terça-feira, 19 de março de 2013

Brasil: um país que pouco mudou

Luciano Motta

Segue um pequeno trecho contendo observações da expedição de Francis de Castelnau, geógrafo francês em passagem por Brasil, Paraguai, Bolívia e Peru, de 1843 a 1847. Em seus relatos, ele descreve roteiros e cenários da viagem e ocupa-se principalmente da meteorologia, da geologia, da botânica e da zoologia. Aqui há menção ao "estado moral dos habitantes" do Rio de Janeiro. Algumas sentenças foram destacadas por mim e revelam como a sociedade brasileira pouco mudou nos últimos 170 anos:

É sempre difícil se pronunciar sobre o caráter social de um povo, sobretudo em se tratando de uma nação da qual, durante muitos anos, recebeu-se a acolhida das mais hospitaleiras. Entretanto, é dever do viajante comunicar ao público suas impressões, de maneira imparcial. Como todos os povos jovens, os brasileiros são de uma extrema suscetibilidade, mas o ponto principal de seu caráter é uma bondade temerosa ao extremo e que degenera em um verdadeiro vício. Havendo um atentado, todas as simpatias se voltam para o criminoso, que todos se empenham em poupar do castigo merecido, e a impunidade engendra o crime. Mas, devo dizê-lo com toda a franqueza, não há, talvez, nenhum outro país, em que os atentados seriam muito mais frequentes, em condições semelhantes. O assassinato seguido de roubo é quase desconhecido no país, mas o assassinato por vingança é bastante comum em muitos pontos. O roubo é igualmente raro, mas a trapaça é muito difundida e se reproduz sob todas as formas. O homem a quem você pode confiar sem risco um tesouro tentará, muitas vezes, afanar-lhe alguns trocados. A embriaguez é quase desconhecida no Brasil, mas a mentira é generalizada em certas classes, de uma forma bem singular; é de se duvidar, às vezes, se a verdade existe. A hospitalidade é geral no interior, e o viajante é recebido com benevolência em quase toda parte. O brasileiro está longe de ter um caráter duro que lhe é, muitas vezes, atribuído na Europa, pois é, certamente, o mais indulgente dos senhores com seus escravos: ao longo de toda a minha viagem, só vi maus tratos aos escravos por parte de estrangeiros. Sei que, algumas vezes, entretanto, eles são submetidos a castigos horríveis, quando o senhor é tomado pela cólera e pelo ciúme; mas também estou certo de que, se fosse possível estabelecer uma lei, segundo a qual o escravo só poderia ser castigado vinte e quatro horas após a falta cometida, ele escaparia quase sempre à punição, ficando assim abolidos os castigos físicos. Criado entre escravos de sua idade, o pequeno brasileiro cresce e convive sempre com eles. Os numerosos negros encarregados do serviço doméstico são, muitas vezes, mais bem tratados do que os criados das melhores casas da Europa. Nas plantações, a sua condição é mais dura; no entanto, são obrigados, apenas, a um trabalho bastante moderado, bem menos penoso, em todo caso, que o que se exigia nas colônias francesas e apenas se igualando à metade do trabalho imposto aos seus irmãos nos Estados Unidos. De resto, no Brasil, só o respeito e a obediência aos costumes protegem eficazmente os escravos, pois as leis que devem defendê-los nunca são aplicadas.

O calor escaldante, a ociosidade, a falta de possibilidade de estudo e a ferida da escravidão exerceram a mais nefasta influência sobre os costumes deste país, e o clero, longe de seguir o bom exemplo de seus pares da Europa, é normalmente o primeiro a dar exemplo de depravação e desordem. Antes de minha partida do Rio, um dos líderes da igreja me disse, com um pouco de exagero, com certeza: “o senhor encontrará aqui um clero, mas não padres”. De resto, esse clero, no meio do qual encontram-se honrosas exceções, tem, pelo menos, uma virtude, a da tolerância, como não se vê em nenhum outro lugar.

A extrema indolência da nação é um pouco dissimulada no Rio, pela agitação de uma grande cidade, onde o governo concentra todos os trabalhos; mas ela se mostra a nu, nas localidades do interior e até em muitas cidades menores da costa. Em tais lugares, o comerciante só venderá a você por obrigação; seu próprio dinheiro, não raro, se mostrará quase inútil, visto que, aos olhos dos habitantes locais, não vale a pena ganhá-lo se, para isso, precisar fazer um pequeno esforço: somente seu caráter prestimoso poderá fazer você conseguir o objeto que procura. No Brasil, tudo é pleno de dificuldades, e mesmo a coisa mais simples muitas vezes se torna impossível. Quanto ao tempo, ele não tem nenhum valor, e a paciência do europeu é obrigada a suportar violentas provas, até que, cansado de lutar, acaba se tornando tão impassível quanto os filhos da terra. [...] (Tomo I, p.130-137, "Estado moral dos habitantes").
Para reflexão: Será mesmo que o Brasil irá "evoluir" nos próximos anos apenas por meio de ações governamentais, campanhas de conscientização, ações assistencialistas e mobilização popular? Mazelas como impunidade, malandragem, depravação, desordem, religiosidade vazia e impassividade, observadas por Castelnau lá no século XIX e que perduram até hoje, enfim, essas estruturas malignas só poderão ser demolidas de nossa constituição, enquanto povo e nação, pela intervenção radical de Deus. Que a igreja de Cristo se levante nos últimos dias com atos de justiça e uma vida de oração, entrega e paixão, que sejam a expressão do Reino que está chegando.

Um comentário:

  1. Pois é... Essas ações públicas na grande maioria, para não dizer todas, são destinadas para manter essa racionalidade brasileira mesmo. É a famosa política do atraso! Então o que nos cabe é seguir contra-maré! Como em Romanos 12. 1 e 2.
    A parte que mais me chamou atenção deste relato é "Quanto ao tempo, ele não tem nenhum valor". Muito forte! Vale muito refletir sobre todos esses aspectos dessa cultura.
    Muito bom, Luciano! Vou refletir, e agir!!!

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