quinta-feira, 14 de junho de 2012

O Reino e as sementes III

Luciano Motta

Já comentamos sobre a parábola do Semeador e a parábola do joio e do trigo (é importante que você acesse esses links e leia os artigos anteriores antes de prosseguir). Agora veremos como Jesus compara o Reino a uma semente da mostarda, ainda em Mateus 13:
E contou-lhes outra parábola: "O Reino dos céus é como um grão de mostarda que um homem plantou em seu campo. Embora seja a menor dentre todas as sementes, quando cresce torna-se a maior das hortaliças e se transforma numa árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer os seus ninhos em seus ramos" (v.31-32).
No Evangelho de Marcos, a parábola do grão de mostarda é precedida por outra alegoria de Jesus:
O Reino de Deus é semelhante a um homem que lança a semente sobre a terra. Noite e dia, quer ele durma quer se levante, a semente germina e cresce, embora ele não saiba como. A terra por si própria produz o grão: primeiro o talo, depois a espiga e, então, o grão cheio na espiga. Logo que o grão fica maduro, o homem lhe passa a foice, porque chegou a colheita (Marcos 4:26-29).
Creio que essas duas histórias estão relacionadas: o grão de mostarda e o grão que germina e cresce pela ação da terra, depois de semeado.

O primeiro aspecto a ser destacado é a singularidade do Reino. O grão de mostarda, segundo o texto, é a menor das sementes: tem cerca de 2 milímetros de diâmetro. É realmente de se admirar como pode crescer e se formar um arbusto tão grande de uma semente tão pequena.

Eis a questão: Como o Reino de Deus cresceu tanto a partir de um grupo tão reduzido e limitado de discípulos? A resposta pode ser resumida nesta afirmativa: O Evangelho de Cristo é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Romanos 1.16). Em um mundo marcado pela desesperança, pelo esfriamento do amor, pela falta de modelos sólidos, críveis, genuínos, as boas novas de um Reino de Justiça, Paz e Alegria no Espírito Santo são alento e fôlego de vida capazes de impactar gerações ao longo de séculos. Graças a Deus, essas boas notícias chegaram até nós.

No famoso livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (Ed. Agir, 2009), a passagem que descreve o surgimento da rosa ilustra a força de sua singularidade:
Sempre houvera, no planeta do pequeno príncipe, flores muito simples, ornadas de uma só fileira de pétalas, e que não ocupavam espaço nem incomodavam ninguém. Apareciam pela manhã, na relva, e à tarde já murchavam. Mas aquela brotara um dia de uma semente trazida não se sabe de onde, e o principezinho resolvera vigiar de perto o pequeno broto, que era tão diferente dos outros (p.28).
A mensagem do Reino de Deus é como aquela rosa: brota em nosso coração de repente, quebrando o tédio e a previsibilidade de uma vida que "não ocupa espaço", que "não incomoda ninguém". Toda e qualquer mediocridade existencial é suplantada pela força do Evangelho. Tornamo-nos portadores de uma vida singular, que transcende a compreensão e a lógica terrenas; uma vida capaz de influenciar aqueles que nos cercam, apontando-lhes o caminho com a Luz Daquele que habita em nós.

Outro aspecto importante: O Reino de Deus se estabelece por processo. Quando designou os setenta discípulos, Jesus deu-lhes a seguinte instrução: "E, em qualquer cidade em que entrardes, e vos receberem, comei do que vos for oferecido. E curai os enfermos que nela houver, e dizei-lhes: É chegado a vós o reino de Deus" (Lucas 10.8-9). Tempos depois, já se aproximando o dia de sua crucificação, Jesus falou a respeito da tribulação e da Sua segunda vinda: "quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o reino de Deus está perto" (Lc 21.31).

Por esses dois textos, dentre tantos outros, vemos uma clara alternância: ora o Reino já havia chegado, ora ainda estava por vir. Mas não há incoerência alguma nisso. O Reino se estabelece em nós quando cremos no Filho de Deus como nosso Senhor e Salvador e o seguimos fielmente (Lc 17.20-21). Esta é apenas a primeira etapa, pois nem tudo foi cumprido. O Rei ainda não está aqui. Somente quando Jesus voltar será plenamente estabelecido o Reino de Deus na terra. Isso denota um processo iniciado lá na cruz, tal qual o germinar (a morte) da semente, o crescimento da planta e o grão maduro, pronto para a colheita. Cristo virá quando os ramos da Videira (João 15) estiverem produzindo frutos maduros, ou seja, quando Sua Igreja Gloriosa se encontrar sem mancha, nem ruga, mas santa e irrepreensível para Ele (Efésios 5.27).

O Reino, como a semente que germina e cresce, sofre adversidades. As aves, no contexto de Mateus 13, são danosas, comparáveis ao joio que brota junto ao trigo. Na parábola do semeador, as aves destruíam as sementes. Nesse contexto do grão de mostarda, podemos considerar as aves que fazem ninhos como figuras de agentes ou situações que interferem na expansão do Reino ou que pelo menos provocam dores necessárias ao crescimento.

Certa ocasião, os discípulos pediram ao Mestre: "Aumenta a nossa fé" (Lc 17.5). Esse é também nosso pedido todas as vezes que enfrentamos oposições ou pesos de angústia e preocupação no transcurso de nossas vidas. Jesus respondeu: "Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: Arranca-te pela raiz e planta-te no mar, e ela vos obedeceria" (Lc 17.6). Aqui a menor das sementes é suficientemente comparável a uma extraordinária porção de fé. Lembro-me das palavras proféticas de não desprezarmos o dia das coisas pequenas (Zacarias 4.10).

Se observarmos atentamente a vida dos "heróis da fé" listados em Hebreus 11, chegaremos a uma conclusão: todos eles tiveram "uma fé em processo", submetida a testes e provações, lapidada tal qual uma pedra bruta em vias de se tornar um diamante. Eles conseguiram ultrapassar "a fé como um grão de mostarda" - morreram em suas próprias vontades para que germinasse a vontade de Deus e posteriormente colhessem feitos extraordinários por Ele e para Ele! Hoje, sob essa nuvem de testemunhas, Deus continua a nos provar para crescermos em fé, Ele nos disciplina para sermos participantes da Sua santidade (Hebreus 12.10). Durante esse processo, Ele vai reduzindo a cacos tudo o que é abalável em nossas vidas a fim de recebermos um Reino inabalável (Hb 12.28).

Esse Reino começa bem pequeno, quase insignificante aos olhos naturais. Porém, cresce, avança, se expande. Nada pode pará-lo. Nada pode detê-lo. As portas do inferno não lhe podem resistir. O mesmo Amor que o nutre arde em expectativas pelas bodas do Cordeiro, quando o Noivo finalmente se unirá à Noiva, e ambos reinarão até o fechamento da História.

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