sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Tabernáculo, liturgia e sacerdócio

Luciano Motta

Provavelmente a estrutura básica do Tabernáculo de Moisés é bastante conhecida por todo aquele que tem um mínimo de vivência na fé cristã. Mesmo assim, para uma correta compreensão deste artigo, gostaria de rever brevemente sua estrutura, funcionamento prático e simbologia. Cito os escritos de Charles Newbold Jr. em The Crucified Ones (p.6):

"O Átrio exterior do Tabernáculo de Moisés, onde eram feitos os sacrifícios de animais, corresponde à Festa da Páscoa, que foi cumprida na morte, sepultamento, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo.

O Lugar Santo, com o altar do incenso, a mesa dos pães (o pão de preparação) e o candelabro, que queimava óleo continuamente , corresponde à Festa de Pentecostes que foi cumprida no derramamento do Espírito Santo sobre a Igreja no dia de Pentecostes (Atos 2).

O Santo dos Santos, onde está a arca da aliança com o propiciatório sobre ela, corresponde à Festa de Tabernáculos [...]. Uma vez por ano, no Dia da Expiação, o sumo sacerdote entrava por trás do véu no Santo dos Santos para aspergir o sangue de sacrifícios de animais sobre o propiciatório para expiação dos seus próprios pecados e dos pecados do povo (Êxodo 30:10). Jesus cumpriu parcialmente o Dia da Expiação como nosso grande Sumo Sacerdote (Hebreus 9:7-12)."


De modo geral, vigora nas igrejas uma certa repetição dessa estrutura do Tabernáculo de Moisés, tipificada no que se refere à liturgia (diga-se: cultos coletivos, sejam "tradicionais" ou "carismáticos"). Historicamente tem sido preservados, com poucas variações, as seguintes partes ou instâncias litúrgicas: 1) música, 2) pregação e 3) apelo.

O período de cânticos - ou o chamado "momento de louvor" - seria hoje a primeira parte: o Átrio. Em muitas igrejas prevalece uma mentalidade que trata a música como veículo para "aquecer" o espírito e preparar o coração do povo para a mensagem. Dependendo da igreja, essa parte é "ornamentada" por leituras bíblicas, danças e apresentações de todo tipo. Figura como um momento do culto aberto e acessível a todos, crentes ou não.

A pregação da Palavra seria o Santo Lugar. Aqui apenas um "oficial" pode ministrar, como no passado era com os de linhagem sacerdotal. Entenda-se "oficial" como uma pessoa de autoridade e conhecimento bíblicos. Claro que nem sempre isso acontece - há igrejas mais carentes nessa área que permitem pessoas nem tão embasadas assim nas Escrituras para ministrar no púlpito. E não há demérito algum quando se oferece esta oportunidade para treinamento e formação de novos pregadores da Palavra, mas não necessariamente ocorre desta forma ou para este fim.

A última parte, o Santo dos Santos, seria tipificada como aquele momento do culto imediatamente posterior à mensagem do pregador, o momento do "apelo" para salvação e consagração de vidas. Em igrejas históricas, esse é um tempo de contrição, reflexão e resposta à mensagem pregada. Em igrejas carismáticas, é um momento apropriado para também manifestar dons, curas, exorcismos, e todo tipo de extravagâncias espirituais. De qualquer forma, é a parte mais esperada e mais marcante de um culto, na maioria das vezes.

Em todas essas partes, como no Velho Testamento, sempre há um mediador - "levitas", pastores, cantores, dirigentes, etc. Nota-se que esse mediador ganha ainda mais destaque no momento final do culto, seja por meio de "atos proféticos", palavras "fortes" de "autoridade" e "unção", seja pela dinâmica musical que levaria o participante do culto muitas vezes a um êxtase da alma e nem sempre a uma ação genuína do Espírito Santo - pela falta de evidências posteriores de arrependimento e mudança de vida.

Pois essas formalidades e estruturas litúrgicas foram engessando e apagando o que há de mais precioso na igreja neotestamentária: o sacerdócio de todos os santos.

O que fazia um sacerdote, senão apresentar diante do Senhor adoração, petições, arrependimento? Por causa da estrutura litúrgica vigente, dependente de mediadores, que hoje tornam o culto coletivo mais próximo de um espetáculo de luzes e som, o trabalho sacerdotal de todo crente - a devoção diária e contínua de todo aquele que nasceu de novo - tem sido esquecido ou ignorado. Isso é ainda mais grave nesses dias de um "evangelho" centrado no homem e em suas necessidades, de um cristianismo paradoxalmente passivo e ativista.

O culto coletivo se distanciou da dinâmica corporativa indicada pelo apóstolo Paulo:

"Portanto, que diremos, irmãos? Quando vocês se reúnem, cada um de vocês tem um salmo, ou uma palavra de instrução, uma revelação, uma palavra em língua ou uma interpretação. Tudo seja feito para a edificação da igreja" (1 Coríntios 14.26 NVI)

Veja que cada um já deveria trazer algo para a edificação do Corpo. Em Atos 3 lemos o famoso episódio em que Pedro e João, subindo ao templo (possivelmente para cultuarem), viram um paralítico junto à porta Formosa. Pedro se aproxima e diz com autoridade: "Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda" (v.6). Isso aponta sem dúvida para o altar individual, a devoção pessoal, o sacerdócio diário, ativo, vivo.

Culto hoje é entendido e tratado como um evento. A expectativa atual pelo "momento máximo do culto" sugere que pessoas se converterão depois de ouvirem o sermão, que haverá manifestações as mais diversas. Ora, quando novos crentes são gerados em eventos, então possivelmente terão suas vidas baseadas em eventos. O que vemos é uma geração "viciada" em encontros, congressos, conferências... Parece que a vida espiritual de muitos depende de um evento desse tipo, ou do próprio culto dominical, para experimentarem alguma espiritualidade. Precisam receber e não dar.

O sacerdócio de todos os santos não opera assim. Precisamos da mentalidade do Corpo - suas conexões, dinâmicas e funcionalidade. É verdade que o Corpo possui partes específicas e distintas, mas elas não são estanques, excludentes como eram no Tabernáculo. No Corpo de Cristo prevalece um conjunto harmonioso e vital de sacerdotes plenamente conscientes de suas responsabilidades e atribuições individuais. E quando estes se encontram, o culto torna-se uma assembleia solene, de participação coletiva e ativa de todos. Ali há proclamação da Palavra e céus abertos para a operação de sinais e maravilhas, produzindo arrependimento e salvação de pessoas, bairros e cidades inteiras.

Se estas coisas podem ser traduzidas por "avivamento", então veja que tudo começa no sacerdócio individual, em famílias à imagem e semelhança da relação entre o Noivo e a Noiva, Cristo e a Igreja, que constituem igrejas que verdadeiramente são Corpo vivo, "bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte... para sua edificação em amor" (Efésios 4.16).

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