quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O Reino e as sementes I

Luciano Motta

O capítulo 13 de Mateus contém uma série de parábolas sobre o Reino de Deus. Em quase todas, Jesus se vale da figura de sementes e grãos para comunicar sua mensagem. Antes, contudo, gostaria de destacar a pergunta feita pelos discípulos: "Por que falas ao povo por parábolas?" (v.10). Jesus lhes responde:
A vocês foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos céus, mas a eles não. A quem tem será dado, e este terá em grande quantidade. De quem não tem, até o que tem lhe será tirado. Por essa razão eu lhes falo por parábolas: ‘Porque vendo, eles não veem e, ouvindo, não ouvem nem entendem’. Neles se cumpre a profecia de Isaías: ‘Ainda que estejam sempre ouvindo, vocês nunca entenderão; ainda que estejam sempre vendo, jamais perceberão. Pois o coração deste povo se tornou insensível; de má vontade ouviram com os seus ouvidos, e fecharam os seus olhos. Se assim não fosse, poderiam ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, entender com o coração e converter-se, e eu os curaria’. Mas, felizes são os olhos de vocês, porque veem; e os ouvidos de vocês, porque ouvem. Pois eu lhes digo a verdade: Muitos profetas e justos desejaram ver o que vocês estão vendo, mas não viram, e ouvir o que vocês estão ouvindo, mas não ouviram (v.11-17).
Esta é uma palavra de esperança e juízo que a Igreja de Cristo deveria atentar. Esperança porque Ele irá revelar Seus propósitos para esses dias através dos Seus profetas, da Sua Igreja. Precisamos vigiar e orar, aprofundar nossa comunhão com Ele. Juízo porque quem não for um verdadeiro discípulo não irá entender as coisas que já estão acontecendo e que virão. Terão dificuldades as igrejas que não centralizarem a pessoa de Jesus, que se desviarem do verdadeiro Evangelho. Com o aumento da maldade nos últimos tempos, o amor de muitos esfriará (Mateus 24.12). Isso suscitará a hipocrisia e a mentira de homens com a mente cauterizada (1 Timóteo 4.1-2). Pois é justamente nesse contexto que precisamos nos posicionar como Igreja - e tudo se fundamenta no quanto estamos ligados a Jesus. Discípulos verdadeiros veem e ouvem. Discípulos verdadeiros recebem revelação do Mestre quanto aos mistérios e significados do Reino.

A primeira parábola que Jesus conta nesse capítulo é a do semeador:
O semeador saiu a semear. Enquanto lançava a semente, parte dela caiu à beira do caminho, e as aves vieram e a comeram. Parte dela caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra; e logo brotou, porque a terra não era profunda. Mas quando saiu o sol, as plantas se queimaram e secaram, porque não tinham raiz. Outra parte caiu entre espinhos, que cresceram e sufocaram as plantas. Outra ainda caiu em boa terra, deu boa colheita, a cem, sessenta e trinta por um. Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça! (v.3-9)
Jesus mesmo explica a seus discípulos acerca da parábola:
Portanto, ouçam o que significa a parábola do semeador: Quando alguém ouve a mensagem do Reino e não a entende, o Maligno vem e lhe arranca o que foi semeado em seu coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho. Quanto ao que foi semeado em terreno pedregoso, este é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria. Todavia, visto que não tem raiz em si mesmo, permanece por pouco tempo. Quando surge alguma tribulação ou perseguição por causa da palavra, logo a abandona. Quanto ao que foi semeado entre os espinhos, este é aquele que ouve a palavra, mas a preocupação desta vida e o engano das riquezas a sufocam, tornando-a infrutífera. E, finalmente, o que foi semeado em boa terra: este é aquele que ouve a palavra e a entende, e dá uma colheita de cem, sessenta e trinta por um (v.18-23).
A semente é a Palavra de Deus. De longe, ao derredor, o diabo observa atentamente os corações enquanto a mensagem do Reino é ministrada, tal qual uma ave sobrevoa o campo a contemplar as sementes que caem sobre a terra, lançadas por aquele que semeia. Dentre as várias espécimes de aves, existem as dispersoras de sementes (frugívoras) e as predadoras de sementes (granívoras). As primeiras alimentam-se apenas de frutos, deixando suas sementes intactas, espalhando-as pela região. Estas beneficiam as plantas quanto à sua preservação, ainda que destruam os frutos (isso daria outra boa reflexão). Obviamente Jesus estava se referindo ao segundo tipo de aves: as que comem sementes, esmagando-as e seccionando-as. Estas impedem a germinação, a vida.

É impressionante como as pessoas tem andado tão distraídas quanto ao tempo em que vivem, tão saturadas de informação e entretenimento a ponto de considerarem a Palavra como mais um dado a ser depositado nos arquivos-mortos da memória. A Palavra não é prioridade, os valores do Reino não são importantes. Dessa forma, como entenderão o Reino e sua justiça se não o buscarem em primeiro lugar? Por não acolherem esta preciosa semente com diligência e prontidão, são roubados; por não cultivarem no dia a dia o que recebem nas reuniões e nos cultos, e na devoção diária, se esta existir, deixam a vida à mercê dos predadores da mente e do espírito. Como esperar frutos de pessoas assim?

Também é grande a multidão dos que não tem raízes profundas em Deus e no Corpo de Cristo. Não há frutificação nesses corações. Muitos confundem "frequentar cultos e cantar músicas" com "relacionamento vertical e adoração". Outros tantos direcionam suas vidas espirituais a partir das vozes de mediadores. Quantos não poderiam já serem mestres na Palavra, mas ainda se portam como crianças, dependendo de leite! Quantos pastoreiam e lideram sem direcionamento seguro, sem fundamentação espiritual para seus rebanhos e congregações, por não terem uma sólida e profunda vida com Deus!

Agora considerando a perspectiva horizontal: cresce o número de crentes solitários, de "carreira solo" na fé. Na verdade, estão expostos, perdidos, ferindo gente por aí com suas próprias mazelas. Toda Igreja deveria ser uma família e toda família, uma Igreja. Isso reduziria radicalmente os problemas com desviados e desamparados, com lares partidos, pois na hora da adversidade todos suportariam verdadeiramente as cargas uns dos outros. No Corpo há suporte e submissão, há vida e fortalecimento mútuos.

Jesus aponta ainda um terceiro tipo de semente, sufocada pelas preocupações cotidianas e pela ilusão das riquezas. Nesse ponto, convém destacar como o evangelho pregado e cantado hoje é tão identificado com essas duas demandas! A felicidade e o bem-estar são perseguidos e propagados em todo lugar. A bênção e o milagre são idolatrados. "Prosperidade" se tornou jargão entre os evangélicos, sinônimo de que Deus está na vida daquele que cresce e se destaca financeiramente. São desvios gritantes que tornam o evangelho infrutífero. As boas novas tem sido sufocadas por esses espinhos. O mundo anseia por uma mensagem diferente.

A boa terra é o coração daqueles que tem ouvidos para ouvir. A Bíblia afirma que "virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, sentindo coceira nos ouvidos, segundo os seus próprios desejos juntarão mestres para si mesmos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos" (2 Timóteo 4:3-4). Não é uma descrição do tempo presente?

Precisamos definitivamente deixar de tratar a Palavra de Deus como uma bula de remédios ou um receituário médico, algo que lemos e até reproduzimos, mas de forma indiferente, mecânica, religiosa, impessoal. Deus espera que cuidemos com zelo da boa semente que tem plantado em nós, através de um relacionamento profundo conosco, individual e como Igreja. Ele procura corações devotados ao Seu Coração, dispostos a ouví-Lo e a obedecê-Lo, ainda que ouçamos palavras contrárias às nossas próprias vontades e confortos.

O cultivo da semente que não é roubada pelo diabo, que resiste às tribulações e às demandas sufocantes da vida, e que frutifica os valores do Reino, enfim, esse cultivo deve envolver nossas emoções e mentes, nossos corações abertos para as Escrituras, voltados para tudo o que Deus está querendo falar e comunicar a nós, Seus filhos. Só assim influenciaremos nossa geração. Só assim alimentaremos este mundo com a Verdade, o Pão da Vida. As sementes tem sido lançadas para a grande colheita dos dias do fim... Somos, você e eu, boas terras para receber a mensagem do Reino e frutificar?

"Peço que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o glorioso Pai, lhes dê espírito de sabedoria e de revelação, no pleno conhecimento Dele. Oro também para que os olhos do coração de vocês sejam iluminados, a fim de que vocês conheçam a esperança para a qual ele os chamou, as riquezas da gloriosa herança dele nos santos e a incomparável grandeza do seu poder para conosco, os que cremos, conforme a atuação da sua poderosa força" (Efésios 1:17-19).

"Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!"

Leia aqui a parte 2

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