terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Oração: vida ou morte

Luciano Motta

{ Terminei a leitura de Seu Destino é o Trono, de Paul E. Billheimer, e fiquei muito tocado pelo conceito de autoridade da Igreja através da oração, especialmente no que diz respeito à salvação de almas. Quero compartilhar um pouco do que está em meu coração neste pequeno artigo, além de dar um testemunho pessoal. }

Todos sabemos que Jesus, antes de subir aos céus, delegou Sua autoridade aos discípulos. Essa passagem é conhecida como a Grande Comissão: "Jesus falou-lhes: Toda autoridade me foi concedida no céu e na terra. Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-lhes a obedecer a todas as coisas que vos ordenei; e eu estou convosco todos os dias, até o final dos tempos" (Mateus 28.18-20). E o que fizeram aqueles primeiros irmãos? Permaneceram em Jerusalém, seguindo as instruções do Mestre: "Enquanto participava de uma refeição com eles, ordenou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes. Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias" (Atos 1.4-5). E assim aconteceu: o Espírito Santo desceu sobre eles no dia de Pentecostes, e a Igreja começou a manifestar o poder transformador do Evangelho, avançando de forma contínua e constante, ainda que passando por percalços e perseguições.

Aqui estamos nós, século XXI, na extremidade dos últimos dias, vivendo a esperança da segunda vinda de Cristo e o estabelecimento do Reino. Quando digo "aqui estamos nós", obviamente não me refiro à totalidade da igreja. Nem todos estão vigilantes, com suas lâmpadas acesas à espera do Noivo. Infelizmente, boa parte do chamado "povo de Deus" está vivendo fora de sintonia com o coração apaixonado e inflamado Daquele que vem. Isso talvez explique o porquê do padrão de Atos parecer uma memória desbotada para os crentes e uma mera fábula para o mundo.

Nesses tempos de crise de autoridade (e poderia tratar aqui da falta de moral e de pulso dos pais, dos líderes, dos governantes, da própria Igreja), que é resultado de uma crise de identidade (pois a falta de referências e bases sólidas de fé desnorteia esta geração), a iniquidade dos homens só não é maior por conta da existência de discípulos remanescentes, cristãos que mantém a chama acesa da oração, servos que estão na brecha das nações, intercedendo, clamando, entronizando Aquele que é Digno de receber glória, força e poder. Há uma parcela do povo de Deus que ainda desempenha seu papel de sal da terra e luz do mundo, que ainda prega a cruz e a ressurreição, que ainda exorta quanto à necessidade de arrependimento e santificação. Estes têm preservado o legado daqueles primeiros discípulos: a perseverança de esperar Nele em unidade antes de qualquer movimentação.

Uma Igreja posicionada em oração (que se encontra diariamente com o Pai e Dele recebe revelação), unida em torno da pessoa de Jesus (e não de projetos particulares ou de uma agenda preconcebida por tradições ou costumes), sendo nutrida pela comunhão do Espírito Santo (e não por programações sem vida que ocupam, cansam e separam os irmãos), esta Igreja será capaz de abalar o mundo. Foi assim nos dias de Atos, foi assim em muitos momentos da história da Igreja. Por que não hoje, em nossas cidades, um grande abalo pelo mover de Deus através de nossas vidas e comunidades de fé?

Cristo já nos delegou Sua autoridade. Estamos assentados com Ele nas regiões celestes. Em outras palavras: os céus estão abertos! Nós é que nos fechamos em nossas próprias ambições egoístas e falta de perseverança e unidade. Precisamos nos posicionar em oração para que mais pessoas sejam salvas, mais famílias sejam restauradas, mais cidades experimentem reavivamento, tocadas pelo amor de Deus e Sua intervenção em resposta ao clamor e à ação da Igreja. Paul E. Billheimer comenta sobre isso:
A Igreja, e não satanás, controla o equilíbrio de poder não somente nos assuntos do mundo mas na salvação de almas individuais. Portanto, uma igreja santa, por sua intercessão ou por falta desta, retém o poder de vida ou morte sobre as almas dos homens. [...] A conversão do apóstolo Paulo vem a calhar aqui. Não se nos diz especificamente que a Igreja estivesse orando a favor de Saulo, seu mais mortal inimigo, mas pode alguém duvidar de que estivesse, exatamente como se deu no caso de Pedro na prisão, quando "havia oração incessante a Deus por parte da Igreja a favor dele"? (Atos 12.5). Dificilmente se pode duvidar de que a própria vida da Igreja estava em perigo. E pode-se duvidar de que a intercessão daqueles primitivos crentes tenha possibilitado o confronto da estrada de Damasco que revolucionou por completo o pior inimigo de Cristo e o transformou no Seu maior apóstolo? A vontade do apóstolo não sofreu coerção. Ele foi convencido e persuadido e decidiu render-se. Se Deus, em resposta às orações da Igreja, pôde assim revelar-se a Paulo de tal modo que o levou a, voluntariamente, aceitar o Cristo que ele tão ferozmente havia odiado e perseguido, está alguém fora do alcance do Espírito de Deus quando a Igreja luta do mesmo modo? (extraído do livro Seu Destino é o Trono, CLC Editora, p.58-59).
Vale lembrar que Saulo ainda "respirava ameaças de morte contra os discípulos do Senhor" quando a Luz resplandecente de Cristo o derrubou no caminho para Damasco (leia Atos 9). É difícil, portanto, não crer que a intervenção de Deus na vida de Saulo, o maior algoz da Igreja, foi gerada pela oração perseverante dos próprios cristãos por seus perseguidores. Ainda que Deus tenha revelado a Ananias que Saulo era "um instrumento escolhido para levar o Seu nome perante os gentios, reis e israelitas", o tempo oportuno para a salvação de Saulo certamente se abriu pela intercessão contínua dos cristãos. Jesus lhes garantiu isso: "Se dois de vós na terra concordarem em pedir acerca de qualquer questão, isso lhes será feito por meu Pai, que está no céu" (Mateus 18.18). A conversão de uma alma, ou a ação do Espírito Santo em determinada pessoa ou localidade, se enquadra nesse "pedir acerca de qualquer questão". Mas existe um pré-requisito: a concordância, ou seja, uma Igreja com o mesmo coração, o mesmo foco, a mesma fé.

Posso garantir que minha experiência com o Espírito Santo foi fruto de orações perseverantes, da "concordância em pedir" da Igreja. Aconteceu em 2001, durante o II Congresso de Louvor e Adoração na Igreja Batista da Lagoinha/MG. Era a primeira noite, e em determinado momento da reunião, depois de quase duas horas, me senti cansado de tudo aquilo. Minha vontade era ir embora. Lembro que abaixei minha cabeça e a apoiei no banco da frente. Ao meu lado, minha esposa estava pulando, cantando, chorando em adoração a Deus. Eu fiquei ali, quieto, de olhos fechados, a mente me puxando para fora daquele lugar. Mas ainda ouvia as músicas e as orações, ainda percebia o quebrantamento das pessoas à minha volta. Veio, então, a intervenção de Deus. Senti em meu interior um pequeno turbilhão que crescia, crescia, e logo as lágrimas começaram a brotar. Uma sensação extraordinária de paz e, ao mesmo tempo, um fogo me envolveram. Chorei profundamente por mais de 30 minutos, sem parar. Levantei-me daquele banco completamente renovado, leve, meu coração queimando de amor e alegria. Comecei a falar em línguas depois daquela experiência. Minha vida espiritual nunca mais foi a mesma. Não tenho dúvidas de que haviam pessoas orando por mim naqueles meus minutos de dureza e resistência. Minha própria esposa orou por mim. E não somente naquele dia, mas antes, semanas antes, muitos intercessores estavam unidos e vinham orando por aquele congresso e por todos que ali estariam. Eu fui atingido em cheio pela Luz resplandecente, e outras centenas de pessoas também foram impactadas naqueles dias.

Outras experiências como essa poderiam ser compartilhadas aqui. Há poucos meses, uma jovem de nossa comunidade, antes indiferente à obra de Deus e à comunhão com o Corpo de Cristo, foi surpreendida pela ação do Espírito Santo, convertida ao Senhor depois de muitas e perseverantes orações da Igreja. Tenho visto a falta de perdão, as enfermidades da alma, os corações duros de muitas pessoas sendo transformados pela intervenção de Deus, não somente em minha congregação, mas em muitos e muitos lugares, onde há pessoas dedicadas a seguirem os passos do Mestre.

A oração nos conecta à vida de Deus e permite que outros também sejam conectados à Sua vida. O contrário disso, ou seja, a falta de oração abre espaço para mais pecado e mais morte. E essa é uma realidade crescente em nossos dias: multidões de crentes esfriando na fé e na devoção. Contudo, temos uma esperança: há uma Igreja remanescente, pulsante, viva, e o Senhor está agindo em resposta às suas orações perseverantes e em concordância. Ele tem respondido com graça e favor ao Seu povo, quando há comunhão e vida fluindo no Corpo. Ele nos deu autoridade para orarmos e agirmos em parceria com Seu coração. Por que não agora mesmo?

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