domingo, 15 de abril de 2012

Encontros e movimentações III

Luciano Motta

Antes de continuar a leitura, é fundamental conferir as duas primeiras partes desse artigo:
Parte 1: Quando Deus vai ao nosso encontro 
Parte 2: Quando nós vamos ao encontro de Deus


Na dinâmica vida com Deus, nota-se um processo. A Bíblia nos compara a crianças e a adultos em relação ao conhecimento da Palavra e à vivência no Reino, e nos exorta a um crescimento, a uma constante progressão. Santificação é o desenvolvimento da nossa salvação em Cristo. A propósito: o próprio Jesus, quando menino, "crescia e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele" (Lucas 2.40).

Contudo, muitas pessoas vivem enganadas ou deixam-se enganar pela ideia de que é possível burlar este processo. Se é crescente o número de crentes afastados do Evangelho, talvez na mesma proporção tem aumentado a quantidade de crentes e igrejas que retiraram Cristo do centro de suas vidas. São pessoas que até professam terem fé em Deus, que oram e leem a Bíblia. O que os contradiz é a falta de evidências de uma salvação em processo, de uma vida que emane naturalmente (e sobrenaturalmente) o brilho da glória de Deus.

Considerando o exposto acima e os dois encontros marcantes de Moisés com Deus que temos discorrido nesta série de artigos, vamos nos ater agora a dois tipos de pessoas: aqueles que ainda não experimentaram o "encontro da sarça", ou seja, que não conheceram realmente o Senhor; e aqueles que hoje querem um "encontro com a glória de Deus" sem terem construído um relacionamento profundo com Ele.

"Crentes" que não conhecem o Cristo

A experiência da sarça ardente é um encontro absolutamente transformador. Não é possível ser o mesmo depois dela. É um caminho sem volta, um start em nossa própria razão de existir. Moisés não tinha como retroceder e voltar a cuidar das ovelhas de seu sogro. Ele não poderia mais se esconder sob suas incapacidades e fragilidades, tampouco ocultar seus erros passados. Era o Todo Poderoso falando com ele, chamando-o para uma missão. Não foi um convite. Foi uma ordem, um chamado.

A Palavra diz: "Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus" (Efésios 2.8). Fomos escolhidos por Ele, apesar de nós. Isso é pura graça. E no chamado imediatamente posterior à nossa salvação, Deus nos projeta em seus propósitos e desígnios. Ele nos empurra para fora — a palavra ekklesia (igreja) denota uma assembléia aberta, chamada para fora, para resplandecer diante dos homens, a fim de que eles vejam as nossas boas obras e glorifiquem ao Pai (Mateus 5.16). Afinal, "que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras?" (Tiago 2.14).

Dessa forma, qualquer pessoa que agora mesmo não esteja percorrendo este caminho — ou que não esteja pelo menos tomado por crises interiores em relação a um chamado específico de Deus — possivelmente nunca teve encontro algum com Ele. Se é verdade que há fases na vida de pouco movimento e até de certa paralisia ou recolhimento, como foi com Moisés e com tantos outros nomes da fé, é absolutamente falso alguém que se diz crente em Jesus Cristo passar "uma vida inteira" sem movimentos em resposta à Sua voz. Em outras palavras: essa pessoa muito provavelmente não foi salva. Aquele que é salvo, se dispõe a salvar, pois recebeu uma missão, uma causa; foi chamado pelo nome e conheceu sua identidade Nele.

Por favor, não confunda as movimentações inerentes à santificação e ao chamado de Deus com frequentar cultos dominicais, ler as Escrituras, dar o dízimo, ou coisas semelhantes. Podemos atender às demandas de uma congregação cristã sem termos uma vida convertida à mente de Cristo, guiada pelo Espírito Santo. Aí reside o engano da religiosidade, e muitos tem sido ludibriados por sua espiritualidade de aparências. O que nos incendeia a congregarmos e a praticarmos os preceitos de Deus de maneira certa, zelosa e constante, com santo temor e obediência e focados em Seu chamado, é justamente o resultado direto de um encontro com Ele.

Todos precisamos da revelação do Cristo, o Ungido, que veio para nos redimir e nos transportar para o Seu Reino. Algo que começa a partir do "encontro da sarça", uma visão de nós mesmos, frágeis, comuns, falhos, desprezíveis, porém tomados pelo Fogo do Espírito Santo, quem nos revela o coração do Pai e a vida do Filho.

Deus vai ao nosso encontro, e isso deve ser metanóia — radical mudança de mente, de conduta, de vida.

Sem relacionamento com o Amigo

Antes de pedir para ver a glória de Deus, Moisés teve diversos encontros com Ele, diversas experiências de ouvir e de se movimentar em resposta à Sua Palavra. Isso denota um relacionamento construído com o tempo. Comunhão é produto de sucessivos encontros. Comunhão aponta para uma inquebrável aliança.

É bastante nebuloso para a igreja moderna o que a Bíblia diz sobre relacionamentos e comunhão. Vivemos dias de forte individualismo. Em várias igrejas evangélicas o que se vê é uma ênfase predominante nas necessidades do homem que sufocam valores como compartilhar, repartir, cooperar. As lideranças são isoladas umas das outras. Os liderados são muitas vezes massacrados por severas cobranças de posturas e ações em prol da instituição. Tudo isso trabalha de forma maligna contra relacionamentos sadios e, por consequência, contra a comunhão com o Pai e entre os irmãos.

O nosso Deus é plural: Pai, Filho e Espírito Santo. Ele é comunhão. A criação do homem envolveu diálogo: "Façamos" (Gênesis 1.26). Deus nos fez semelhantes a Ele também neste aspecto comunitário — Ele se relacionava com Adão no Éden para dialogar e partilhar de Si mesmo com o homem. O pecado produziu uma separação, pois só podemos ter comunhão com Deus sem pecado e com o espírito vivo. Isto só é possível quando nascemos de novo pelo Espírito Santo através do sangue remidor de Cristo. E para permanecermos sem pecado, precisamos subjugar a velha natureza carnal pela vida de Cristo, exercitando-nos na piedade e andando na luz (leia 1 Timóteo 4.7 e 1 João 1.6-7; 3.1-9).

Construindo espaços para a comunhão

Moisés desenvolveu um relacionamento tão profundo e maduro com Deus, que chegou ao ponto de preparar ele mesmo um espaço reservado e exclusivo para esse fim: a "Tenda do Encontro". Para nós hoje é evidente que esse espaço não se trata de um lugar físico, mas espiritual, embora não esteja de todo desassociado de ações concretas e bem práticas, como intencionalmente e sistematicamente desligar-se de tudo para comungar com Deus.

Há diversos paralelos na Bíblia de pessoas que edificaram espaços semelhantes. Uma dessas pessoas foi a mulher sunamita, que construiu um pequeno quarto para Eliseu (2 Reis 4). Após esse ato, o profeta passou a lhe perguntar com insistência: "O que podemos fazer por você?" (v.12). Depois de um ano, Deus deu um filho àquela mulher (v.16-17). Veja que poder há quando construímos um espaço para Deus agir e se relacionar conosco! Quando estamos diariamente conectados Nele ocorre uma inversão: ao invés de pedirmos, Ele logo vem ao encontro de nossos anseios. Jesus disse: "Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido" (João 15.7).

Em um relacionamento entre crianças, perceba como o ego é forte. Por mais boazinha que seja, toda criança visa o que lhe convém, o que é seu. Assim acontece quando não temos maturidade espiritual: pedimos, pedimos e pedimos. Porém, à medida que crescemos e nos aprofundamos em Deus, passamos a orar a vontade Dele, a desfrutar da Presença Dele, de Sua companhia. Nosso coração centrado em nós mesmos se converte em um coração centrado na Sua Pessoa.

Evidentemente, esse amadurecimento se reflete nos relacionamentos interpessoais. Pedro Arruda afirma que é preciso pelo menos duas pessoas na mesma condição, nascidas de novo, para terem comunhão, e que essas pessoas "devem abrir mão totalmente da vontade própria para juntas acolherem em seu lugar a vontade de Deus" (A comunhão nossa de cada dia, CCC Edições, 2010, p.24).

Sem dúvida, esta é a força motriz na edificação de outro espaço, desta vez comunitário: o Corpo de Cristo. Toda congregação deve ser um lugar de acolhimento, um lugar seguro para partilhar a vida em comunhão. Nenhum modelo de estrutura eclesiástica, sem comunhão, conseguirá reproduzir o que se lê em Atos sobre os primeiros cristãos repartindo bens, vivendo juntos, tendo tudo em comum. Sejamos francos: essa história tem sido tratada como utopia. Poucos abrem suas vidas, suas casas, e permitem que outros toquem em suas mazelas. Poucos estão dispostos a doar de si mesmos, mesmo que isso implique em perdas pessoais, para que outros sejam abençoados. Há feridas causadas por abusos de líderes e rachas entre irmãos. Tais coisas, dentre outras mais, impedem que uma exortação seja compreendida ou aceita, ou mesmo que haja abertura para ajuda e cuidado.

Existem pessoas que acreditam existir um "território neutro". Sobre isso, recorro novamente às palavras de Arruda:
Não há um meio-termo que permita a alguém não se comprometer com Deus e ao mesmo tempo não ser perturbado por satanás. Esse espaço de exceção, dentro do qual o homem julga que ninguém tem direitos sobre ele e em que se sente acima do bem e do mal em virtude de não estar fazendo nada de errado, é completamente ilusório (p.95).
A maior incoerência neste cenário é encontrar tantos crentes pedindo, em forma de orações e canções, a glória de Deus. Lamento, mas ela não virá. E se Deus, em sua soberania, liberasse um pouco da Sua glória, esta seria desperdiçada, como o filho pródigo gastou toda sua herança para satisfazer de forma irresponsável seus próprios interesses e prazeres (Lucas 15.11-14). Um bom exemplo disso é o modo como se perdeu o mover de adoração no Brasil liberado por Deus no começo deste século.

Jesus orou ao Pai para nós fossemos um assim como Eles eram um, para que o mundo pudesse crer Nele. E mais: "meu desejo é que aqueles que me deste estejam comigo onde eu estiver, para que vejam a minha glória" (leia João 17). Antes de pedirmos a glória, deveríamos estar buscando intensamente a comunhão com o Pai e entre os irmãos. Se existem campanhas, que sejam para promover a unidade do Corpo, para difundir a necessidade de uma só igreja em cada cidade, expressando a glória de Deus pelo fato de sermos um. Que se multipliquem os ajustamentos entre irmãos de diversas ênfases ministeriais para intercessão pela cidade, para fortalecimento de vínculos e estabelecimento de alianças, movimentos que tenham como propósito maior a expansão do Reino de Deus. A igreja precisa se libertar do pensamento egoísta deste tempo e desenvolver a vida altruísta de Cristo.

Deus quer passar com sua glória em nossos dias. Ele quer fazer o nosso rosto brilhar, a fim de sairmos ao povo resplandecendo como Moisés depois de se encontrar o Senhor (Êxodo 34.29). Mas Deus não quer desperdícios — Ele quer fechar a história. Jesus virá ao encontro de uma Noiva gloriosa, uma Igreja gloriosa. Portanto, não mais como Moisés, encobertos pelo véu da antiga aliança, somos exortados a entrarmos com ousadia no Santo dos Santos, com o rosto descoberto, refletindo uma vida transformada de glória em glória (2 Coríntios 3.13-18).

Nós vamos ao encontro de Deus, e isso deve ser um movimento maduro, individual e coletivo, do Corpo ligado e submisso ao Cabeça, que é Cristo, convergindo para a eterna aliança do Pai com Seus filhos.

---

Leia mais sobre Comunhão.
Leia mais sobre Linguagem e Unidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário