segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Discipular a cidade - parte 2

Luciano Motta

Recapitulando a primeira parte desta reflexão, afirmamos que nosso chamado é discipular a cidade. É nosso dever apresentarmos Jesus Cristo às pessoas (com a pregação do Evangelho e com nossas vidas), afinal, somos sal e luz (Mateus 5.13-14). Sendo uma obra coletiva, é fundamental desenvolvermos nas congregações da cidade uma cultura de oração, adoração e intercessão, organizando encontros regulares e consistentes que reúnam a igreja em torno da pessoa de Jesus. Também é muito importante equiparmos os membros das igrejas com ensino e conhecimento de Deus e das Escrituras, dando abertura a ministros, mestres e profetas de outras cidades e de igrejas locais — do contrário, teremos uma visão reduzida do que Deus está revelando hoje. Além disso, é mais que necessário o fortalecimento da comunhão entre os irmãos e da parceria entre as igrejas. A unidade do Corpo revela quem é Cristo.

Concluímos, então, com a aplicação da parábola dos talentos em Mateus 25 e como dois dos servos — aqueles que apressadamente investiram no que receberam e dobraram seus talentos — foram reconhecidos pelo Senhor como administradores bons e fiéis e estabelecidos em uma posição elevadíssima: alcançaram a plena satisfação de Cristo e Seu Reino. Agora estudaremos brevemente sobre o servo que recebera apenas um talento e que não teve o mesmo fim dos outros:

Por fim, chegando o que havia recebido um talento, disse: Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não plantaste; então, fiquei com medo e fui esconder na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Mas o seu senhor lhe respondeu: Servo mau e preguiçoso, sabias que colho onde não semeei e recolho onde não plantei? Devias então entregar meu dinheiro aos banqueiros e, ao voltar, eu o teria recebido com juros. Tirai dele o talento e entregai-o ao que tem dez talentos. Pois a todo o que tem, mais lhe será dado, e terá com fartura; mas ao que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. Lançai o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes (Mateus 25.24-30).

Em vez de investir e multiplicar, em vez de seguir o exemplo dos outros dois servos, que foram bem sucedidos, esse "servo inútil" decidiu enterrar o seu talento. Suas atitudes são um severo alerta para a igreja dos últimos dias:

• Foi chamado de mau (desobediente) e preguiçoso (negligente, lento). Isso remete às cinco virgens imprudentes da parábola anterior (Mateus 25.1-13), que gastaram suas reservas e não se movimentaram para comprar azeite enquanto era dia. Ficaram de fora da festa de casamento porque postergaram e não agiram na hora que tinham de agir. Quem não for diligente e deixar para depois o que o Senhor está propondo para esse momento da história, vai perder o que tem e vai ficar de fora das bodas do Cordeiro (Apocalipse 19.7-9).

• O "servo inútil" perdeu a oportunidade de multiplicar seu talento por não recorrer a pessoas mais capacitadas. Podia ter ido aos banqueiros. Podia ter seguido o exemplo dos outros dois servos. Mas não o fez. Quem vive de forma isolada tem o seu crescimento comprometido e desonra o Senhor. Em vez de ficar sozinho, lamentando dificuldades e desacertos, é preciso humildade e submissão àqueles que são mais capacitados e proativos.

• Tinha uma forma de pensar baseada em enganos. Primeiro, valeu-se de um ditado da época para se justificar com o senhor: "eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não plantaste". Jesus já tinha se referido a esse mesmo ditado em outro contexto: "um é o que semeia, outro é o que ceifa" (João 4.37). A moral do ditado aponta o dilema daquele que semeia e não vê o fruto do trabalho. Contudo, Jesus trouxe outra conotação a esse dito popular: no Reino dos céus, não importa tanto quem começou nem quem terminou o trabalho; o que importa é o coração dos trabalhadores e, acima de tudo, que o Pai seja glorificado pela ceifa! Jesus declarou que Seus discípulos foram enviados para ceifarem o que não semearam (João 4.38). Em outras palavras: Os discípulos colheriam a partir da Semente que era o próprio Cristo! E nós, hoje, colhemos a partir do que foi semeado antes de nós — e tudo é para a glória de Deus!

O apóstolo Paulo aplicou esse mesmo entendimento sobre o trabalho de semear e regar:

Eu plantei; Apolo regou; mas foi Deus quem deu o crescimento.
De modo que, nem o que planta nem o que rega são alguma coisa,
mas sim Deus, que dá o crescimento. O que planta e o que rega
trabalham com o mesmo propósito, e cada um receberá sua recompensa
segundo seu trabalho. Porque somos cooperadores de Deus,
e dele sois lavoura e edifício (1 Coríntios 3.6-9).

Quem baseia suas ações de acordo com o pensamento da cidade certamente está fadado a cometer graves equívocos! E aqui encontra-se o segundo engano do servo: ele achava que "sabia" do caráter de seu senhor, mas estava absolutamente errado! O senhor não era um "homem severo", mas justo. O servo agiu conforme os pensamentos que o rodeavam e decidiu mal — como no episódio em que os príncipes de Israel se viram como gafanhotos. Por causa do relatório negativo, o povo se recusou a confiar em Deus e não entrou na terra prometida (Números 13). Também a igreja de Laodiceia via-se de maneira enganosa e recebeu dura reprimenda do Senhor: "Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu" (Apocalipse 3.16-17). Arrogância e mediocridade são marcas de quem é "morno". Infelizmente, a cidade está cheia de pessoas e igrejas assim.

Jesus não agia conforme o espírito da cidade, mas conforme o Espírito Santo! Como pensa a cidade? O que fazem as pessoas que moram aqui quando há uma crise? Qual tem sido a prioridade delas? Basta ver como vivem para perceber que desconhecem a verdade. Andam pelo que veem, não pela fé. A igreja não pode ser assim. Não podemos ter uma visão de Deus e do Evangelho que não corresponda ao que dizem as Escrituras. Não podemos viver com base no senso comum. A voz do povo NÃO é a voz de Deus. Devemos ser uma resposta à cidade sobre como lidar com as questões da vida, afinal, somos ministros de Cristo, administradores zelosos dos mistérios de Deus (1 Coríntios 4.1-2).

• Por não conhecer realmente quem era o senhor, o "servo inútil" teve medo. E tomado pelo medo, cercado de enganos sobre o senhor e sobre si mesmo, acabou enterrando o talento. Quem conhece a Deus sabe que "no amor não há medo, pelo contrário, o perfeito amor elimina o medo, pois o medo implica castigo, e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor" (1 João 4.18). Sabe que é um filho da luz, amado do Pai. Confia Nele sua vida. Está seguro e em paz. Quem não conhece a Deus vive paralisado, atormentado pelo medo errar e pelo medo das consequências de seus atos. Enterra seu talento; esconde-se debaixo da cama ou sob um cesto; torna-se sal insípido, que não serve para nada, inútil. É aquele caso típico na cidade de "pessoas cheias de potencial" que nunca realizam, ficam apenas no discurso ou na melhor das intenções.

Em resumo:

O Reino de Deus é a reunião de pessoas boas (honradas, obedientes) e fiéis (dignas de confiança), que estão administrando com zelo e parceria os talentos que receberam do Senhor Jesus (bens e recursos, carreira, dons espirituais, pessoas para cuidar, ministério...) até que Ele venha. Há uma grande recompensa para esses: porque foram fiéis no “pouco” (no que é limitado), serão estabelecidas e posicionadas no “muito” (em algo de extraordinária medida) e entrarão na alegria (na satisfação) do Senhor Jesus, ou seja, entrarão no Reino e reinarão com Ele.

Mas ficarão de fora aqueles que forem maus (desobedientes) e preguiçosos (negligentes, lentos para agir), que vivem isolados (individualistas) e pensam conforme o espírito da cidade (engano). Por não conhecerem verdadeiramente quem é o Senhor Jesus, toda perspectiva de futuro é enterrada pelo medo (não saem do lugar, são mornos, são servos inúteis).

Esse ano de 2017 é de muito trabalho. Vamos fazer multiplicar o que temos recebido do Senhor. Imediatamente. Com fidelidade e diligência. Sem procrastinar, sem deixar para depois. Não podemos mais colocar a culpa nas crises do presente, não podemos mais transferir nossa responsabilidade. O tempo é curto. Jesus Cristo está voltando!

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