terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O Reino e as sementes II

Luciano Motta

Depois de meditarmos sobre a conhecida parábola do Semeador, vamos continuar nossa reflexão a respeito do modo como Jesus se apropria de um contexto de grãos e sementes para falar do Reino de Deus, desta vez na parábola do joio e do trigo, em Mateus 13:
Jesus lhes contou outra parábola, dizendo: O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente em seu campo. Mas enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo e semeou o joio no meio do trigo e se foi. Quando o trigo brotou e formou espigas, o joio também apareceu. Os servos do dono do campo dirigiram-se a ele e disseram: ‘O senhor não semeou boa semente em seu campo? Então, de onde veio o joio?’ ‘Um inimigo fez isso’, respondeu ele. Os servos lhe perguntaram: ‘O senhor quer que vamos tirá-lo?’ Ele respondeu: ‘Não, porque, ao tirar o joio, vocês poderão arrancar com ele o trigo. Deixem que cresçam juntos até à colheita. Então direi aos encarregados da colheita: Juntem primeiro o joio e amarrem-no em feixes para ser queimado; depois juntem o trigo e guardem-no no meu celeiro’ (v.24-30).
Como fez na parábola do Semeador, Jesus também explicou a seus discípulos sobre esta parábola:
Então ele deixou a multidão e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: "Explica-nos a parábola do joio no campo". Ele respondeu: "Aquele que semeou a boa semente é o Filho do homem. O campo é o mundo, e a boa semente são os filhos do Reino. O joio são os filhos do Maligno, e o inimigo que o semeia é o diabo. A colheita é o fim desta era, e os encarregados da colheita são anjos. Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim também acontecerá no fim desta era. O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles tirarão do seu Reino tudo o que faz tropeçar e todos os que praticam o mal. Eles os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai. Aquele que tem ouvidos, ouça" (v.36-43).
O joio é uma planta de sementes tóxicas, que brota em meio a outras plantas de qualidade. Suas sementes assemelham-se aos grãos de trigo quando maduras, assim como suas folhas e aparência exterior. A ingestão das sementes do joio causa náuseas, vômitos e distúrbios neurológicos, como cefaléia, tonturas, vertigens, sonolência, convulsões e distúrbios visuais.

Por sua vez, o trigo dispensa maiores apresentações: suas sementes são matérias-primas de muitos alimentos básicos, como a farinha, ricas em nutrientes. O trigo é uma das maiores culturas de cereais do mundo, força econômica de muitos países.

Não por acaso, Jesus situa o Reino justamente nessa "guerra de culturas": joio e trigo, ímpios e justos, mal e bem, morte e vida. Aquele que semeia é o próprio Jesus, tanto na parábola do Semeador quanto nesta do joio e do trigo. Se na primeira o inimigo vinha e roubava a semente antes que esta germinasse, tal qual uma ave destruidora de sementes, nesta segunda parábola há uma mudança de estratégia: o diabo adentra o campo e semeia de suas próprias maldades sobre os corações humanos. E o faz de modo dissimulado, oculto: "enquanto todos dormiam" - aqui outra vez Jesus enfatiza a necessidade de vigilância.

Também salta aos olhos a resposta do dono do campo quando questionado sobre a remoção do joio: "vocês poderão arrancar com ele o trigo". Isso aponta para a semelhança exterior entre o joio e o trigo, e a preocupação do Semeador (Jesus) em preservar os justos, aqueles que acolheram a boa semente em seus corações e nasceram para a nova vida em Cristo.

Vivemos dias de valorização da aparência. É forte a noção de que precisamos parecer felizes, completos, realizados. A mídia, o marketing, a força das celebridades só alimentam esse ideal. Se antes havia um grande embate entre o SER e o TER, agora se insere um novo elemento: o PARECER. Obviamente sempre existiu fingimento, falsidade, hipocrisia. Só que nas últimas décadas vimos crescer o fake em seus muitos aspectos e modalidades, tais como a reprodução em massa de bens e obras artísticas, a falsificação de mercadorias, a pirataria, a mentalidade copy-and-paste da informática, o download ilegal, o ambiente virtual e simulado. As influências negativas dessa "cultura da aparência" recaem sobre nossas ações e auto-imagem criada por nós mesmos, principalmente na internet e nas redes sociais: queremos que as pessoas vejam nossas fotos em nossos melhores momentos, queremos que leiam o que publicamos em blogs e sites de relacionamento, queremos que nos vinculem a uma boa reputação - ainda que todas essas coisas não sejam reais em nossas "vidas reais", basta que "pareçam" reais.

Assim, se satanás não consegue destruir a Boa Semente (conforme lemos nos Evangelhos, no livro de Atos e nas epístolas), então ele procura espalhar o que tem de pior: a mentira. E toda boa mentira tem aparência de verdade. Ninguém em sã consciência aceitaria uma nota de 30 reais ou uma moeda de 3 reais, simplesmente porque elas não existem.

A mentira está enraizada principalmente na prática religiosa desprovida da natureza de Deus, como podemos constatar nas palavras de Jesus dirigidas aos hipócritas fariseus em João 8.42-45: "Se Deus fosse o Pai de vocês, vocês me amariam, pois eu vim de Deus e agora estou aqui. Eu não vim por mim mesmo, mas ele me enviou. Por que a minha linguagem não é clara para vocês? Porque são incapazes de ouvir o que eu digo. Vocês pertencem ao pai de vocês, o diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira. No entanto, vocês não crêem em mim, porque lhes digo a verdade!"

Outra passagem que expõe e denuncia o joio está em 2 Timóteo 3.1-9: "Saiba disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, traidores, precipitados, soberbos, mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder. Afaste-se também destes. [...] estão sempre aprendendo, mas não conseguem nunca de chegar ao conhecimento da verdade. Como Janes e Jambres se opuseram a Moisés, esses também resistem à verdade. A mente deles é depravada; são reprovados na fé. Não irão longe, porém; como no caso daqueles, a sua insensatez se tornará evidente a todos".

O joio cresce ao lado do trigo, e tão junto dele, e tão semelhante a ele, que Jesus nos adverte existir um momento adequado quando finalmente haverá uma separação entre eles: a colheita do grande e temível dia do Senhor, quando Jesus voltará e irá instaurar a plenitude do Seu Reino. Até lá, vemos pelas Escrituras que é necessário que justos cresçam sob circunstâncias adversas, ora sofrendo perseguições e injúrias, ora sendo sufocados e feridos pelas ações más de ímpios. Isso faz parte do processo de crescimento. E é justamente sob essas circunstâncias de provação e de cruz que nossa fé é lapidada, nossas convicções são testadas, nosso testemunho é evidenciado.

Ora, se o Evangelho do Reino não escapa de crescer rodeado por ervas daninhas, a qualidade da Boa Semente produzida pelos justos há de fazer a grande diferença: fruto do Espírito, caráter, mente de Cristo, enfim, essas e outras evidências intrínsecas aos legítimos filhos de Deus, que zelam pela santificação e buscam a semelhança do Filho Jesus. Como diz a Palavra: "todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios" (Romanos 8.28). Ainda que seja preciso esperar um tempo futuro para a separação definitiva entre o joio e o trigo, e ainda que o crescimento dos justos se dê muitas vezes pela convivência com as tribulações geradas pelos ímpios, sempre existiu e sempre existirá uma distinção entre as sementes, ou seja, entre o que cada um produz em sua vida.

Portanto, se em muitos momentos na história pareceu que o joio conseguiria sufocar definitivamente a Boa Semente, como nos obscuros anos da Idade Média e mesmo agora neste tempo de acelerada derrocada da Modernidade, seguramente chegará o tempo - e está próximo - em que os filhos das trevas, os enganadores e os dissimulados serão consumidos pela Justiça Daquele que virá em um cavalo branco ao encontro de Sua Igreja Fiel e Verdadeira, tal qual Ele é, brilhando como o sol em todo seu resplendor.

Uma pergunta final: você é joio ou trigo?

"Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!"

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