sábado, 1 de fevereiro de 2014

Reino do conforto?

Luciano Motta

Falamos a respeito do tempo favorável que se inicia em 2014. Precisamos aproveitar bem as oportunidades que o Senhor está abrindo para nós. Também destacamos a necessidade de nos dedicarmos mais à oração, ao jejum, à santificação, a sermos cheios do Espírito Santo, a investirmos mais na comunhão e nas conexões com irmãos de outras congregações, para juntos cumprirmos a vontade do Pai.

É claro que tudo isso implica muito, muito trabalho! Entrar no que Deus está fazendo requer de nós esforço para permanecermos no lugar secreto e coragem para rompermos com nossa zona de conforto. Como afirma Dallas Willard: "Uma vez que fomos encontrados por Deus, passamos a buscar uma vida cada vez mais plena dele. Graça é o oposto de mérito, e não de esforço".

Na imagem que ilustra este artigo (um recorte da capa do CD Kingdom of Comfort (2008), da banda inglesa Delirious), é emblemático o carrinho de supermercado derrubado, lançando ao chão artigos de consumo que são caros a muitos de nós (alguns desses itens foram obviamente direcionados a músicos). Nem todos os objetos são necessariamente glamourosos, mas têm suas utilidades e fornecem principalmente o que mais a humanidade busca nas últimas décadas: "conforto".

Essa palavrinha-mágica cruza nosso caminho todos os dias, às vezes escondida sob outros pseudônimos: Bem-Estar, Prosperidade, Riqueza, Dinheiro, Felicidade. A mensagem principal da canção Kingdom of Comfort é literalmente contestar esses valores voltados para o "eu" tão atrelados ao atual "evangelho" pregado em boa parte das igrejas evangélicas, para que se estabeleça o verdadeiro Reino de Deus. Vejamos a letra que segue (em tradução livre, feita por mim):
// Salve-me, Salve-me / Do reino do conforto onde eu sou rei / Do meu desejo doentio pelas coisas materiais // Construí eu mesmo um lar feliz / Em meu palácio por minha conta / Meu castelo afundando na areia / Coloque-me para fora, por favor, agarre minha mão / Eu acabei de esquecer de onde vim // refrão // Eu privo a mim mesmo da inocência / Com o veneno da indiferença / Eu compro minhas coisas a qualquer custo / Um duplo clique e eu pago o preço / Pois o que ganho é a perda de alguém // refrão // Salve-me, Salve-me / Do reino do conforto onde eu sou o rei / Para o Reino dos Céus onde Você é Rei
A busca pelo conforto leva muitas pessoas a construírem uma zona interior de proteção, uma verdadeira fortaleza mental, que repele riscos e perigos. Cercam-se de conveniências e ocupam seus pensamentos com as demandas do mundo. Isso traz alguns benefícios e satisfação, mas só até certo ponto. Logo, a alma aflita e vazia desejará se cercar de outras coisas, ou seja, mais prazeres e entretenimento, com mais proteção e resistência a mudanças. Tal conduta é normal e esperada de pessoas que não têm Cristo em suas vidas, pois ainda não experimentaram o novo nascimento, nem são habitação do Espírito Santo. O problema se agrava quando aqueles que se dizem cristãos passam a vida edificando reinos particulares de forma independente da vontade de Deus, se esquivando quando precisam abandonar as zonas de conforto e abrir mão do que hoje está "sob controle".

Falando aos coríntios a respeito do caráter da sua pregação, o apóstolo Paulo expõe três tipos de mentalidades:
"O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois lhe são absurdas; e não pode entendê-las, pois se compreendem espiritualmente. Mas aquele que é espiritual compreende todas as coisas, ao passo que ele mesmo não é compreendido por ninguém. [...] Irmãos, não vos pude falar como a pessoas espirituais, mas como a pessoas carnais, como a crianças em Cristo. O que vos dei para beber foi leite, e não alimento sólido, pois não podíeis recebê-lo, nem mesmo agora podeis, porque ainda sois carnais. Visto que há inveja e discórdias entre vós, por acaso não estais sendo carnais, vivendo segundo padrões puramente humanos?" (1 Coríntios 2.14-15; 3.1-3).
Natural é o mesmo que "vida sem Cristo". Carnal corresponde a uma "falta de maturidade na vida cristã", especialmente sob a influência da religiosidade. A tendência de pessoas com essas duas mentalidades é recorrer ao conforto das águas tranquilas do comodismo ou tentar se justificar quando confrontados a mudarem maus hábitos ou quando ouvem o chamado do Senhor para coisas que "os olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem penetraram o coração humano" (1 Coríntios 2.9). Para não entrarem na vontade do Pai, usam de muitos argumentos, alguns até "bíblicos".

Orar é uma loucura para a mente natural e um enfado para a mente carnal. Jejuar é uma dieta forçada e desnecessária para quem vive embriagado pelos deleites deste mundo. E o que diriam a respeito de buscar uma vida santa em dias de promiscuidade e hiper-sexualização? Como reagiriam em relação a prestar contas a alguém sobre falhas pessoais ou pecados escondidos? E que escândalo seria se encontrassem cristãos repartindo seus bens e dinheiro com irmãos da fé ou doando generosamente, inclusive a desconhecidos? Que insanidade é abandonar uma faculdade e uma carreira por amor a Jesus e Sua causa...

"Mas nós temos a mente de Cristo" (1 Coríntios 2.16). Essa afirmação aponta um nível mais elevado e maduro. Têm uma mente espiritual aqueles que foram verdadeiramente redimidos por Cristo e que estão crescendo na graça e no conhecimento de Deus, guiados pelo Espírito Santo. Suas faculdades de pensamento, reflexão e ação são fundamentadas em Cristo e Sua Vida. Recebem diariamente instrução e entendimento para viverem nesse mundo à imagem e semelhança Daquele que os criou, tendo inclusive revelação quanto às profundezas de Deus (1 Coríntios 2.10). Sua maior satisfação e realização é o próprio Deus!

A grande oposição, portanto, à nossa entrada no tempo favorável de Deus é o apego às estruturas e às mentalidades que ainda nos mantém adormecidos e cativos em nossa zona de conforto. Uma conduta que vem do tempo em que estávamos mortos em nossos delitos e pecados antes de recebermos a Vida de Cristo (Efésios 2.1). Precisamos fazer morrer a nossa velha natureza terrena e natural. Precisamos abandonar o comodismo carnal que nos impede de crescermos espiritualmente. De que maneira? Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida. Devemos conhece-Lo e prosseguir em conhece-Lo! As disciplinas espirituais nos auxiliam na jornada em direção a Ele. A Igreja, que é o Corpo de Cristo, nutre e fortalece o nosso homem interior e quebra as barreiras do individualismo.

Salva-nos, Senhor, do reino do conforto e da indiferença, de súditos mornos e conformados a uma vida "mais ou menos". Salva-nos, Senhor, da falta de paixão pela Tua Causa para este tempo que se abre diante de nós.

2 comentários:

  1. Fiquei muito feliz com sua abordagem do tema, realmente tem sido um assunto afastado do ensino eclesiástico por conta do ensino paradoxal que tem sido fortemente sustentado nas comunidades "cristãs" em toda terra.
    Vou postar em meu blog tbm! Abraços!

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  2. Thamyris3.2.14

    É maravilhoso saber que há liberdade em Cristo para nós! Deus seja louvado!

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