quinta-feira, 7 de junho de 2012

A fé vem pela escuta

Luciano Motta

Sem dúvida esse título seria melhor reconhecido nas palavras de Paulo: "A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo" (Romanos 10.17). Para o senso comum, escutar e ouvir são maneiras diferentes de se dizer a mesma coisa. Porém, existe significativa distinção entre essas duas ações: estar à escuta implica necessariamente atenção, quietude, concentração. Não é algo desinteressado.

A palavra "ouvir" em Romanos 10.17 vem do original grego akouo (prestar atenção, considerar o que está ou tem sido dito, compreender, entender, descobrir, aprender). Segundo o Vine's Expository Dictionary of New Testament Words, o sentido de "ouvir" neste verso das Escrituras está relacionado a "perceber com a mente" uma mensagem ou ensino.

Perscrutando um pouco mais as diferenças entre escutar e ouvir, cito as palavras do filósofo francês Jean-Luc Nancy em seu ensaio A La Escucha (Buenos Aires: Ed. Amorrortu, 2007): "Cada ordem sensorial tem em si sua natureza simples e seu estado tenso, alerta ou ansioso: ver e olhar, cheirar e farejar, comer e saborear, tocar e tatear ou apalpar, ouvir e escutar" (p.17, tradução minha). Escutar vem da palavra latina auscultare e significa ouvir com atenção. Para Nancy, é o mesmo que "aguçar o ouvido - expressão que evoca uma mobilidade singular (...) - uma intensificação e uma preocupação, uma curiosidade ou uma inquietude" (p.16, tradução minha).

Essa força que captura nossa atenção e nos conduz a uma certa tensão interna ou externa não se encontra no sentido mais comum para ouvir (do latim audire). Escutar vai além do trivial ato de perceber um som pelos ouvidos. Para ilustrar: Pense em alguém (pode ser você) que enquanto trabalha conversa com outros colegas de trabalho, e ainda ouve música. Seus sentidos estão agitados, ocupados com duas ou três demandas simultâneas. O que vai entrando por seus ouvidos não está sendo processado, nem refletido. Ao término do dia, a maior parte do que ouviu será esquecida. Pode ser que um verso de música, ou um trecho da fala de alguém, ou até algum elemento do trabalho reverbere posteriormente em sua mente. Mas nada de relevante ficará, salvo quando for estabelecido um mínimo de vinculo sensorial e/ou emocional ao que se tenha ouvido.

Na versão da Bíblia de Jerusalém para Romanos 10.17 - "A fé provém da pregação e a pregação se exerce em razão da palavra de Cristo" - há uma clara inclinação para a escuta. Faça um teste: quando terminar uma reunião congregacional, passadas uma ou duas horas, pergunte sobre o que foi pregado para as pessoas que ouviram o sermão ou o estudo bíblico. Você conseguirá distinguir quem realmente escutou (estes se lembrarão de partes significativas e poderão até fazer uma síntese da pregação) daqueles que apenas ouviram (não se lembrarão de nada ou quase nada!). Escutar é reter e processar, é captar os mistérios, tal qual um espião com o ouvido atrás da porta, que discerne pelos sons o que se passa no oculto.

Ora, se a fé vem pelo ouvir, por uma escuta atenta e diligente, será que temos algo a dizer agora mesmo a respeito de Jesus e de Seus planos para essa geração, para nossa nação ou para nossa cidade? O que temos escutado diretamente de Sua voz nesses dias? Que revelação temos Dele?

Em Mateus 16.13-17 lemos o episódio em que Jesus perguntou aos discípulos: "Quem os homens dizem ser o Filho do Homem?" Eles responderam: "Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias, ou algum dos profetas". Depois o Mestre devolveu a mesma questão aos discípulos: "Quem vocês dizem que eu sou?" Pedro afirmou de imediato: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo". E Jesus lhe garantiu: "Não foi carne e sangue que te revelaram isso, mas meu Pai, que está no céu". A declaração certeira de Pedro só foi possível graças a uma ação divina. Ele não se baseou no que as pessoas diziam, antes escutou diretamente do Pai e captou o mistério do Deus encarnado, declarando a sua fé Nele.

Outra consideração importante: A Palavra de Cristo instiga, atiça o ouvir, e daí recebemos fé. Não há nada de errado com a Palavra de Cristo, tampouco com a fé. O problema está em nós - não estamos escutando! Multidões tem fundamentado sua fé em sinais e maravilhas, e atualmente inúmeras igrejas nutrem essa avidez por milagres. Contudo, vemos nos Evangelhos uma atitude diferente no próprio Cristo. Em muitas ocasiões, depois de curar ou expelir demônios, Jesus pedia que não falassem nada a respeito, que não divulgassem o ocorrido. Jesus nunca fez questão de se auto-promover por essas coisas. Ele veio ao mundo para revelar Sua própria essência - Ele era a Palavra viva, o Pão vivo que desceu do céu. O problema é que as multidões e boa parte da igreja ainda querem apenas o que Ele pode dar.

Quando comparou o Reino às sementes em Mateus 13, Jesus disse mais de uma vez: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça". E repetiu esta sentença em vários outros momentos, especialmente ao terminar seus ensinos e parábolas. Pois tem sido mais e mais frequente encontrar pessoas que se dizem cristãs tomadas de surpresa e espanto quando ouvem a mensagem do Reino, ainda que seja o tópico mais básico do Evangelho. Por que isso ocorre? Porque de fato não estão escutando a Palavra de Cristo e por isso não estão recebendo a Vida de Cristo em seu homem interior. A fé desses é morta ou encontra-se contaminada pela mensagem antropocêntrica deste século, que ressalta os interesses do homem caído em seu amor pelo dinheiro e pelo mundo.

Em Laodiceia havia uma igreja assim. Para ela, Jesus disse: "Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa..." (Apocalipse 3.20). Mas como aquela igreja poderia ouvir se estava tão cheia de si, tão orgulhosa de sua riqueza e prosperidade? Ela dizia: "Estou rica, adquiri riquezas e não preciso de nada" (v.17). Pela condicional "se alguém ouvir..." fica o alerta: é perfeitamente possível existir uma igreja na qual ninguém escuta Jesus, uma igreja que deixa o seu Deus do lado de fora. Ao término de cada uma das cartas às sete igrejas de Apocalipse, repetem-se as palavras: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça".

Talvez essas sejam as razões de nossa crise de fé: uma igreja que não reconhece a voz do seu Deus e o deixa do lado de fora, por estar abastada ou em busca de riquezas; uma igreja que visa os milagres e o que Ele pode dar, desprezando o que Ele quer ensinar; uma igreja que não tem a revelação de quem é Jesus, mas vive baseada nas impressões do que dizem as pessoas, os livros, os tele-evangelistas, a tradição, dentre outros substitutos à voz de Cristo. Possivelmente precisamos parar tudo, cancelar nossas agendas eclesiásticas. Precisamos nos dedicar à quietude, à ouvirmos de novo, individual e coletivamente, a Sua voz - que esta seja nossa maior ocupação! Precisamos construir um lugar para Jesus, um lugar de oração e serviço, onde Ele possa descansar e se encontrar conosco. Então, a partir desses encontros, poderemos nos movimentar em função do que Ele disser, do que Ele nos orientar a fazer.

Este é um tempo de muitas vozes e de muito barulho, tempo que requer de nós um esforço contínuo para escutarmos a Palavra e crescermos em fé. Jesus está às portas. Quem está ouvindo com atenção e zelo?

2 comentários:

  1. Ótimo texto!
    Que nesse tempo estejamos atentos para ouvir o que Senhor tem falado com sua Igreja.

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    1. Assim seja! "Ouvidos para ouvir"

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