeirentas, o tipo de calçados usados, geralmente sandálias, e o clima muito quente. Quando um hóspede chegava, seus pés eram lavados por um escravo na entrada da residência. Na ausência deste, um membro da família de menor influência fazia isso, porém nunca era realizado pelo de maior honra. Em atitudes como essa, esvaziando-se de sua posição sublime e divina para servir, Jesus ensinou pelo exemplo, apontando como os valores do Reino de Deus são diferentes do mundo e como eles devem nortear nossas ações.

Assim exortou Pedro: "Antes de tudo, tende profundo amor uns para com os outros, porque o amor cobre um grande número de pecados. Sede hospitaleiros uns para com os outros, sem vos queixar. Servi uns aos outros conforme o dom que cada um recebeu, como bons administradores da multiforme graça de Deus. Se alguém fala, fale como quem comunica as palavras de Deus; se alguém serve, sirva segundo a força que Deus concede, para que em tudo Deus seja glorificado por meio de Jesus Cristo, a quem pertencem a glória e o domínio para todo o sempre. Amém" (1 Pedro 4.8-11). Paulo ilustrou o perfil de um obreiro aprovado: "Ora, numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra" (2 Timóteo 2.20). Temos sido instrumentos para propósitos elevados ou estamos desqualificados?

7- Considerarmos os diferentes dons e as diferentes ênfases ministeriais no Corpo de Cristo: Não é incomum que alguns ministérios acabem tomando uma proporção maior do que outros nas igrejas (e há muitas explicações para isso, principalmente por causa do perfil e do chamado dos líderes). E isso também ocorre com os dons espirituais. Em algumas congregações, a ênfase está no profético; já em outras, no evangelismo. Existem lugares que primam pela justiça social, enquanto outros se voltam mais para o ensino. O desequilíbrio maior se observa na valorização de certas ênfases e dons em detrimento de outros, o que é agravado quando se promove mais o nome de homens do que o próprio nome de Jesus. É preciso que as partes cooperem umas com as outras: os mais maduros e experientes auxiliem os mais novos e os ministérios mais desenvolvidos deem espaço para aqueles que estão começando a se desenvolver.

Como dizem as Escrituras, somos "muitos membros, mas um só corpo. Não podem os olhos dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça pode dizer aos pés: Não tenho necessidade de vós. Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos são essenciais; e os membros do corpo que consideramos menos honrados, nós os vestimos com mais honra. E os que em nós são vergonhosos vestimos com dignidade especial, ao passo que os membros mais apresentáveis não têm necessidade disso. Mas Deus formou o corpo de tal maneira que concedeu muito mais honra ao que tinha falta dela, para que não haja divisão no corpo, mas para que os membros tenham igual cuidado uns pelos outros. Se um membro sofre, todos os outros sofrem com ele; e, se um membro é honrado, todos os outros se alegram com ele" (1 Coríntios 12.20-26).

8- Praticarmos a generosidade: Um bom parâmetro para sabermos onde está nosso coração é o modo como lidamos com o dinheiro. É bem verdade que há muitos abusos hoje em dia ao se tratar de dízimos e ofertas, mas não podemos ser negligentes com o que a Palavra diz sobre essas ordenanças. Deus continua sendo o primeiro a quem devemos honrar com nosso dinheiro e bens: "Honra o Senhor com teus bens e com as primícias de toda a tua renda; assim os teus celeiros se encherão com fartura, e os teus lagares transbordarão de vinho" (Provérbios 3.9-10).

Dízimos e ofertas ainda valem para hoje. Cristo não veio para abolir a Lei (Mateus 5.17). No Sermão do Monte, apesar de não falar diretamente sobre “dízimo”, como o fez com “adultério” e “amar os inimigos”, Jesus tratou da questão financeira bem no meio de seu discurso – não devemos nos preocupar com o comer, o beber e o vestir, pois se buscarmos primeiro o Reino de Deus e a Sua Justiça, todas as essas coisas nos serão acrescentadas (Mateus 6.33). Há também outros textos sobre esse assunto, como quando Jesus falou: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, se referindo ao dever de pagar os impostos e dar o que é do Senhor (Mateus 22.15-22). Em outra ocasião, Jesus ficou observando como as pessoas ofertavam – Ele ressaltou a oferta da viúva pobre (duas moedinhas!) em detrimento das ofertas dos ricos, porque ela deu “tudo o que possuía” e os outros deram “do que lhes sobrava” (Marcos 12.41-44). Jesus confrontou os religiosos porque davam o dízimo da hortelã, da arruda e das hortaliças, mas desprezavam a justiça e o amor de Deus. Só que Ele frisou: devem fazer estas coisas sem omitir aquelas (Lucas 11.42).

Um episódio muito importante se deu quando Maria tomou um frasco de bálsamo de nardo puro, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os cabelos (João 12.1-11). A casa se encheu com o perfume do bálsamo, que custava um ano de salário. Os discípulos não entenderam por que gastar tanto para que Cristo recebesse adoração. Mas Jesus fez uma promessa àquela mulher: esta história seria conhecida em todo lugar onde o evangelho fosse pregado (Mateus 26.13). O que fazemos com nosso dinheiro pode produzir um memorial diante do Senhor e da humanidade. Tanto quanto o que cantamos ou o que ministramos e fazemos em nome Dele, nossa generosidade na hora de contribuir sobe a Ele como adoração e ações de graças.

A prática de contribuir financeiramente era estimulada entre os primeiros cristãos (leia, por exemplo, Atos 2.44-45, 4.32-37; 1 Coríntios 16.1-3 e 2 Corintios 9). Eles eram generosos nas doações, sempre contribuindo, repartindo, não permitindo necessitados, órfãos ou viúvas desamparadas. Tratava-se de uma comunidade de fé que confiava tudo ao Senhor, que realmente buscava primeiro o Reino de Deus e a Sua Justiça. Isso deve ser resgatado nos nossos dias, pois promove a honra entre nós e glorifica a Deus.

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Reconheço que há outras ações capazes de desenvolver a honra entre nós. Seria muito oportuno se aqueles que ensinam se debruçassem sobre este tema e repassassem aos irmãos, em suas congregações, cada aspecto trabalhado nesses artigos, tendo como fundamento maior cada texto bíblico citado. Seja como for, não tenho dúvidas de que a honra se constitui um dos instrumentos da graça de Deus mais necessários em nossos dias, para quebrar a falta de perdão, a divisão, os partidarismos, a autossuficiência, o desamor que se alastram pelo mundo e se entranharam na igreja.

Tudo começa quando honramos a Deus com o Primeiro Mandamento  este deve ser verdadeiramente nosso primeiro e maior alvo.

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