sábado, 23 de fevereiro de 2013

O herói e os últimos dias

Luciano Motta

Temos pontuado nos últimos artigos a respeito da necessidade de heróis para esse tempo. Heróis na concepção do servo: aqueles que são referência em uma sociedade cada vez mais individualista e excludente, desprovida de valores sólidos. Tratamos também das boas obras que acompanham a vida de quem se dispõe a resplandecer a luz de Cristo.

Mas todo herói, segundo sua imagem construída culturalmente, possui um antagonista ou um ponto fraco. Nos últimos dias, podemos perceber que o "vilão clássico", aquele que fica em um determinado esconderijo tramando planos mirabolantes de conquista do mundo, que envia seus comparsas para transtornar a cidade, que sempre tenta destruir o herói, enfim, esse tipo de vilão não existe mais. Os tempos são outros. Já falamos disso no primeiro artigo desta série: as artes e a mídia têm retratado o contexto "cinza" em que vivemos. Mocinhos e bandidos não são mais facilmente distinguíveis.

Parece-nos que o grande rival do herói de nosso tempo seja uma concorrência de fatos e circunstâncias, ou seja, toda uma conjuntura opressora, alimentada pelo pecado e sua consequente iniquidade, aliada ao esfriamento do amor. Jesus alertou sobre como estaria o mundo antes da Sua segunda vinda. Ele apresentou dois cenários muito próximos de maldade que irão operar em conjunto nos últimos dias:

1) "Como aconteceu nos dias de Noé, assim também será nos dias do Filho do homem. Comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e os destruiu a todos" (Lucas 17:26-27).

Gênesis 6.5,11 afirma que era grande a maldade do homem na terra naqueles dias, e toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente. A terra estava corrompida e cheia de violência. Essa descrição nos leva a crer que toda aquela maldade e violência atingiram um estado de tolerância e normalidade tais naquela sociedade, a ponto daquelas pessoas comerem, beberem e se casarem sem maiores preocupações com o nível gravíssimo de pecado entre elas. A iniquidade tornou-se banal, a perversidade era comum, a ofensa ao que é certo e íntegro não abalava mais ninguém.

2) "Como também da mesma forma aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas no dia em que Ló saiu de Sodoma choveu do céu fogo e enxofre, e os destruiu a todos; assim será no dia em que o Filho do homem se há de manifestar" (Lucas 17:28-30).

Gênesis 18 e 19 apresenta Sodoma como uma cidade perversa. Ezequiel 16.49-50 descreve seus pecados: opulência, glutoneria, indolência, ociosidade. Seus habitantes eram insensíveis ao pobre e ao necessitado; eram arrogantes, entregues à abominação de práticas imorais. Note que eles também assimilaram esses pecados ao dia a dia, e viviam como se nada de mal estivesse acontecendo.

Se compararmos esses dois cenários aos nossos dias, veremos que as semelhanças são cristalinas. Só não vê quem não quer, ou quem já sucumbiu à força maligna de nosso tempo. O que mais distancia as pessoas - e também muitas igrejas - de perceberem como os dias são maus é exatamente a normalidade da vida, as preocupações com o que comer e beber, com o que comprar e consumir, como prosperar financeiramente, etc. As atenções do mundo, principalmente dos jovens, focalizam duas coisas: ganhar dinheiro e curtir a vida. Como kryptonita, vão sugando o potencial de toda essa geração ávida por sensações efêmeras e maior status social.

Impressiona como essas coisas têm se enraizado na igreja como um câncer, corrompendo até mesmo a mensagem do Evangelho. Os crentes atuais têm dificuldade para servirem a Deus e ao próximo com suas boas obras porque a grande maioria deles está ocupada com suas próprias vidas. Muitos perderam a Causa do Evangelho, abafaram o Fogo do Espírito com inúmeras atividades eclesiásticas, converteram seus corações a desejos e ambições individualistas. Por isso há tão poucos heróis. Eles vêm sendo aniquilados pela normalidade da vida, pela conformidade com o presente século.

O problema não está no dinheiro ou na diversão, mas em priorizar essas coisas acima do que é realmente importante - valores, integridade, caráter, fé, amor, abnegação, justiça - ainda que sejam considerados "trajes antiquados". As mazelas da sociedade, as desigualdades, as ações de violência não podem mais serem deixadas de lado, transferidas para alguém resolver, para os governos. É fundamental uma ação dos filhos de Deus, servos fiéis que farão a grande diferença. São esses os heróis que apontam o Reino que está por vir - e que já veio - com suas atitudes e seu estilo de vida.

As pessoas foram surpreendidas pela destruição repentina: nos dias de Noé, pelo dilúvio; nos dias de Ló, pelo fogo. Jesus associou esse "inesperado" à Sua própria vinda. Muita gente ficará atordoada quando Ele vier nas nuvens para varrer a injustiça da terra, inclusive muitas igrejas, como as virgens imprudentes que deixaram suas lâmpadas se apagarem (Mateus 25.1-13). Jesus voltará para estabelecer o Seu Reino em aliança com Sua Noiva, que o estará esperando preparada e em ardente expectativa. A Noiva será Sua Igreja Gloriosa, constituída daqueles que resistirem ao avanço do pecado e da iniquidade nos últimos dias e perseverarem até o fim; heróis e vencedores que desprezarão suas próprias vidas por amor a Jesus e Sua Causa.

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