domingo, 5 de dezembro de 2010

Promessa não é seguro de vida

Luciano Motta

Promessa. Palavra bonita, sedutora. Abundantemente pregada nos púlpitos e nos programas televisivos. Tema recorrente em inúmeras canções e CDs de diversos artistas gospel. Em muitas igrejas não há um só culto cuja ênfase não seja essa: as promessas de Deus. Faz bem ao coração do perdido - e dos salvos também.

Promessa tem sido transformada em garantia de imortalidade aqui na terra. Não raro ouvimos:

"Você não vai morrer enquanto as promessas de Deus não se cumprirem em sua vida!"

Você já ouviu ou cantou algo parecido com isso? Sem dúvida, muitas vezes. É uma mensagem que afaga o ego e alimenta ainda mais o espírito antropocêntrico desse século. Como sair insatisfeito de um culto cuja ênfase invariavelmente seja "você é mais do que vencedor" ou "em Deus você pode todas as coisas"? Ou não ficar inflado com sermões que te dão "quatro chaves para a conquista" e "cinco passos para a prosperidade em todas as áreas da vida"?

Eu acreditava nisso. Ministrei esse tipo de mensagem em muitos cultos. Mas recentemente meus olhos se abriram a partir dessa passagem:

"Todos estes ainda viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-nas de longe e de longe as saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra" (Hebreus 11.13 NVI).

A quem se refere esse texto? Abel, Enoque, Noé, Abraão e Sara (v.4-11). Poderia discorrer agora sobre a trajetória desses personagens, as promessas que receberam de Deus e as provas de fé pelas quais passaram. Mas vamos fazer diferente: leia e pesquise na Bíblia sobre cada um deles. De fato quero ressaltar aqui que essas pessoas "viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido".

Como assim? Morreram? Mas "quem tem promessa de Deus não morre... aleluiasss!" - É o que ouvimos comumente. E é um grande engano.

Os heróis da fé listados em todo o capítulo 11 da epístola aos Hebreus, e também (por que não?) os incontáveis homens e mulheres que ao longo dos séculos dedicaram suas vidas a Deus, receberam promessas tremendas e viveram pela fé. Contudo, muitos deles morreram antes de verem algumas dessas promessas se concretizarem. Viram tudo "de longe e de longe as saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra". Na verdade, entenderam que faziam parte de um plano muito, muito maior de Deus, que abrangia povos e nações desconhecidas por eles; um plano que ultrapassava qualquer deleite pessoal efêmero ou riqueza humana desse mundo.

O engano do que vou chamar de "teologia da promessa" está no modo como reduz o grande plano de Deus ao tamanho das necessidades pessoais e imediatas dos ouvintes, prometendo resoluções e intervenções divinas as mais diversas a partir de passagens bíblicas que se tornaram chavões de auto-ajuda gospel. Por esse ângulo, as famosas "caixinhas de promessas" foram precursoras desse movimento. Inegavelmente é maravilhoso poder ler sempre um texto bíblico que nos é favorável, abençoado, quase um "paracetamol cristão" para alívio diário das nossas dores de cabeça. Mas será que alguém já experimentou ler o contexto em que essas mesmas promessas se encontram na Bíblia e sondar a mensagem exata de Deus?

Paracetamol só traz alívio, não cura. E ainda pode ser um remédio inapropriado, se usado indevidamente. Daí outra confusão: Promessa embalada como profecia. E complica mais quando o homem ou a mulher falam em nome de Deus, e declaram que certas coisas irão ocorrer na vida da pessoa e que Deus é Fiel para cumprir, pois foi Ele quem prometeu, etc etc etc. Tantos "profetas" que falam, determinam, declaram de si mesmos, e não tem a verdade de Deus. Profecias encomendadas para agradar a plateia, como nos tempos do rei Acabe (1 Reis 22.1-25).

As promessas são importantes. Nutrem a nossa esperança, a nossa fé. Mas não podem ser tratadas assim. Pois hoje inúmeros crentes estão frustrados com Deus, com a igreja. Receberam promessas, acreditaram nelas como remédios definitivos de suas dores (e resolução de seus problemas financeiros), mas no fim só acharam desilusão. Estas pessoas não foram apresentadas ou não conheceram o único que pode curar e transformar: JESUS. Por desconhecerem as Escrituras, erraram ou foram induzidas ao erro.

Sem a pretensão de criar um conceito, creio que toda promessa está ligada a um contexto, a um plano de Deus, que pode ser maior do que o meu e o seu tempo de vida nesta terra. Por isso podemos perfeitamente morrer sem vermos o fim de tudo. Isso fica bem claro, por exemplo, em um dos textos mais chavões usado pela "teologia da promessa" e que é convenientemente retirado de seu contexto e aplicação:

"...aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará..." (Filipenses 1.6).

Antes destas palavras, o apóstolo Paulo afirma sua gratidão a Deus pela vida dos filipenses e sua "cooperação no Evangelho" (1.5). Hoje em dia, qualquer pessoa recebe a promessa constante nesse texto sem que nela se verifiquem os valores do Reino. Pessoas que não cooperam em nada com o Evangelho e possivelmente nem são convertidas. Outro problema, ainda no verso 6: a obra que Deus havia começado naqueles crentes seria aperfeiçoada "até o dia de Jesus Cristo" (1.6b). Ou seja: uma referência direta à segunda vinda. Uma promessa que se completa no futuro, não no presente. Convenientemente esta última parte do texto fica de fora dos púlpitos, pois os ouvintes urgem por bênçãos imediatas e milagres urgentes.

A epístola aos Filipenses enfatiza uma vida em que o amor e a excelência aumentem mais e mais até o dia de Cristo (1.9-10); em que o "viver é Cristo, e o morrer é ganho" (1.21). Fala do esvaziamento do Filho por amor e obediência ao Pai (2.5-8) em contraste com uma igreja egoísta: "todos buscam o que é seu e não o que é de Cristo Jesus" (2.21). Exalta Epafrodito enquanto servo, colaborador, quase morto por causa do Evangelho (2.25-30). O apóstolo Paulo coloca suas conquistas e tudo mais como perda (3.7), pois tem um alvo (3.14) e uma pátria (3.20). Por isso, exorta os crentes a não ficarem ansiosos (4.6), a pensarem no que tem virtude e louvor (4.8). Paulo sabia passar necessidade e abundância (4.12), pois tinha uma certeza (e aqui aparece outro chavão): "Posso todas as coisas naquele que me fortalece" (4.13).

Portanto, a tal "boa obra" que Deus começou na verdade aponta para todos esses aspectos e fatos da igreja em Filipos e do apostolado de Paulo, e para a consumação de todas as coisas em Jesus. É uma promessa rica em ensinamentos e significados se considerada a abnegação do servo de Deus, que tem Cristo por alvo e o Evangelho como valor maior da vida.

Abel, Enoque, Noé, Abraão e Sara passaram. Você e eu vamos passar. Algumas coisas veremos, outras não. Mas tudo o que Deus prometeu irá se cumprir. Resta-nos crer, esperar Nele e viver segundo os Seus propósitos e vontade.

"Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança, porque fiel é o que prometeu" (Hebreus 10.23).

2 comentários:

  1. Anônimo13.1.12

    O principal de uma promessa, não é o fato de estarmos acomodados a elas, acreditando que nada nos acontecerá enquanto ela não se cumprir, mas sim o fato de que nosso Senhor zela pela promessa e que nossas atitudes é que levarão ao cumprimento delas! Abençoado texto Luciano! Dc. Julian

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    1. Olá, Dc Julian. Obrigado por comentar. O propósito desse artigo é alertar para o fato de muitas pessoas serem frustradas por "falsas promessas" e também por uma "falsa segurança" de que todos viveremos até que determinada promessa se cumpra. Sem dúvida, ao longo de nossas vidas, vemos muitas promessas de Deus sendo realizadas, que às vezes demoram, mas se cumprem. Porém, nem toda promessa terá seu cumprimento durante o tempo de nossas vidas, e é isso que este artigo procura esclarecer. A promessa que Deus fez a Abraão, por exemplo, ele não a viu em vida, porém a contemplou pela fé na linhagem que se levantaria a partir dele. Um grande abraço p vc!

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