sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Encontros e movimentações II

Luciano Motta

Relacionamos o primeiro encontro de Moisés com Deus no episódio da sarça ardente com o nosso primeiro encontro pessoal com Ele. Vimos que o começo de nossa dinâmica jornada espiritual passa necessariamente por uma atração irresistível — somos envolvidos e ao mesmo tempo estremecidos pela graça e pelo amor Daquele que é Santo. Sua presença nos leva ao arrependimento e a uma transformação que modifica toda nossa trajetória.

Contudo, dentre os muitos encontros marcantes entre Moisés e Deus, houve um em particular que implica em um tipo de movimentação mais intenso, significativo e importante para nós hoje:

2- Quando nós vamos ao encontro de Deus

Êxodo 33:7-11,18-23 descreve uma relação madura e profunda entre Deus e o libertador de Israel do Egito:
Moisés costumava montar uma tenda do lado de fora do acampamento; ele a chamava Tenda do Encontro. Quem quisesse consultar a Deus ia à tenda, fora do acampamento. Sempre que Moisés ia até lá, todo o povo se levantava e ficava de pé à entrada de suas tendas, observando-o, até que ele entrasse na tenda. Assim que Moisés entrava, a coluna de nuvem descia e ficava à entrada da tenda, enquanto o Senhor falava com Moisés. Quando o povo via a coluna de nuvem parada à entrada da tenda, todos prestavam adoração de pé, cada qual na entrada de sua própria tenda. O Senhor falava com Moisés face a face, como quem fala com seu amigo. [...] Então disse Moisés: "Peço-te que me mostres a tua glória". E Deus respondeu: "Diante de você farei passar toda a minha bondade, e diante de você proclamarei o meu nome: o Senhor. Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia, e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão". E acrescentou: "Você não poderá ver a minha face, porque ninguém poderá ver-me e continuar vivo". E prosseguiu o Senhor: "Há aqui um lugar perto de mim, onde você ficará, em cima de uma rocha. Quando a minha glória passar, eu o colocarei numa fenda da rocha e o cobrirei com a minha mão até que eu tenha acabado de passar. Então tirarei a minha mão e você verá as minhas costas; mas a minha face ninguém poderá ver".
Um encontro em separado, reservado: Diz o texto que Moisés se encontrava com Deus fora do arraial, na Tenda do Encontro. Da mesma forma, a despeito de uma agenda muito, muito intensa, Jesus sempre se reservava de tudo e de todos para comungar com o Pai. Ele ensinou: "quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está no secreto. Então seu Pai, que vê no secreto, o recompensará" (Mateus 6.6).

Somente em uma relação madura alguém pode ter força e senso de prioridade suficientes para deixar tudo de lado e se encontrar com o Pai, não tendo como alvo bênçãos ou necessidades imediatas, mas o próprio  Senhor. Em outras palavras, ouso dizer que a devoção diária é para cristãos maduros. Quem se porta como criança na fé, mesmo com muitos anos de vida eclesiástica, ainda depende de alimentos líquidos servidos em papinhas aos domingos. Esse não tem disciplina, não tem domínio próprio, não tem uma vida espiritual sadia ou pelo menos em franco desenvolvimento, resultado de sua busca incessante, de sua fome e sede pelo Autor da vida. Muitos desses talvez nem sejam cristãos, se levarmos em conta que um seguidor de Cristo tem uma só prioridade: Cristo.

Nossos encontros com Deus geram um testemunho: O povo observava à distância e adorava a Deus todas as vezes que a Nuvem de Sua Presença descia sobre a Tenda. Há uma clara constatação aqui de influência e exemplo — a mesma atração extraordinária que Moisés sentira diante do Senhor no episódio da sarça ardente agora tocava o coração daquelas pessoas, cada uma à entrada de sua própria tenda, ou seja, aquele fogo começou a adentrar-lhes as casas e seus contextos familiares. É verdade que os israelitas sempre se esquivavam de maiores compromissos, mas alguns responderam à altura: Josué, por exemplo (Êxodo 24.13, 33.11).

Um dos significados para testemunho é a constatação, a declaração de legitimidade. O povo podia afirmar sem sombra de dúvida que seu líder Moisés andava com Deus. Os apóstolos Pedro e João eram homens comuns, mas pelos seus atos eram reconhecidos: "eles haviam estado com Jesus" (Atos 4.13). É realmente impressionante como a vida daqueles que andam com Deus atrai a atenção de outras pessoas para uma revelação do próprio Deus. Ao verem a Luz resplandecer, ao verem as boas obras, glorificam ao Pai (Mateus 5.16).

Amigos de Deus conversam face a face: Nos capítulos anteriores a essa passagem, lemos o episódio em que Deus havia descido sobre o monte Sinai antes de entregar os Mandamentos. Sua presença produziu relâmpagos, trovões, fogo, som alto de buzina (leia Êxodo 19). Estava estabelecido todo um cenário forte, dramático. Ninguém do povo teve coragem de subir ao encontro do Senhor. Estavam com medo. Perceba como o relacionamento de Moisés com Deus havia amadurecido — todo aquele medo do primeiro encontro fora dissipado. É verdade que ainda havia temor, mas um temor ligado à reverência, ao reconhecimento de Sua Santidade e Majestade.

A Bíblia diz que eles se falavam como amigos. Moisés disse: "Peço-te que me mostres a tua glória" (Êxodo 33:18). Mal comparando: seria como aquele tipo de pedido irrecusável que um amigo faz ao outro. Só que nesse caso, ninguém poderia ver a glória de Deus e permanecer vivo. Pode ser que Moisés quisesse mesmo morrer apenas para estar mais próximo do Grande Amigo.

Hoje, pelo sangue de Jesus, Deus nos convida a nos aproximarmos Dele, a entrarmos com ousadia no Santo dos santos pelo novo e vivo caminho aberto por meio de Cristo (Hebreus 10.19-20). É um movimento que parte de nós, de uma busca individual (pessoal) e coletiva (Igreja) por Ele. É uma relação construída com o tempo, fruto de um desejo verdadeiro e profundo de conhecê-Lo, sem as amarras religiosas do legalismo e da hipocrisia.

Talvez uma decisiva diferença entre nós e Moisés esteja na disposição do nosso coração para grandes realizações em Deus, que implicam em abrirmos mão de nossas próprias vontades e projetos para vivermos em função do que Ele quer. Todos os grandes homens da Bíblia e da história da Igreja tiveram esse coração. O mundo de hoje aguarda com expectativa que filhos de Deus tenham seus corações inflamados por esse mesmo anseio, pessoas que tenham desenvolvido uma espiritualidade madura depois de muitos e muitos encontros com o Senhor, de sucessivas movimentações em obediência à Sua voz. E tudo começa por uma atração pelo impressionante amor do Pai, que toca o comum com Sua presença e o faz arder.

Continua...

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