quarta-feira, 2 de abril de 2014

O resgate da honra - parte 1

Luciano Motta

Não pretendo fazer um tratado teológico, nem um estudo denso sobre como as Escrituras abordam o tema da honra. Mas em tempos de forte individualismo, competição e indiferença, é muito importante refletirmos sobre isso. Percebo, em geral, uma grande dificuldade nas igrejas quanto a apreciar e a valorizar seus pastores, presbíteros e líderes, e também seus membros, algo que certamente vem do declínio da honra entre filhos e pais e entre irmãos. Se a família não celebra seus próprios integrantes, o que se pode esperar de congregações e denominações? Existe também o problema inverso: líderes que abusam da autoridade, pais que desprezam seus filhos, gerando um ciclo de não-graça e baixa autoestima que contamina toda a sociedade.

É evidente que os maiores atos de desonra vêm sendo cometidos contra Deus. Ele é Digno de ser adorado, engrandecido, honrado! Ele deve ser amado com todo nosso coração, alma, entendimento e força! É um mandamento do próprio Deus na Lei de Moisés (Êxodo 20.1-7), reafirmado para o povo de Israel quando prestes a entrar em Canaã (Deuteronômio 6.5), e novamente destacado por Jesus em resposta aos religiosos. Aliás, Cristo se referiu a essa ordem como "o grande e primeiro mandamento" (Mateus 22.37). A Bíblia enfatiza em cada história, ensino, salmo e profecia o que João viu e ouviu diante do trono: "Ao que está assentado no trono e ao Cordeiro sejam o louvor, a honra, a glória e o domínio pelos séculos dos séculos!" (Apocalipse 5.13).

No entanto, em muitas igrejas, o que se canta nos cultos não é a realidade do Deus que é Digno de receber honra, mas o engano de um homem que Deus deve honrar e abençoar. Em muitas congregações, as reuniões deixaram de ser guiadas pelo Espírito Santo, mas são sufocadas por tradições religiosas ou dominadas por deliberações, agendas e compromissos que estão longe do que Deus quer. Muitos crentes não são motivados pelo amor a Deus, que corresponde a fazer Sua vontade acima de tudo, mas empreendem, vivem, casam, compram... Enfim, vivem a vida como se Ele não existisse. Essa ausência de devoção ao Pai, essa falta de crescimento e aperfeiçoamento à imagem do Filho, essa insubmissão ao Espírito Santo provocam uma reação em cadeia, que já manifestamos aqui: famílias desestruturadas, igrejas sem rumo, sociedade em ruínas.

Se pensarmos bem, Deus não precisa da nossa adoração. Nós é que precisamos adorá-Lo, honrá-Lo, amá-Lo, contemplá-Lo! Quando nos colocamos diante Dele todos os dias, "com o rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, que vem do Espírito do Senhor" (2 Coríntios 3.18). Quando honramos o Pai, com nossas vidas e famílias alinhadas à Sua vontade, vemos se cumprir em nós a oração de Jesus: "para que o amor com que me amaste esteja neles, e eu também neles esteja" (João 17.26).

O amor do Pai em nós, e o Filho em nós, e o Espírito Santo em nós... Isso já é mais do que suficiente para honrarmos e dignificarmos esse Deus tão maravilhoso! Afinal, como diz o salmista, "que é o homem, para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? Tu o fizeste um pouco menor que os anjos e o coroaste de glória e honra" (Salmo 8.4-5). Deus nos honra com Sua presença, com Seu amor incondicional, com Seu cuidado e fidelidade. Nós nascemos em pecado, somos legitimamente culpados, merecedores do castigo eterno... e mesmo assim Ele nos redime, nos coroa, nos adota como filhos, nos faz participar da Sua santidade! Por que não honrar esse Deus?

As Escrituras demonstram a perfeita unidade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A Trindade é uma comunidade de amor e honra, a expressão máxima de comunhão e interdependência. Jesus recebeu "honra e glória de Deus Pai quando, pela glória majestosa, a seguinte voz lhe foi dirigida: Este é o meu Filho amado de quem me agrado" (2 Pedro 1.17). Quando os fariseus acusaram Jesus de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, o Filho defendeu a honra do Espírito Santo: "Todo tipo de pecado e blasfêmia será perdoado aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do homem, isso lhe será perdoado; mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro" (Mateus 12.31-32). Enquanto esteve na terra, Deus foi honrado por Jesus: "Em verdade, em verdade vos digo que o Filho nada pode fazer por si mesmo, senão o que vir o Pai fazer; porque tudo quanto ele faz, o Filho faz também. [...] Não posso fazer coisa alguma por mim mesmo; conforme ouço, assim julgo; e o meu julgamento é justo, porque não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" (João 5.19,30).

O que aprendemos com a Trindade em relação à honra deve ser a marca de nossas igrejas, de nossas vidas enquanto comunidade de fé, para que o mundo creia e seja transformado pela mensagem de salvação e vida abundante que carregamos. Se é um mandamento amarmos e nos submetermos a Deus, dando a Ele o valor e a atenção devidos, assim devemos nos amar e nos sujeitar uns aos outros. Veremos na segunda parte como a honra deve estar presente no dia a dia dos relacionamentos interpessoais.

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