terça-feira, 5 de agosto de 2014

O clamor da humanidade por ordem

Luciano Motta

O sábio Salomão estava certo: "O que foi será, e o que se fez, se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol. Será que existe alguma coisa da qual se possa dizer: Vê! Isto é novo? Não! Já existiu em épocas anteriores à nossa" (Eclesiastes 1.9-10). Não existe nada novo. A vida é um ciclo. Somos hoje só um pouco diferentes dos primeiros homens que viveram na terra. Anseios, motivações, vazios, conflitos, alegrias, criatividade, realizações - tudo vem passando por atualizações, é verdade, mas em essência somos os mesmos, não importa a geração. A grande novidade do momento é certamente um tipo de retorno ao passado. A arte e a moda vintage, ou retrô, ou kitsch, reforçam a reciclagem, o pastiche e a releitura que acompanham as eras.

Na vida individual e em sociedade, ciclos de aparente ordem e intensa crise se sucedem desde que o homem e a mulher se apartaram de Deus no Éden. Podemos ver isso acontecer em todas as áreas: ora estamos empregados com tudo dando certo, ora temos portas fechadas e falta de dinheiro; alternamos fases de harmonia e desentendimentos nos relacionamentos; oscilamos entre realização pessoal e um enorme vazio. Exatamente como no passado, Adão e Eva buscando o conhecimento do bem e do mal longe de Deus, a humanidade sempre tentou encontrar um ponto de equilíbrio para sua existência, porém separada do Criador. A presunção de "reinventar a roda" move o coração das pessoas de tempos em tempos, para só retornarem ao mesmo ponto de insatisfação e incompletude.

A arte é um bom exemplo de como esses ciclos acontecem. Depois da renovação social, cultural, artística, literária, científica e econômica que se processou na Europa nos séculos XV-XVI, conhecida como Renascimento, houve uma redescoberta da civilização da antiguidade clássica greco-romana e um anseio por ordem e pelo rompimento das trevas que obscureceram a humanidade durante a Idade Média. Essa renovação marcou o começo da chamada Idade Moderna, ou simplesmente Modernidade. As grandes navegações e o contato com outros povos e culturas colocaram em cheque o pensamento medieval. O europeu saiu finalmente de seu "mundinho" estático, centrado na religiosidade católica, para novas aspirações. Deixou de acreditar que o conhecimento da "verdade" dependia da revelação de Deus - agora dependia do próprio homem conquistá-la. Então, por que ele deveria se preocupar com o que viria após a morte? "Carpe diem!" - aproveite o dia, desfrute do momento presente, busque os prazeres da vida, afinal, você é a figura central da existência e não precisa de Deus nem da religião.

Alguns anos se passaram, e o homem entrou em nova crise. Aquele mundo interior aparentemente em ordem, resolvido consigo mesmo, tornou-se um caldeirão de contradições e paradoxos. O período Barroco, nos séculos XVI-XVII, ficou marcado pelos embates: Santo x Profano, Luz x Sombra, Vida x Morte. A pintura e a poesia retratavam obras de artistas em conflito: Seria melhor voltarmos ao que éramos antes das ideias renascentistas e nos submetermos a uma vida sacra? Ou vamos seguir aproveitando o que a carne e o mundo material têm de melhor a nos oferecer?

Dessa crise, emergiu no século XVIII um movimento de retorno aos ideais clássicos de ordem e progresso: o Iluminismo. Passou a vigorar uma forte confiança na capacidade do homem em promover os avanços sociais, sendo a razão o principal meio para o bem-estar coletivo. A Enciclopédia e a Declaração dos Direitos do Homem foram empreendimentos desse pensamento focado em organizar a vida e o conhecimento. O racionalismo e o cientificismo eram soberanos no chamado período Neoclássico, também conhecido como Arcadismo. Simetria, serenidade e clareza tornaram-se o padrão artístico por algum tempo.

Mas não demorou muito para que, no final do século XVIII, a humanidade entrasse em crise novamente. O progresso era bom, mas requeria um preço. Diversas revoluções políticas eclodiam em toda a Europa e até nos EUA. O que se poderia fazer então? Fugir para a natureza e encontrar nela um abrigo para tantos conflitos, ou ter a morte como única saída possível. Durante o Romantismo, os sentimentos eram exacerbados, a razão ficou de lado. A imaginação e a idealização permitiam certo escape de tanto pessimismo e falta de perspectiva. Muitos mergulharam no "eu" e só encontraram mais angústia e dor existencial. A visão da vida havia se tornado nebulosa, obscura.

"O que foi será, e o que se fez, se fará novamente". Outra vez ocorreu uma guinada no modo de pensar. A partir da segunda metade do século XIX, houve maior preocupação com a realidade objetiva, focalizando as mazelas sociais e a decadência da sociedade burguesa. A Revolução Industrial deixou muitas famílias sem sustento, gerando pobreza e desordem  no campo e nas cidades. O Realismo procurou expor em detalhes esses problemas, retratando também a hipocrisia no seio das famílias e da igreja. Ainda nessa época, novas descobertas no campo da biologia, especialmente as teorias da evolução e da seleção natural de Charles Darwin, intensificaram o pensamento realista, a ponto do homem ser retratado em muitas obras de forma animalizada, guiado por instintos primitivos. O Naturalismo foi pautado pela tese determinista de que o comportamento dos indivíduos derivava do meio em que estava inserido, além de fatores como raça e contexto histórico.

Praticamente no mesmo período, desencadeava-se uma volta aos clássicos entre os Parnasianos, que objetivaram as formas líricas tradicionais e o preciosismo vocabular. Sem se importarem com a realidade ao redor, produziram obras que valorizavam a estética e a forma - era a "arte pela arte". Por sua vez, os artistas do Simbolismo reagiam ao cientificismo, ao racionalismo e ao naturalismo, com obras notadamente marcadas pelo subjetivismo e pelo pessimismo, vívidos durante o Romantismo. O pensamento simbolista supunha a existência de dois mundos: um ligado às aparências e o outro, às essências, tal qual os pressupostos platônicos. Espiritualidade e misticismo moviam a alma desses artistas em seu desejo de transcendência e felicidade possíveis apenas no plano imaterial.

As duas primeiras décadas do século XX foram um período de transição. A Europa vivia sua Belle Époque - um tempo de euforia pelo grande desenvolvimento, pela crescente industrialização, pelos avanços da ciência. Novos campos do conhecimento, como a psicanálise, de Sigmund Freud, e novos pressupostos, como a "morte" de Deus, de Friedrich Nietzsche, fomentaram as chamadas Vanguardas Europeias e seus manifestos por novas maneiras de produzir arte. Tamanha profusão de rupturas e experimentalismos deu origem ao ciclo seguinte: o Modernismo. Foram muitas as gerações modernistas, com suas ênfases e peculiaridades, acentuando em cada década do século passado a fragmentação formal e ideológica, a dessacralização do objeto artístico e também de outros campos do conhecimento humano, o experimentalismo estético, a desconstrução, a intertextualidade, a paródia, o pastiche.

Impulsionados pelas mídias e pelas tecnologias digitais, chegamos ao século XXI: um tempo de profundas ambivalências e ambiguidades nas artes e na cultura em geral. Vivemos uma realidade multifacetada, extremamente acelerada, estressante e consumista, que tende a alocar mais e mais pessoas no ambiente virtual, nutridas por altas doses de entretenimento e distração hedonista (leia-se: baladas, festas, curtição, bebedeiras, drogas, promiscuidade, pornografia). Para muitos, a existência só é possível nas redes sociais e em sites dos mais variados temas e gêneros, mediada por telas LED touch-screen, pois as crises da vida real são severas, dolorosas, intransponíveis.

O cenário atual prefigura um novo e necessário ciclo de ordem, pendente desde as primeiras crises da Modernidade. O homem no centro da existência humana tem se mostrado um retumbante fracasso moral. Os ideais de progresso afundam em um mar de corrupção e injustiça. O carpe diem do presente foi elevado à máxima potência: agora tudo é imediato e instantâneo, gerando relacionamentos descartáveis e prazeres cada vez mais efêmeros. Há um esgotamento que sufoca as pessoas em tédio, enfado e desesperança. Vivemos um tempo de exponencial desordem, em que a humanidade continua a correr atrás de mudanças e novas perspectivas, porém sempre tropeçando em sua própria arrogância e regressando às mesmas lacunas existenciais. Alguns estudiosos tentaram classificar a contemporaneidade como um período Pós-moderno, como se fosse possível nomear algo ainda em curso. Mas não se pode descartar o reconhecimento - ou, pelo menos, o desejo - de um novo momento histórico que se descortina diante dos nossos olhos.

Proliferam-se nos últimos anos, no cinema e na literatura, obras como Jogos Vorazes, Divergente, Planeta dos Macacos, Guerra Mundial Z, que evocam distopias, ou seja, sociedades fictícias ora desoladas por epidemias ou catástrofes, ora regidas por estados totalitários, ditatoriais, nos quais o controle e a manipulação encarceram o homem em um tipo de realidade totalmente contrária às noções de unidade, harmonia e felicidade plenas. Aqueles que tentam resistir enveredam por uma via de enfrentamentos, perdas e morte. Parece que o imaginário coletivo prevê um tempo próximo de grande ruína, em que as liberdades individuais serão suprimidas por um "bem comum", que logo se mostrará uma ilusão; um tempo em que os governos se submeterão a um líder maior e mais capacitado para gerir as causas e as crises das nações. Isso remete aos impérios e seu modus operandi de tirania e opressão.

O que estamos ouvindo, na verdade, são reverberações do clamor desesperado da humanidade por ordem, por algo que organize seu mundo interior, sua alma vazia e faminta por completude e realização, por algo que traga paz e sentido para a vida individual e coletiva. A Bíblia diz que o mundo encontrará em breve o líder que tanto procura, com base em seus preceitos humanistas e hedonistas. Virá o que as Escrituras chamam de Anti-Cristo, com uma falsa paz e uma falsa ordem.

Os homens se submeterão a ele, porém por pouco tempo. Seu governo babilônico de controle e manipulação sucumbirá ante o senhorio Daquele que venceu a morte, o Cordeiro que voltará como Leão e julgará o Anti-Cristo e as nações com base em Sua Justiça e Retidão, fundamentos do Seu Trono. Não será estabelecido um império, mas um Reino de paz que nunca terá fim.

A boa notícia é que somos chamados a reinar com Cristo... Aquele que nos ama e nos libertou dos nossos pecados pelo Seu sangue... Aquele que, com o Seu sangue, comprou para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação, e os constituiu reino e sacerdotes para Deus, e assim reinarão sobre a terra (Apocalipse 1.5-6; 5.9-10). Estamos bem próximos de ver algo inédito acontecer debaixo do sol, algo que o sábio Salomão sequer imaginou: o grande e terrível Dia do Senhor se aproxima, quando a realidade dos céus invadirá e abalará a terra definitivamente.

Então, finalmente, virá a ordem tão esperada: "Então vi um novo céu e uma nova terra. Pois o primeiro céu e a primeira terra já se foram, e o mar já não existe. Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, enfeitada como uma noiva preparada para seu noivo. E ouvi uma forte voz, que vinha do trono e dizia: O tabernáculo de Deus está entre os homens, pois habitará com eles. Eles serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles" (Apocalipse 21.1-3).

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